eu ainda não disse tudo o que eu queria dizer
e estar aqui, neste meu leito de morte…
eu ainda não disse tudo o que eu queria dizer

“the repentant magdalen”, georges de la tour
eu ainda não disse tudo o que eu queria dizer e estar aqui, neste meu leito de morte pensando nisso faz meu estômago doer
eu fiquei com muitas coisas entaladas, engasgadas aqui dentro algumas eu simplesmente esqueci (assim como alguns versos que gostaria de adicionar a este poema mas que já se foram com o vento)
eu ainda não disse tudo o que eu queria dizer sempre fui uma pessoa cheia de palavras nos bolsos mas nunca pensei que um dia, como agora teria medo de não ter dito o suficiente
e o pensamento de ir embora sem ter espalhado essas minhas palavras insignificantes, medíocres, inúteis palavras me assombra como um fantasma
eu ainda não disse tudo o que eu queria dizer e levar essas coisas para o túmulo comigo não estava nos meus planos
será que terei que escrever no meu epitáfio um livro inteiro?
será que terei que assombrar todo mundo que passou por esta vida insignificante, medíocre, inútil vida?
de que adianta viver, afinal, sem dizer o que é preciso dizer?
infelizmente eu nunca soube quando era minha vez de falar
e por causa deste medo insignificante, medíocre, inútil medo eu passei minha vida em silêncio
se me arrependo? amargamente! completamente! queria eu ter interrompido os outros discursos só para que ouvissem os meus
infelizmente eu nunca tive a coragem de falar a verdade
eu sempre me mantive nas sombras, austera, misteriosa, silenciosa, e pra que serve isso?
de que adianta viver, afinal, num silêncio que só você compreende?
existe algo de bonito em não ser compreendida?
“ela é diferente, ela é assim mesmo, deixem-na! deixem-na! deixem que ela apodreça esperando pelo momento certo!”
infelizmente eu nunca soube quando era minha vez de falar
sinto que passei minha vida esperando por esse momento
sinto, aliás, que ainda estou esperando por isso
esse momento existe? e se não existe, por que todos sabem disso, menos eu?
por que me mantiveram aqui, nessa sala de espera, olhando para todos e esperando pelo precioso momento em que finalmente olhariam para mim?
será que, na verdade, para que me deem um pouco de atenção, eu preciso ser como eles?
será que tenho que emitir um sinal prévio? será que eles o emitem e eu nunca percebi? será que todos percebem menos eu? será que eles percebem que eu não percebo?
eu acho que estou cansada de me despedir com gritos surdos entalados aqui dentro
gostaria de ser mais sincera, menos vigilante menos cuidadosa
gostaria que as coisas fossem naturais para mim como são para as outras pessoas, mas não são!
e é por causa disso que minha vida é um amontoado caótico de não-ditos!
e aqui, neste meu leito de morte, eu me arrependo de todas as vezes que esperei o momento certo
me arrependo de ter escrito em vez de ter gritado
eu não sei mais se quero continuar escrevendo coisas que ninguém vai entender
não sei mais se é tão legal assim ser essa incógnita, incompreendida, esquisita, desequilibrada
oh, que pena desta pequena, pequeníssima bomba-relógio de palavrinhas!
eu até que gosto de viver esta vida por mais que eu preferisse ser outra pessoa que não eu
e pensar na morte, aqui, nestes últimos momentos também me faz pensar que eu não quero morrer sem antes ter sido importante
e eu sei que as pessoas próximas dirão que sim, eu sou importante para elas — eu sei!
mas não sabiam vocês que talvez eu esteja aqui na Terra por algum outro motivo?
a grande maioria de nós vai morrer sem deixar um legado
e é justamente neste único quesito que eu quero ser diferente
quero ter sido importante, mas não somente quero ter sido grande quero ter sido lembrada e justamente por minhas palavras
insignificantes, medíocres inúteis palavras que continuo escrevendo para que alguém olhe e diga: “você é tão idiota, mas confesso que eu também”
se por algum milagre eu consiga realizar o sonho, a loucura, o delírio de ser canonizada um dia
somente desse jeito minhas palavras farão sentido
e aqui, neste meu leito de morte, me arrependo de não ter tentado o suficiente
de não ter gritado quando pude nem jogado as palavras ao vento de não as ter registrado de não ter interrompido
porque afinal, eu mesma já fui interrompida tantas vezes que me questiono se é por culpa minha se fui eu que deixei tudo isso acontecer
eu já escrevi tantas, mas tantas palavras e mesmo assim ainda não disse tudo o que queria dizer
será que se eu viver o suficiente terei dito?
ou será que, não importa o quanto eu viva, vou sempre continuar com alguma palavrinha entalada no meu peito?
eu não quero morrer agora na verdade, é até irônico porque acho que na semana passada mesmo eu queria
mas agora não quero! eu não quero morrer! eu quero viver! eu quero que viver faça sentido!
não quero resolver as coisas com a morte, mas com uma vida melhor!
não quero este leito, não quero o silêncio, nunca mais o silêncio!
não deixem que eu passe outro dia sem ter dito o que eu queria dizer!
não quero que seja tarde demais, porém já é
não quero que tenha sido em vão, mas não foi?
só quero parar de sofrer por viver com essas palavrinhas teimosas que não saem de mim
só quero morrer sem ter que escrever no meu epitáfio:
“eu não disse tudo o que eu queria dizer”
ou vou ter que esperar por uma outra vida em que eu nasça do jeito certo
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