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Da Maternidade Divina

A respeito da posição oficial da Igreja, é bom que se estude os Concílios de Éfeso, Calcedônia e Niceia. Aqui, pretendo apenas dissertar…

Caio Alexandre Farias Ferreira · 2026-05-28 15:42 · 5 claps · 4.0 min read
#catolicismo #teologia #jesus #maria #bíblia
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Da Maternidade Divina

Theotokos

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A respeito da posição oficial da Igreja, é bom que se estude os Concílios de Éfeso, Calcedônia e Niceia. Aqui, pretendo apenas dissertar livremente sobre este tema. Caso eu incorra em alguma discordância com alguma decisão da Igreja, não preciso esclarecer que deve-se recorrer a ela, e não a mim. Aceito, porém, correções (ou objeções) fundamentadas nos comentários :)

Para abordar este tema, é necessário que se estabeleçam algumas premissas básicas aqui, as quais eu estabelecerei baseando-me tão somente na razão e nas Escrituras. Desejo, porém, partir da principal objeção que é feita contra a maternidade divina:

Objeção: Maria é mãe apenas da humanidade de Jesus, e não da divindade, logo, ela não é “Mãe de Deus”.

Para começar minha defesa, quero partir de coisas que ninguém discorda, partindo das próprias Escrituras:

Premissa 1. Maria é mãe de Jesus. (Lc 1,31)

E, a respeito da natureza de Deus, quero estabelecer também outra premissa, que me parece de fácil adesão, devido à sua alta razoabilidade e conformidade com a razão:

Premissa 2. Deus é supremamente perfeito.

Aqui, temos um aspecto muito significativo de Deus, que nos dá indícios para outras proposições. O primeiro corolário pode ser extraído do “supremamente”. Se algo tem um atributo de forma suprema, esse algo possui esse atributo no grau mais alto possível. Sendo o grau mais alto possível de um atributo a completa correspondência desse atributo com a coisa a que este atributo está atribuído, vemos que:

Corolário 2.1. Deus é inteiramente perfeito

A segundo, creio que seja quase imediata, algo que seja inteiramente perfeito, ou, poderíamos até dizer, completamente perfeito, não pode ser ao mesmo tempo imperfeito sob algum aspecto. Logo, qualquer vestígio de imperfeição deve ser desconsiderado de um ser supremamente perfeito, e a própria possibilidade de imperfeição implicaria numa ausência de uma completa perfeição. E, como também creio ser razoável, aquilo que é inteiramente perfeito está no nível mais alto possível de perfeição, e assim, se um ser perfeito tivesse alguma abertura à imperfeição, seria ele menos perfeito do que aquele que não tem essa abertura (e isso não nega a onipotência divina, pois imperfeição diz respeito à falta. Assim, quando falamos de falta e imperfeição, a falta da falta implica na ausência da imperfeição, o que é uma necessidade evidente de um ser completamente perfeito). Logo, sendo Deus completamente perfeito, nele falta imperfeição, bem como a abertura à imperfeição, portanto, ele não pode ser corrompido, o que nos leva à próxima premissa:

Corolário 2.2. Deus é incorruptível.

Agora, estabeleço mais uma premissa que me parece perfeitamente razoável:

Premissa 3. Tudo que é composto é corruptível. (pois é divisível)

Entenda por composto algo que é complexo, ou seja, formado por partes. Sendo aquilo que é formado por partes algo divisível, por é possível separar as suas partes, e algo divisível corruptível, pois a divisão destrói a unidade daquilo que é dividido, de forma que aquela coisa (enquanto algo uno) é destruída e se torna outras coisas, assim, temos que tudo o que é composto é corruptível. Assim, por contrapositiva, temos que

Corolário 3.1. Tudo que é não-corruptível é não-composto.

Pelo Corolário 3.1 e 2.2, temos que tudo que é não-corruptível é não-composto, e que Deus é incorruptível. Ora, incorruptibilidade é o mesmo que não-corruptibilidade. Por conseguinte, Deus é não-corruptível, e assim, pelo Corolário 2.2, temos que

Proposição 4. Deus é não-composto.

Corolário 4.1. Deus é substância simples e não tem partes.

Algo que é não-composto é algo que não é feito de partes, ou seja, algo que é uno e só possui “uma única parte”, portanto, é algo simples. Logo, o corolário é consequência da premissa. Bem, preciso aqui utilizar mais duas premissas bíblicas:

Premissa 5. Jesus é Deus. (Jo 1, 1)

Premissa 6. Jesus se fez homem. (Jo 1, 14)

A partir da Premissa 5, temos que as premissas 2 e 3, bem como a Proposição 4, dizem respeito a Jesus. Vejamos outra conclusão interessante em que podemos chegar, a partir da premissa 6: Jesus, sendo Deus e sendo homem, ao passo que, por ser Deus, ele é simples e indivisível, não poderia ser dividido em “parte humana” e “parte divina”. Assim, pelas premissas 5 e 6, juntamente com o corolário 4.1, chega-se à mesma conclusão da Santa Igreja (Concílio de Calcedônia), de que

Proposição 7. Jesus é inteiramente humano e inteiramente divino.

E aqui chegamos no que creio ser suficiente para responder à objeção. Isso porque, sendo Jesus completamente humano e divino, seria impossível que algum parentesco com Jesus dissesse respeito apenas a uma das duas naturezas de Jesus. E caso isso fosse afirmado, teríamos dois Jesuses (Prova: Suponha que pudéssemos dizer que Judas é irmão da humanidade de Jesus. Pela Premissa 5, temos que Jesus é Deus. Ora, se Judas é irmão de Deus enquanto humano, mas não enquanto Deus, então há um Jesus Humano e um Jesus Deus, de forma que é possível ter parentesco apenas com um desses dois. Porém, se assim o fosse, estaríamos negando que Jesus é o filho único de Deus Pai, algo que nos é dito em João 1:14: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai”), ou a divindade de Jesus teria que ser posta em cheque (pois foi a partir de atributos divinos, como o da Premissa 2, que pudemos chegar às conclusões que chegamos aqui). Assim, utilizando a Proposição 7 e a premissa 1, temos que Maria, sendo mãe de Jesus, o qual é inteiramente humano e divino, é mãe de um ser inteiramente humano, bem como de um ser inteiramente divino. Ora, um ser que é inteiramente humano é um homem, e um ser que é inteiramente divino é o próprio Deus. Logo, Maria é mãe de Jesus, o qual é um homem e Deus. Portanto, é válido dizer que

Corolário 7.1 Maria é mãe de um homem.

Corolário 7.2 Maria é mãe de Deus.


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