Estava assistindo o Roda Viva com o Falabella
Cresci acompanhando esse programa e tenho carinho por ele. Era uma das poucas janelas que eu tinha para tatear uma “vida intelectual”…
Estava assistindo o Roda Viva com o Falabella
Cresci acompanhando esse programa e tenho carinho por ele. Era uma das poucas janelas que eu tinha para tatear uma “vida intelectual”, quando eu ainda era jovenzinho. Vendo agora, bateu um sentimento estranho.
Falabella é um artista velho: leu bons livros, viveu uma história longa na televisão e no teatro etc. Entrevistá-lo é diferente de entrevistar uma celebridade qualquer porque ele é, digamos assim, “alguém”. Quero dizer o seguinte: quando um Felipe Neto ou coisa parecida vai ao programa, por exemplo, não importa desvelar o indivíduo, que é insignificante, mas o que permite a esse algo insignificante fique tão relevante. Falabella não, ele é um indivíduo com idiossincrasias, virtudes, limites, originalidades etc.

Um outro ponto que me chamou atenção na entrevista foi que Falabella era uma referência cultural comum entre os entrevistadores e, nesse sentido, uma espécie de âncora para um mundo mais compreensível. Ele teve destaque justamente numa época em que todos viam os mesmos programas, conheciam as mesmas músicas e construíam mais vivências comuns. E essa época, evidentemente, foi soterrada.
A oferta de estímulos no mundo de hoje não só é muito mais frenética como também cooptada muito mais rápido pelo mercado. Minha impressão é que, diante de Falabella, os entrevistadores pareciam conseguir recuperar brevemente um “nós” que não tem mais lugar no mundo.
Em suma, este não é um texto sobre essa pessoa e também não quero lamentar a marcha da história, mas vi ali o brilho de algo autêntico que me fez refletir um pouco. Senti vontade de encontrar mais formas de sair das vivências tão “mercadologicamente padronizadas” que nos empurram atualmente. Ignoro como conseguir isso por outros meios além daqueles que já utilizo (filosofia moderna, meus gatos, literatura e rock, no meu caso), mas acho que, daqui para frente, farei algum esforço extra para, como o Falabella, continuar a ser alguém.
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