Geografia Escolar e a Construção da Identidade Negra na Infância
Geografia Escolar e a Construção da Identidade Negra na Infância
Como uma educação antirracista e o conceito de “lugar” transformam a trajetória de crianças pretas e pardas.
Por Andrelina Santos

A Geografia constitui um importante campo do conhecimento para a compreensão do espaço vivido e dos significados que os sujeitos atribuem aos espaços. Mais do que estudar a organização do espaço geográfico, a Geografia Escolar busca compreender os processos de construção das identidades, das representações sociais e das relações étnico-raciais presentes nos territórios. Santana (2013) argumenta que, ao considerar o espaço como produto das relações sociais, esse mesmo espaço é capaz de condicionar a própria sociedade por meio das práticas sociais. Assim, além de produto e condição do meio, o espaço é um elemento fundamental para a vida, que abrange e concretiza os sujeitos em suas dimensões físicas, mentais e sociais, evidenciando-se no cotidiano de forma a possibilitar o repensar de suas existências de maneira relacional e crítica. A partir dessa visão crítica, é possível analisar de que maneira o racismo se manifesta em diferentes contextos do espaço, inclusive in lugares como a escola, que deve ser promotora da equidade, da justiça social e da valorização da diversidade.
Segundo Souza, Lessa, Lima e Costa (2022), o conceito de lugar na Geografia, a partir da abordagem humanista, está associado às experiências vividas, às relações de pertencimento e aos significados atribuídos pelos sujeitos ao espaço. Nessa perspectiva, por meio da categoria geográfica lugar, torna-se possível compreender como o pertencimento étnico-racial participa da construção da identidade, do sentimento de pertencimento e do exercício da cidadania. Assim, o lugar deixa de ser apenas um recorte espacial para constituir-se como um espaço de experiências, memórias, afetos e produção de sentidos, elementos fundamentais para a formação dos sujeitos.
Para Neusa Santos Souza, é indispensável desenvolver estudos que contemplem as dimensões emocionais e subjetivas da experiência da população negra, resgatando sua história e fortalecendo a construção de uma identidade negra fundamentada em suas potencialidades, saberes e formas de resistência. A autora demonstra que o racismo ultrapassa as desigualdades materiais e produz profundas marcas na constituição da subjetividade, afetando a autoestima, o sentimento de pertencimento e os processos de identificação.
Na perspectiva da afro-perspectividade, desenvolvida por Renato Noguera, a infância é compreendida como uma condição existencial, isto é, uma maneira singular de experimentar e compreender o mundo, ampliando as possibilidades de viver, aprender e produzir conhecimentos. Nessa perspectiva, a infância deve ocupar um lugar central nos projetos educativos comprometidos com a valorização das identidades negras, da diversidade cultural e da formação de sujeitos críticos, conscientes de sua história, de seu território e de seu pertencimento.
Segundo Noguera, as crianças negras enfrentam cotidianamente experiências sociorraciais que atravessam suas trajetórias escolares e suas formas de existir. A infância vivida em contextos marcados pelo racismo constitui uma experiência específica, produzida pelas desigualdades históricas e pelos processos de colonialidade que estruturam a sociedade brasileira. Em diálogo com Frantz Fanon, compreende-se que o negro é produzido socialmente como “negro”, isto é, sua identidade é atravessada por relações históricas de poder, inferiorização e desumanização. Assim, as crianças negras também vivenciam desde cedo os efeitos do racismo e da colonialidade, que impactam sua saúde mental, a construção de sua identidade e sua percepção de pertencimento.
Nesse contexto, esta pesquisa busca analisar experiências concretas da infância negra e compreender de que maneira uma educação antirracista, que reconheça crianças pretas e pardas como protagonistas de suas próprias histórias, pode transformar suas formas de existir, fortalecendo a autoestima, o pertencimento e a construção de identidades positivas.
Frantz Fanon (2008) defende a necessidade de romper com os processos de desumanização produzidos pelo colonialismo, possibilitando que a população negra se reconheça como sujeito de sua própria história e de sua ação política. Para o autor, a superação da condição de objeto imposta pela ordem colonial exige a reconstrução da subjetividade e a afirmação da autonomia. Essa perspectiva dialoga diretamente com a proposta de Neusa Santos Souza, para quem a emancipação se constrói quando a população negra produz um discurso sobre si mesma, fundamentado em suas experiências e realidades vividas. Valorizar essas narrativas significa reconhecer a subjetividade negra, suas memórias, seus afetos e suas formas de resistência, elementos essenciais para uma educação comprometida com o enfrentamento do racismo.
Essa discussão aproxima-se das reflexões de Chimamanda Ngozi Adichie sobre o “perigo de uma história única”. A autora demonstra que a repetição de narrativas únicas produz apagamentos históricos, reforça estereótipos e limita a compreensão da diversidade das experiências humanas. A história importa não apenas pelo que conta, mas também pela forma como é contada e pelos sujeitos que têm o direito de narrá-la.
No contexto escolar, essa reflexão torna-se especialmente relevante diante della utilização de obras literárias que, quando trabalhadas sem mediação crítica, podem reforçar representações limitadas sobre a população negra. O debate em torno de Menina Bonita do Laço de Fita evidencia a necessidade de problematizar determinadas leituras e ampliar o repertório da literatura infantil afro-brasileira. Obras como Ómo-Oba: Histórias de Princesas, O Mundo no Meu Black Power, Amoras e Meu Crespo é de Rainha apresentam narrativas que valorizam o protagonismo negro, fortalecem identidades positivas e contribuem para a construção de práticas pedagógicas alinhadas à educação das relações étnico-raciais.
Segundo Souza e Santos (2020), na formação de professores de Geografia é essencial que o tratamento das questões sociais e da formação cidadã esteja explicitado no Projeto Político-Pedagógico.
Nesse processo, a Geografia Escolar desempenha um papel fundamental ao desenvolver uma leitura crítica do espaço, das territorialidades e das relações de poder que estruturam a sociedade. Mais do que abordar conteúdos disciplinares, a Geografia possibilita questionar formas de dominação presentes também no campo epistemológico, problematizando conhecimentos produzidos a partir de perspectivas eurocêntricas e colonialistas. Ao reconhecer diferentes formas de produzir conhecimento e de interpretar o mundo, contribui para a construção de uma educação mais humanizada, plural e comprometida com a justiça social.
Renato Noguera aponta que as infâncias, compreendidas como espaços para a formação humana, constituem um terreno fértil para o desenvolvimento do pensamento crítico, da autoestima, do sentimento de pertencimento e da construção de identidades. É nesse período da vida que se consolidam importantes referências sobre cultura, memória, relações sociais e modos de compreender o mundo. Assim, investir em uma educação antirracista desde a infância significa promover experiências educativas comprometidas com a valorização da diversidade, com o fortalecimento das identidades negras e com a formação de sujeitos capazes de exercer plenamente a cidadania.
Nesse sentido, torna-se indispensável construir práticas pedagógicas que rompam com concepções imperialistas, colonialistas e eurocêntricas que, ao longo da história, invisibilizaram os saberes, as culturas e as experiências da população negra. Em diálogo com as reflexões de Chimamanda Ngozi Adichie sobre o “perigo de uma história única”, compreende-se que a predominância de narrativas únicas reforça estereótipos, produz apagamentos históricos e limita o reconhecimento da diversidade de experiências e conhecimentos. Assim, uma educação fundamentada na justiça social e no reconhecimento da pluralidade de saberes contribui para transformar as relações étnico-raciais e enfrentar as desigualdades produzidas pelo racismo.
Conforme argumenta Neusa Santos Souza, o racismo deixa marcas profundas na constituição da identidade da população negra, produzindo efeitos que atravessam a subjetividade e as formas de existir. Em diálogo com essa perspectiva, Renato Noguera e Marcos Alves defendem que a infância deve ser compreendida como potência, e não como ausência ou incompletude. Reconhecer a criança como sujeito de direitos, produtora de conhecimentos e protagonista de sua própria história amplia as possibilidades de construção de uma educação comprometida com a equidade, o respeito às diferenças e a valorização das múltiplas formas de existência.
Desse modo, esta pesquisa reafirma que a Geografia Escolar, articulada à educação para as relações étnico-raciais, pode desempenhar um papel fundamental na formação de crianças críticas, conscientes de seu pertencimento e capazes de reconhecer a diversidade como princípio para a construção de uma sociedade mais justa, democrática, antirracista e comprometida com a formação social e identitária de crianças negras.
Referências
- ADICHIE, Chimamanda Ngozi. O perigo de uma história única. Companhia das Letras, 2019.
- BONIFACIO, Welberg Vinicius Gomes. A história, a cultura negra e as relações raciais na escola. Dissertação de Mestrado, UFG, 2016.
- CRISPIM, Thiara de Sousa; SILVA, Mar. O perigo da história única em Menina Bonita do Laço de Fita. Anais do X CONEDU, 2024.
- FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. EDUFBA, 2008.
- SANTANA, João Paulo Monte de. Uma reflexão sobre o espaço, o cotidiano e o sujeito em sociedade. IPUR/UFRJ.
- SOUZA, José Werlon F. de; et al. O conceito de lugar e a sua relevância para o ensino de Geografia. Revista da Casa da Geografia de Sobral, 2022.
- SOUZA, Lorena Francisco de; SANTOS, Camila da Conceição Reis. A geografia escolar e o ensino das relações étnico-raciais. Revista da ABPN, 2020.
- SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro: ou as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. Zahar, 2021.
메타데이터
- post_id
- ba3645b545bd
- slug
- geografia-escolar-e-a-construção-da-identidade-negra-na-infância-ba3645b545bd
- url
- https://medium.com/@espacoautonomoarvoredosabia/geografia-escolar-e-a-constru%C3%A7%C3%A3o-da-identidade-negra-na-inf%C3%A2ncia-ba3645b545bd
- canonical_url
- https://medium.com/@espacoautonomoarvoredosabia/geografia-escolar-e-a-constru%C3%A7%C3%A3o-da-identidade-negra-na-inf%C3%A2ncia-ba3645b545bd
- author_url
- https://medium.com/@espacoautonomoarvoredosabia
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-07-26 21:44:25