Vícios e afagos.
Quando o nomeei de vício e afagos, não quis insinuar exatamente que seria uma ação adquirida pela amabilidade, mas, talvez, pela sua…
Vícios e afagos.
Quando o nomeei de vício e afagos, não quis insinuar exatamente que seria uma ação adquirida pela amabilidade, mas, talvez, pela sua escassez. Aos dezessete anos da minha mãe, seu primeiro cigarro foi tragado, dando abertura para vinte e cinco anos de vício. As ervas de tabaco processadas, misturadas a componentes químicos como nicotina, alcatrão, monóxido de carbono e outros elementos bobos como esses, prenderam-se a ela de uma maneira que, com muita dificuldade, ela foi capaz de largar.
O tabagismo para ela não parecia uma grande ameaça; sua avó, que a criou desde o seu desmame fumava! Seu avô, ao qual dedicou sua vida, também fumava! Seu irmão, poucos anos mais velho e adorado por todos, também fumava; suas amigas de passeios, primas, seus ficantes… Qual mal faria apenas um trago? Mas assim passaram-se vinte e cinco anos de vergonha, de julgamentos, de odor, de descontentamento, até que se desse um fim.
Lembro-me como se fosse ontem. Eu, nascida ao sol do meio-dia, banhada pela fumaça de cigarros baratos que aquela população fumava, intriguei-me com o cheiro que adentrava minhas narinas de forma grotesca. Invadia meus sentidos, deixando-me instável, causando-me curiosidade sobre aquilo que não podia tocar, mas que me mexia por inteira.
Eu cresci sem a presença da minha mãe. Seus toques, seus beijos, seus “Até mais”. Sem até mesmo que me chamasse de filha. Mas, por ironia, pelo fado da sina, sua fumaça me rodeava. Sentia seu cheiro pela casa de outros, pelas esquinas sujas das periferias de Olinda, pelos dedos de senhoras idosas e bocas de homens bêbados; encontrei em seus braços mutáveis e esbranquiçados a paz, o amor, o afeto e a presença de tudo aquilo que não me foi dado por ela. Eu a via, pela penumbra, a instabilidade dela… Ou da fumaça, eu não sei. Mas via.
Aos meus seis anos, ouvi várias vezes que aquilo matava, adoecia e apodrecia. Por medo, rezava e chorava todas as noites para a tríplice estrela divina, com o mero intuito de que minha mãe fosse liberta daquilo que era, ou do que a possuía. Mas não parecia existir alguém capaz de separá-la daquele ar miseravelmente visível e disperso. As mesmas minúsculas partículas restantes de combustões incompletas de carbono que me davam — e ainda dão — a falsa sensação do seu amor.
Contudo, alguém pareceu ter ouvido minhas orações: ela havia parado. Mas seu cheiro não se foi da minha vida. Eu a observava nos botecos que meu tio frequentava à noite, nas mãos de pessoas desconhecidas, nos comerciais, pelo chão das ruas. Em bitucas. Em fumaças. Em cheiros pós-fumo… Até encontrar de novo passeando pelos dedos e boca da minha mãe.
Eu não sabia o que sentia. Quer dizer, era a primeira vez que tinha minha mãe para mim, sem que precisasse estar dividindo com um outro alguém, competindo por sua atenção ou presa a alguma situação — talvez estivesse apenas me evitando mesmo. E lá estava ele. A porra do cigarro.
Recordo-me desse dia, atualmente, como algo engraçado. Eu chorei muito, tomei picolé, e ela me apresentou o cigarro. Passou-o para os meus dedos, disse que não fazia mal. Muito pelo contrário: trazia consigo paz e conforto. Mostrou que esse não fedia e, de fato, tinha cheiro de menta, quase como o pé de hortelã da minha bisa. Ela me apresentou o que não tinha coragem de me explicar. Me apresentou como se apresentasse um amigo. Como se fosse algo que lhe fazia bem. E eu quis ser como ele; eu queria lhe fazer bem. Dar-lhe a paz que aquilo lhe dava. Nesse dia, ela foi tão carinhosa comigo. Eu conheci a ela e ao seu amor.
Eu não sei definir ao certo a primeira vez que fumei, mas marco os meados dos meus doze a treze anos. No dia, eu estava superatrasada para romper o ano em Mangue Seco e, trancada no banheiro, ouvi algo do tipo: “esqueci meu cigarro aí, cuidado para não molhar”. Apenas duas pessoas estavam presentes no apartamento, mas parecia estar tudo tão agitado. Eu não sei. Eu me perdi nos meus pensamentos. E fumei. Desde então, sempre que eu podia, fumava.
Quando me mudei para Igarassu, as coisas melhoraram muito. Eu o larguei — por cerca de três meses — mas ela não. No meu aniversário de quinze anos, ela me chamou para comprarmos cigarro perto de casa, e então eu o vi. O mesmo cigarro de menta que ela passou nos meus dedos, aquele mesmo que lhe trazia paz e conforto. Aquele mesmo que me fez experimentar o seu amor unicamente difícil e quase inacessível. Ela o levou para casa e, quase como uma chave, desbloqueou-me sentimentos muito antigos e dolorosos. E então, desde os meus quinze anos, não tenho parado.
Sempre nos encontramos.
Nos encontramos nas noites quentes e dolorosas em que não experimento o afeto dela, mas sua discórdia, seu ódio, seu rancor, seus medos, seu desgosto, sua abstinência, seus sofrimentos — dos quais sequer sou culpada. Me vejo tragando sua paz e aconchego, sinto-me afagada pela instabilidade quase invisível de seu ser. Me vejo em seus braços. Saboreando todo o seu amor. Sendo como você. Recebendo o que passou para mim: a porra do seu vício afetivo e, comicamente, hereditário.
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