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A ocasião faz o ladrão?

Gabriel Lopes Garcia

Estudos de Cultura Espírita · 2026-03-01 10:01 · 2 claps · 3.1 min read
#espiritismo #roubo #furto #livre-arbítrio
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A ocasião faz o ladrão?

Gabriel Lopes Garcia

Um político aproveita o poder de seu cargo e desvia verbas públicas para si. Uma pessoa aproveita as inundações na cidade em que mora para furtar casas. Um cliente aproveita a ausência de vigilância e subtrai itens da loja. Esses casos são exemplos do ditado popular que sentencia que, diante de uma oportunidade, qualquer indivíduo pode se tornar ladrão.

O provérbio implica que é a circunstância, e não a natureza moral da pessoa, que determina o ato criminoso. Essa conclusão é verdadeira? Abrange todas as situações? O comportamento humano é complexo e resulta da interação entre fatores ambientais, corporais, psicológicos e espirituais. Vamos pensar no assunto com o auxílio da Doutrina Espírita.

Eu sou eu e minha circunstância

Os exemplos de honestidade em contexto favorável ao furto refutam a completa abrangência do ditado popular. Muitas pessoas têm comportamento íntegro independentemente das circunstâncias. Embora seja fato que os valores culturais, a criação familiar e o pertencimento grupal exerçam poderosas influências sobre nós, existe uma margem de liberdade que escapa a qualquer determinismo social.

Do contrário, um risco se apresenta: retirar da pessoa a responsabilidade moral e legal de seus atos, e transferi-la integralmente para os fatores sociais. Reagimos de modos diversos aos ambientes e educação a que somos expostos, o que demonstra uma individualidade que não age estritamente segundo forças externas modeladoras.

Ponderação literária

O escritor Machado de Assis alterou o provérbio e propôs uma correção:

“A ocasião faz o furto; o ladrão nasce feito”.

Essa versão ressalta que o crime não é provocado pela oportunidade, mas sim pela inclinação natural da pessoa. A ocasião permite o ato e revela o caráter do indivíduo.

Se existe a deliberação de cometer o crime, então é-se livre para fazê-lo ou não. Muitas vezes as pessoas não violam as leis por causa dos mecanismos de contenção da sociedade ou pela falta de uma situação conveniente. Mas o desejo existe dentro da criatura a espera de um contexto adequado para realizá-lo.

Uma antiga questão filosófica

O homem já nasce bom ou mau? Qual é a origem das qualidades morais, boas e más, do homem? Para o Espiritismo são as do Espírito nele encarnado. O homem de bem é a encarnação de um Espírito bom e o homem vicioso a de um Espírito imperfeito.

A Doutrina Espírita faz uma distinção entre Espírito e homem. O Espírito é criado simples e ignorante, isto é, nem bom nem mau. Em razão de seu livre-arbítrio é suscetível de escolher qualquer caminho. O homem nasce bom ou mau segundo seja a encarnação de um Espírito adiantado ou atrasado.

Destino bandido?

Ao escolher sua existência, o homem que pratica um roubo não sabia de antemão que se tornaria ladrão. Escolhendo uma vida de luta, sabe que terá oportunidades de furtar. Mas ninguém é predestinado ao crime; todo crime, como qualquer outro ato, resulta sempre da vontade e do livre-arbítrio da pessoa.

O Espírito pode optar pela prova de reencarnar em ambientes de muitos vícios e crimes para se expor à tentação e ter o mérito da resistência. O mal se torna um arrastamento, porém não é irresistível. Nunca há fatalidade nos atos da vida moral. Muitas vezes é o próprio ladrão quem faz a ocasião para furtar ou roubar.

Para saber mais:

  • O Livro dos Espíritos. Itens 115, 361, 644, 645 e 861.

Autor: Allan Kardec. Editora: IDE.

  • Esaú e Jacó. Capítulo LXXV.

Autor: Machado de Assis. Editora: Simplíssimo.


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