discos do coração: Bloco do Eu Sozinho
20 anos de Bloco do Eu Sozinho: o segundo álbum do Los Hermanos cheio de rupturas e polêmicas
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20 anos de Bloco do Eu Sozinho: o segundo álbum do Los Hermanos cheio de rupturas e polêmicas


Esses dias estava conversando com minha boyzinha sobre One Direction e acabei divagando em minha cabeça numa relação entre a boyband e Los Hermanos. As semelhanças são até consideráveis: jovens garotos com vontade de fazer música, românticos, alvos da grande mídia e da indústria musical, capas da Revista Capricho… Mas o ponto que divaguei e que, provavelmente, me fez escrever sobre isso foi: ambas são referências da juventude.
Se para o quinteto londrino a juventude era sinônimo de alegria, fãs entusiasmados e roupinhas elegantes, para os hermanos ela foi marcada por melancolia, fãs entusiasmados, ex-fãs raivosos e um quê de rebeldia e pedantismo.
Neste ano de 2021, Bloco do Eu Sozinho (2001) — álbum de rupturas e polêmicas — completa 20 anos e eu vou comentar algumas curiosidades sobre o disco, sobre Los Hermanos no geral e dizer o motivo dele ser um Disco do Coração pra mim.
Todo Carnaval Tem Seu Fim
O que fazer depois de se tornar um sucesso e vender mais de 100 mil cópias com o primeiro disco (em 1999)? Se se é um artista pop, a tendência é almejar 200 mil cópias, vender a imagem cada vez mais, tocar no Faustão, no Gugu, aparecer em capa de caderno Tilibra, ou pelo menos essa era a lógica do mercado naquela época. Provavelmente era o que tinha em mente Rick Bonadio, um dos produtores da LH, mas não era isso que os hermanos queriam. O fantasma do segundo CD virava a esquina e a ideia em ser uma “boyband” e um produto ultra-comercial dos anos 2000 desagradava.
Foi num ato juvenil e rebelde que a banda mandou todo mundo se fder. Romperam com produtores, com gravadora, tretaram com Bonadio (como se fosse difícil kkkk), deixaram de ser um quinteto quando Patrick Laplan saiu da banda… E então, por escolha própria, isolaram-se num sítio em Petrópolis (RJ) para compor — o que acabou virando uma tradição da banda nos próximos discos. Na companhia de Alexandre Kassin, que assumiu o baixo por algum tempo, e de outros músicos de apoio, surgiu o Bloco do Eu Sozinho*: um álbum com influências bem diferentes do anterior e que não agradou muito a crítica e nem o público.
O ska e o hardcore melódico de antes foram trocados por elementos mais experimentais, referências à polka, ao bolero, à MPB e à nostalgia das canções carnavalescas dos bailes de máscaras e blocos de rua. As letras dor de cotovelo ainda marcaram presença, mas agora outros temas surgiram, como críticas à situação comercial em que a banda se encontrava, à gravadora e ao mercado. Além disso, elas se tornaram mais complexas e com um linguajar mais lírico, ou, até mesmo, dicionarizado. Isso tudo gerou no público um rótulo de pseudo-intelectuais pros integrantes da banda, pra não dizer chatos.
Eu que Controlo o meu Guidom
Frutos dessa rebeldia juvenil podem ser identificados no disco. A faixa de abertura, “Todo Carnaval Tem Seu Fim”, por exemplo, é uma espécie de carta metafórica mandando o pessoal da antiga gravadora se f*der, misturada às simbologias do carnaval brasileiro. À época, Marcelo Camelo disse que o refrão dessa canção era o cerne de todo o disco e que mostrava o tom romântico da banda. O videoclipe, por sua vez, expressa semioticamente a mesma mensagem de conflito com a gravadora: primeiro a banda aparece vestida com sacos de estopa, disputando uma corrida. E, depois de tanto pular e não chegar a lugar algum, o quarteto se livra dos sacos e vai tocar.
Outra faixa que inflama o tema é “Cadê Teu Suín?”, nela Camelo, por meio de uma brincadeira com as palavras, critica os autoritarismos dos produtores e da Abril Music (gravadora da banda ao final dos anos 1990 e comecinho dos 2000).
À época, a gravadora, inclusive, considerou o trabalho do quarteto “amador" e com “pouco potencial mercadológico". E, de fato, a venda de cópias não foi tão estrondosa quanto o CD homônimo. Porém, o futuro prometia ao disco seu refinamento e apreciação.
A Flor
É no Bloco que podemos conhecer um pouco mais de Rodrigo Amarante. No primeiro disco, o ruivo ficava de escanteio, quase num papel de arlequim, nos backing vocals, no tamborim ou na flauta transversal. Se em Los Hermanos (1999) Rodrigo tinha duas composições (“Quem Sabe” e “Onze Dias”), agora no Bloco ele assina três com Marcelo Camelo (“A Flor”, “Retrato Pra Iaiá” e “Mais Uma Canção”) e duas dele próprio (“Cher Antoine” e “Sentimental”). Além de obviamente dividir vocais mais vezes com Camelo, assumir a segunda guitarra e até mesmo o baixo em alguns momentos. Neste disco podemos ver o desabrochar de um compositor muito dedicado.
Camelo, por sua vez, também conseguiu desenvolver mais seu lirismo. Tanto é que “Veja Bem, Meu Bem”, faixa roedeira do Bloco, foi regravada por ninguém mais, ninguém menos que Ney Matogrosso. Também tem a versão de Maria Rita (que posteriormente voltaria a gravar uma música de Camelo, “Cara Valente”).
Bloco do Eu Sozinho
Vejo duas possibilidades para a origem do título do segundo álbum do LH ser esse.
A primeira seria proveniente da afinidade natural dos hermanos com o carnaval. Existiu no Rio de Janeiro um bloco de rua chamado Bloco Carnavalesco do Eu Sozinho. O jornalista Julio Silva (repórter do Gazeta de Notícias) desfilou sozinho pelas ruas do Rio por quase seis décadas vestido de palhaço e carregando consigo a placa de seu bloco.
Outra possibilidade é o título ser referência à canção de Marcos Valle e Ruy Guerra, interpretada por Joyce (Moreno) em seu disco de 1968.
Canto e Toco um Tanto que é pra te Encantar
Agora, por que Bloco do Eu Sozinho é um Disco do Coração para mim? De fato, é um trabalho bastante conturbado e não é o melhor da banda, na minha humilde opinião. Não posso negar, porém, que dentro do atual repertório do LH (toda a vez que eles voltam, claro) grande parte vem do Bloco: “Sentimental”, “A Flor”, “Retrato Pra Iaiá”, “Casa Pré-Fabricada”, “Todo Carnaval Tem Seu Fim” e outras.
Toda essa baixaria e confusão que foi a produção do segundo disco dos hermanos pode ser explicada pelos anseios de jovens cheios de vontade (e cheios de si) em mostrar para o mundo o que se é de verdade. Hoje em dia seria mais fácil impedir que isso acontecesse, uma vez que os artistas são mais independentes e a indústria musical é um tanto diferente. Mas tem também uma outra coisa, mais sentimental.
E aí volto ao começo do texto e à analogia com juventude e One Direction. Pra minha avó, por exemplo, ouvir Roberto Carlos era sinônimo de lembrança. Pra minha boyzinha as músicas da boyband britânica também mexem com ela de alguma forma. Pra mim, Los Hermanos faz esse papel de “bulir” nas caixas empoeiradas da memória. Vejo-me com meus 14, 15 anos com minhas baquetas de 10 reais, sentada à beira da cama da minha irmã, destruindo as almofadas da minha mãe, tentando aprender as levadas e viradas de Rodrigo Barba; vejo também Bárbarah do passado tentando ser vista pelos outros, tentando se entender no mundo, vivendo os primeiros amores e aprendendo a não temer ser romântica. Bloco do Eu Sozinho faz parte dessa lembrança, afinal, música é, além de tudo, memória.
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