A morte não é nada
Em novembro de 2017 eu lembro de estar na faculdade e receber uma ligação do meu pai. “Filho. Ligaram pra gente do hospital pedindo pra…
A morte não é nada
Em novembro de 2017 eu lembro de estar na faculdade e receber uma ligação do meu pai. “Filho. Ligaram pra gente do hospital pedindo pra levar os documentos da sua tia.” Eu já tinha ouvido aquilo em 2008 quando meu tio Juca faleceu. Chorei demais. Não queria aceitar mais uma morte. Dois anos antes tinha sido minha irmã, agora minha tia. Minha família sempre foi marcada pelo luto. Essa é uma das consequências de ser preto. A morte te cerca. Tá sempre lá, atingindo alguém próximo. Minutos depois a confirmação veio. No caminho pra casa abri meu livro sobre mitologia dos orixás e li um conto em que Exu é derrotado por Iku, a morte. “É isso. Ninguém derrota a morte. Ela tá aí. Tenho que lidar”, pensei comigo. Friozão. Meses depois peguei meu livro outra vez porque precisaria contar um Itan no final do treino de capoeira. Precisava ser um Itan sobre os Ibejis. Fui procurar no livro e o seguinte título me chama atenção: “Os Ibejis enganam a morte”
O Itan conta que os Ibejis, orixás gêmeos, viviam pra zuar. Corriam pra lá e pra cá brincando e tocando seus tambores mágicos. Acontece que Iku andava colocando armadilhas pelos caminhos e comendo todos que caíssem nelas. Iku não tinha pena de ninguém. Comia crianças, velhos, homens e mulheres. Tava passando o rodo em geral. Ninguém sabia o que fazer, mas os Ibejis tinham um plano: Um deles foi pela trilha perigosa onde Iku armara uma das armadilhas. O outro foi seguindo o irmão escondido, acompanhando ele à distância no meio do mato. O Ibeji que ia pela trilha foi tocando o tamborzin. Tocava tão bem e com tanto gosto que a Morte ficou maravilhada, não quis que ele morresse e o avisou da armadilha. Iku começou a dançar descontroladamente, enfeitiçada pelo som do tambor do menor. Quando ele se cansou de tocar, o outro irmão, que estava escondido no mato, trocou de lugar com ele, sem que Iku percebesse. Assim um substituía o outro e o batuque não parava nunca. E Iku, ainda que estivesse muito cansada, não conseguia parar de dançar. E o batuque continuava. Iku, que já tava morta com farofa, pediu ao menino que parasse um pouco com a música, para que ela pudesse descansar. Iku implorava. Já não aguentava mais. Os Ibejis então propuseram um acordo . “Você tira as armadilhas e a gente para de tocar. Suave?” Iku, sem ter outra escolha, aceitou. E foi assim que os Ibejis enganaram a morte e salvaram aquele povo.

Aí eu entendi que a morte não é nada. Somos um povo de ritmo e espírito, como disse Dr. Khalid Muhammad. Essa é a nossa marca. E é o que nos mantém vivos, mesmo que a morte nos cerque e nos encontre. Somos capazes de produzir as coisas mais belas do mundo mesmo diante do caos, da tragédia, da escassez. Mesmo que matem nossos corpos, nosso espírito segue vivo. Nossa alegria segue dando risada na cara da morte. Quando eu morrer, quero que mantenham viva a minha alegria.

foto de Léo Lima
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