A anti-philosophia e as aves
A anti-philosophia e as aves — Luiz Oliveira (30–05–2022)
A anti-philosophia e as aves
A anti-philosophia e as aves — Luiz Oliveira (30–05–2022)
Se algumas aves (a coruja, o galo, a águia e até a fênix) simbolizam de modo adequado a busca pela sabedoria (philosophia), há aves que simbolizam a oposição ou a negação da busca pela sabedoria (anti-philosophia).
O avestruz, o papagaio, o urubu e a galinha são algumas dessas aves que parecem simbolizar de modo adequado essa oposição ou essa negação.
O avestruz, ao colocar sua cabeça debaixo da terra, é como aquele que se recusa a ver, aquele que foge da sabedoria — e a sabedoria está intimamente relacionada com a visão. É conhecida a idéia de Aristóteles de que a visão tem algo que ver com o desejo de conhecimento (cf. Metafísica 980a22, Livro I). Também é conhecida a idéia de que tanto a admiração (thaumazein) quanto a contemplação (theoria) tem algo de visual¹.
O papagaio, que apenas repete os sons que ouve, é como aquele que tagarela, mas que não tem conhecimento do que fala; se opõe à sabedoria no sentido de parodiá-la, de só repetir sem saber o que repete. É a ausência da consciência de si — fundamento da busca pela sabedoria², e é a ausência da consciência do sentido do que é dito — que também pode ser chamado de verbalismo.
O urubu, ao devorar a carne de defuntos, é como aquele que se opõe à vivacidade da sabedoria, por preferir as “idéias mortas”, as ideologias datadas. O urubu também é aquele que não caça, é como aquele que não vai atrás da sabedoria, não tem uma busca ativa, um ímpeto de saber, é como o preguiçoso que não quer ir atrás da sabedoria vivificante e que, portanto, só fica com restos em decomposição.
¹. Entenda-se aqui por atividade visual a atividade do “Olho do Coração” (Eye of the Heart), expressão que dá título ao livro de F. Schuon. Esse Olho do Coração — ou o “Olho do Conhecimento” (Eye of Knowledge) vê mesmo sem a visão física.
². Por isso o lema oracular do “conhece-te a ti mesmo” (gnothi seauton) como fundamento filosófico. Aquele que repete a sabedoria de forma vã não se conhece, ignora-se a si mesmo e, por isso, é um anti-philosophos.
A galinha, ao ciscar grãos pelo chão, é como aquele que não quer ter uma cosmovisão, que não quer a sabedoria toda, mas só umas migalhas, só uma meia dúzia de idéias, uma meia dúzia de palavras com as quais ele possa concordar. Não quer a sabedoria, quer o conforto das n opiniões sobre n assuntos, daí que possa ser chamado de amante da opinião (philodoxos). A galinha também é a ave que não voa, é como aquele que não busca a sabedoria celeste, a sabedoria etérea, e é como aquele que não vive a plenitude da liberdade sapiencial.
Com isso não se quer só apontar os defeitos ou as limitações dessas aves e, consequentemente, das pessoas que, por algum motivo, imitam tais comportamentos, mas antes trazer símbolos de contraste, para que aquele que pensa em buscar a sabedoria ou para aquele que busca a sabedoria não acabe por perverter a sua jornada sapiencial.
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