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Meu vício em maconha- parte 2

Então, durante o período de confinamento devido a pandemia de corona vírus, eu comecei a fumar maconha.

Gabriel Turte · 2026-06-09 20:35 · 0 claps · 4.7 min read
#vicio #psicologia #autoconhecimento #autocuidado
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Meu vício em maconha- parte 2

Então, durante o período de confinamento devido a pandemia de corona vírus, eu comecei a fumar maconha.

No começo, eu não sabia exatamente onde buscar. Mas logo encontrei uma forma de pular esse obstáculo, e descobri onde ficava a “loja” mais perto de casa. Com o tempo, fui descobrindo todas as que ficavam na região que eu morava.

Convém lembrar que o maconheiro pobre tem que ter sorte. As vezes, a qualidade da maconha que vende na biqueira é boa, outras vezes não.

Comecei a fumar durante a semana. Me sentia bem, me sentia relaxado. Parecia que minha cabeça funcionava melhor, como se eu entrasse em um estado tão gostoso, tão pacífico, tão espiritual.

Nas fases iniciais do uso mais frequente, em meados de 2019, até a segunda metade do ano de 2020, eu estava desempregado. Eu ainda cursava a faculdade e estava desempregado, fazendo alguns bicos e recebendo auxílio emergencial do governo.

Meu curso originalmente era presencial, porém, devido a pandemia, as aulas passaram a serem online, via video-chamada. Isso também permitiu com que eu passasse a fumar antes, durante e após as aulas.

Como eu estava desempregado, passei a vender bolo de maconha e outros doces canábicos. Para testar a eficácia do produto, passei a prová-los. Isso ocasionou brizas muito fortes, e hoje em dia olho para trás e vejo que certos episódios que eu tive foram crises psicóticas leves.

Digo “leves”, no sentido de que eu consegui me acalmar e voltar ao eixo. Mas já cheguei a ter uma briza de que meu olho estava saltando para fora do olho.

Pois é, foda. Eu não tinha muita crítica a respeito do quão preocupante o meu consumo de maconha estava se tornando. É importante dizer que o uso e consumo de maconha tem uma cultura formada ao seu redor. Algumas pessoas chamam de Cultura Canábica. É uma vasta cultura, que aborda diversos elementos relacionados a experiência envolvida no consumo da maconha. Um desses elemento dessa cultura é de que o consumo de maconha não faz mal, ou seja, não oferece riscos a saúde mental ou física, além de que não vicia.

Um argumento que era muito forte e verdadeiro para mim é de que o maconheiro é muito mais saudável do que o alcoolátra, por exemplo. Isso eu não ponho em dúvidas, porém atualmente entendo de que ambos, cachaçeiro e maconheiro são pessoas que tem um uso preocupante e vicioso das suas respectivas substâncias preferidas, alcool e maconha.

Na segunda metade de 2020, consegui um emprego de orientador socioeducativo no Centro de São Paulo. Eu lembro que fumava antes de ir trabalhar, ficando mais comunicativo e com mais vontade de realizar minhas atividades.

Vou resumir bem os próximos anos: basicamente meu uso ficou cada vez mais intenso, passei a fumar todos os dias. Na segunda metade do ano de 2021, comecei a ter alguns efeitos colaterais negativos, dos quais na época u não atribuia ao uso diário de cannabis, como vim a descobrir depois.

Muitas vezes eu me sentia excessivamente lento, com prejuízo na minha comunicação, como se as idéias se embaralhassem na minha cabeça. Também sentia falta de motivação para qualquer coisa que fosse além de fumar maconha (esse sintoma com certeza se revelou o pior e o mais sofrido). Eu não sentia mais prazer em estudar, em escrever poesias ou até mesmo desenhar.

Pra mim, o vício em maconha é traiçoeiro. Quando eu fumo, sinto um impulso criativo intenso, porém desorganizado e preguiçoso. Naquela época não era diferente, e eu pegava pra fazer vários desenhos, mas não termivana nenhum, assim como os poemas.

Durante a brisa, você pensa em várias idéias incríveis, pra depois esquecer todas.

Novamente, o vício é traiçoeiro.

Porque você sempre vai buscar aquela sensação gostosa, de relaxamento, de conexão, de paz. Todavia, após muito tempo usando, seu cérebro vai ficando encharcado daquela substância, da dopamina, e isso vai prejudicando sua capacidade natural de sentir prazer, suas capacidades executivas, sua cognição. Eu passei a ficar sem motivação, sem ambição, minha vida foi ficando pobre. Materialmente, eu sempre fora pobre, mas agora, existencialmente, eu me sentia muito pobre.

Acho que vício é isso, é uma coisa gostosa, que te consome porque você fica cego, bobo, viciado.

É o canto de sereia.

Enfim, em 2021, perto do final, resolvi parar de fumar. Um dia, após vários episódios no qual eu notei os efeitos negativos do vício em maconha de forma muito intensa, eu resolvi pesquisar, despretensiosamente, no Youtube, sobre pessoas que estavam tendo problemas com o uso de ganja.

Descobri que haviam vários que nem eu. Resultado, consegui ficar 3 meses e alguns dias sem fumar maconha.

Voltei a fumar quando estava com uns amigos, que estavam fumando. Olhei eles fumando aquele baseado- lembrei da sensação, do gosto, fiquei com vontade- fui lá e fumei.

É foda, quem diria, o vício foi voltando com força total. Não lembro de muitas coisas ocorridas durante os últimos anos, principalmente em eventos no qual eu estava muito chapado. Principalmente quando eu fumava e bebia cerveja.

Eu concluí minha faculdade em 2022. Tive vários trabalhos até hoje em dia (junho de 2026). Já passei alguns dias sem fumar, mas só. Vivo tentando parar, atualmente faço terapia, já tomei remédios psiquiatricos, mas atualmente não tomo nada.

A experiência com os remédios psiquiatricos foi interessante, aliás.

Eu não queria tomar remédios nem fudendo. Porque achava que aquilo me faria mal, sendo inclusive potencialmente viciante. Como eu sou da área da saúde, já havia testemunhado vários casos de vício em remédios psiquiatricos. Após muito tempo lutando e recaindo sem parar, eu começei a considerar seriamente o fato de que minha química cerebral estava desorganizada, de modo que eu precisaria de um remédio psiquiatrico para lidar com a abstinência, a fissura e todos os demais aspectos que eram decorrência do uso continuado.

Tomei alguns, ao longo de uns 3–4 meses, não passaram de 4 medicamentos. Gostaria de citar somente o bupropiona, que me ajudou a sair daquele estado de depressão, preguiça, inatividade e falta de energia para entrar em um estado de mais energia, disposição.

Em resumo, hoje em dia ainda não parei de fumar maconha. Ainda.

A esperança é a última que morre. Eu continuo lutando. Lutar contra um vício envolve você cuidar de você mesmo, ter amor a vida, e por você mesmo. Além claro, de amar as pessoas que gostam e se importam com você. Também ter auto-conhecimento, entender quem você é, o que você já foi e quem você quer ser.

Meu uso já foi pior. No momento, ainda uso diaramente. Mas tenho mais crítica, sei que tenho um vício. Continuo fazendo terapia. Faço muitos exerícios físicos, um hábito do qual não consigo ficar sem.

Busco forças na espiritualidade. Cuido da mente, corpo e espiríto.

E se eu pudesse ter dar um conselho, seria o seguinte:

Fique longe de drogas. Qualquer uma delas. Não sou moralista, porém, em minha experiência, o uso contínuo de uma substância te tira o prazer da vida, te faz entrar em um processo de vício, cujo qual é muito sofrido de sair. Você vai mudar o teu cérebro, pois a quimica da substância altera o seu funcionamento natural. Ou seja, o uso drogas envolve o risco de desenvolver dependência, que distorce sua visão da vida e de você mesmo.

Com amor,

Gabriel, um viciado em maconha em recuperação,

mas não somente isso.


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