Projetos esportivos mudam realidades de jovens em escolas e comunidades
Adiee e Escola de Futebol Inclusão Social Monte Serrat são exemplos de iniciativas que unem educação, cidadania e esporte para menores
Projetos esportivos mudam realidades de jovens em escolas e comunidades
Adiee e Escola de Futebol Inclusão Social Monte Serrat são exemplos de iniciativas que unem educação, cidadania e esporte para menores
Por Lucas de Lima e Vitória Marques

A Adiee atende atualmente cerca de 2.600 alunos e atletas, sendo um clube aberto a toda sociedade. Foto: Vitória Marques.
O sinal que anuncia o fim das aulas nas escolas nem sempre significa o fim da aprendizagem. Para muitos jovens, o esporte continua sendo uma lição diária não só de movimento, mas de disciplina, respeito e cidadania. Reconhecido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) como um direito fundamental, o acesso ao esporte ainda é limitado e pouco divulgado, mas ganha força em iniciativas que transformam realidades dentro de escolas e comunidades. Um dos exemplos acontece dentro do Instituto Estadual de Educação (IEE), onde alunos e visitantes de outras escolas têm a oportunidade de se iniciar e se desenvolver no esporte em atividades que incluem basquete, ginástica, futsal e judô.
As modalidades são oferecidas pela Associação Desportiva do Instituto Estadual de Educação (Adiee), uma entidade de direito privado, sem fins lucrativos, e que tem representado o maior colégio público da América Latina para além de seus muros em competições estaduais, nacionais e internacionais. Atestam isso os vários troféus espalhados em seus corredores. Para além das conquistas, a Adiee é um de vários exemplos de iniciativas dedicadas à promoção do esporte na infância e na adolescência, como um meio de enfrentamento ao sedentarismo e para a construção de valores. A missão desses projetos é marcada não apenas por conquistas, mas também por desafios.
“Além de treinar, o projeto me ensinou disciplina: não faltar aos treinos, chegar no horário e me dedicar todos os dias. Isso também mudou bastante a minha rotina nos estudos, porque precisei aprender a me organizar”, afirma Francisco Syperrek, de 14 anos, atleta da Adiee. Sonhando em jogar basquete fora do Brasil, ele vê no projeto um caminho para se desenvolver como atleta. De acordo com o artigo 4 do ECA, é dever da sociedade em geral e do poder público assegurar o direito ao esporte, assim como ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária. Os artigos 217 da Constituição Federal e 174 da Constituição do Estado de Santa Catarina também reconhecem o dever do Estado em fomentar práticas desportivas formais e não-formais.
Na prática, a contribuição da sociedade para a promoção deste direito se evidencia na Adiee. Por causa da colaboração espontânea dos pais de alunos, a associação consegue adquirir os materiais essenciais para suas atividades, como explica Bruno Venâncio, ex-atleta, que, após dois mandatos como presidente da associação, atualmente é técnico da equipe de judô. “Hoje contamos com uma sala de primeiro mundo, totalmente equipada. Pensamos no projeto e foi aprovado, mas para colocá-lo em prática precisávamos de recursos. De onde veio o dinheiro? Das rifas, da contribuição dos pais”. Segundo ele, só o projeto custaria R$12.000 e a contribuição dos pais seria fundamental. “Hoje eles estão em uma sala que poucas têm em Santa Catarina, com iluminação perfeita, pintura impecável, proteção nas paredes adequadas e tatame olímpico com amortecimento”.
As rifas e doações voluntárias também foram, por muito tempo, as principais formas de financiamento da Escola de Futebol Inclusão Social Monte Serrat. O projeto fundado em 2016 foi idealizado pelo professor Joelson Veloso e três de seus alunos — Wagner Costa, Rajan Gonçalves e Pablo Shimizu. A iniciativa atualmente atende 150 crianças e adolescentes, promovendo a iniciação esportiva a partir de treinos semanais em diferentes categorias, do Sub-08 ao Sub-17; competições e ações que vão além do campo, como o acompanhamento da vida escolar e social dos alunos. Ainda assim, como aponta Dulci Borges, professora no projeto, a infraestrutura e a renda representam os grandes desafios da iniciativa. “Um dos maiores desafios é a falta de um campo adequado para treinos. Além disso, enfrentamos a desigualdade social: muitas famílias vivem com renda mínima e nem sempre conseguem comprar chuteiras, uniformes ou contribuir com os custos. Apesar das doações e rifas, nem sempre conseguimos suprir todas as necessidades”.
Com o objetivo de incentivar o esporte no estado, a Fundação Catarinense de Esporte (Fesporte) publicou em maio, o edital do Programa de Incentivo ao Esporte (PIE). O projeto possibilitará a captação de até R$15 milhões de reais para iniciativas que se enquadrem na proposta do edital, como projetos de esporte e paradesporto educacional e de formação esportiva, observando um valor máximo de R$100 mil reais por iniciativa. Entre os itens financiáveis pelo edital, se encontram equipamentos para aulas e materiais esportivos.
A professora Dulci, que se aproximou da Escola de Futebol Inclusão Social Monte Serrat acompanhando os jogos do filho, aluno do projeto, comenta orgulhosa sobre os resultados. “Muitos pais relatam mudanças no comportamento e nas notas escolares dos filhos. Os alunos sentem orgulho de vestir a camisa do projeto e de viver experiências que vão além da comunidade, como viagens para jogos e convivência em competições”, ressalta. Ela informa que eles já alcançaram conquistas importantes, como a equipe Sub-17, que chegou à final da Liga Florianopolitana. “Foi algo histórico para um projeto social. Isso nos enche de alegria e reforça que não estamos formando apenas atletas, mas cidadãos com sonhos, visão de futuro e afeto”, completa.

Nos projetos sociais são formados não apenas atletas, mas cidadãos com sonhos, visão de futuro e afeto. Foto: Vitória Marques.
Esse sentimento também aparece nos próprios jovens. “Meu maior sonho é me tornar um jogador da NBA e ganhar uma Olimpíada representando o Brasil”, revela Pedro Leite, de 14 anos, atleta de basquete da Adiee. Já Lohan Dorow, também de 14 anos, do Projeto Monte Serrat, sonha em se tornar jogador profissional de futebol e ajudar a família. Sonhos como esses, que nascem do contato com o esporte, mostram como projetos sociais podem ir muito além do campo ou da quadra. Para Dulci, é justamente esse potencial que faz do esporte um agente transformador.
“Os projetos são fundamentais porque mantêm os jovens em atividades saudáveis, ocupando o tempo livre com esporte, disciplina e convivência. Ele mostra que há um mundo de possibilidades além dos limites da comunidade, incentivando o estudo, os sonhos e a construção de perspectivas de futuro. O esporte aqui não é apenas um fim, mas um meio de transformação social”.
메타데이터
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