O dever no prazer
É inegável que nós somos, ao longo de toda uma vida, seres que estão à procura de prazeres. Na comida e bebida, no sexo, no entretenimento…
O dever no prazer
É inegável que nós somos, ao longo de toda uma vida, seres que estão à procura de prazeres. Na comida e bebida, no sexo, no entretenimento, no convívio social e mesmo em situações e lugares que são muito restritivos e muito áridos, nós arranjamos um jeito de extrair prazer. Existe no humano uma incessante necessidade de, no choque com as coisas do mundo, fazer da vida uma fruição prazerosa e contente.
O prazer entra na vida quase que naturalmente, como um amigo natural que se revela e nos impõe a distinção entre o bom e o ruim. Depois, ao longo de nossa jornada, aprendemos a chamar esse amigo de necessidade, agora clamamos em alto tom que precisamos do prazer, senão vamos viver miseravelmente. Hoje, a título de direito do cidadão e da pessoa humana, fala-se no direito ao lazer que, nada mais é, do que direito a ter prazer. O prazer vira lei, investimento público, coisa política e constitucional.
O homem manipula a natureza para ter mais prazer. Para que cultivar um tipo de fruta meio-doce se podemos, com o uso da tecnologia, dar vida a uma versão muito-doce? A adaptabilidade do homem ao seu meio não é mera questão de sobrevivência, mas de criatividade e inovação. O coitado do homem na floresta, nosso ancestral, comia um punhado de nozes secas e insossas, nós dizemos não, pegamos as melhores nozes e as aquecemos em açúcar, a coisa toda carameliza e mandamos para dentro. Obrigado natureza, mas muito obrigado civilização!
Contudo, é preciso ter cuidado, como diz a canção ´´É preciso ter cuidado, pra mais tarde não sofrer``, essa frase é tão precisa que poderia vir no momento seguinte, logo abaixo, de qualquer esforço de significação da palavra prazer. Comemos as nozes caramelizadas, às vezes comemos tanto, que terminamos com uma bela e terrível dor de barriga. E o prazer? Cedeu lugar a sua antítese, a dor e com ela o desprazer total.
O homem é o mestre do prazer, mas nada nos desautorizaria a dizer que ele também é o mestre do desprazer. O descontrole humano é tanto que seu filho comete parricídio, o prazer criado se vinga de seu pai criador e marca sua vida com uma cicatriz, um abalo, uma intoxicação, e assim se instala naquela alma a dor e o vício.
O Ser humano não é apenas um ser de fruição, mas de consciência e circunstância e se dedica, dia após dia, a uma complexa teia de criações, situações, emoções e sentimentos. O contato do prazer com essa teia nem sempre é benéfica, por vezes é explosiva, por exemplo, um homem vivendo uma vida infeliz — uma teia de infelicidade — decide beber um pouco, para esquecer e ser feliz, ele mistura a turbulência emocional com o prazer físico e psíquico que o álcool proporcional e assim, pouco a pouco, destrói sua vida. É melhor manter o prazer o mais longe possível de nossa turbulência pessoal na vida e na existência, assim como os bordéis ficam afastados das casas de família.
Parece então que podemos estabelecer uma lei em relação ao prazer: O abuso do prazer, sua repetição radical, condena a atividade prazerosa a se tornar desprazerosa. Podemos ir adiante na definição e dizer que o desprazer é apenas o início desse abuso, porque logo mais ele se converte em dor e para mais além, se converte em problema familiar e problema social. O jovem que experimenta ´´inocentemente`` uma droga em uma balada e depois na casa dos amigos, converte-se pouco a pouco em viciado, o vício destrói seu corpo e começa a exigir o sacrifício da família (o viciado que rouba dos pais para comprar drogas, etc.) até que esse jovem se converte em mais um caso infeliz da Cracolândia e, portanto, se torna um problema social.
Diante disso, parece que em realidade poderíamos postular mais uma lei, é esta: o abuso do prazer dessensibiliza o homem obrigando-o, se desejar continuar a sentir o prazer, a se entregar a doses de prazer mais elevadas, superando, até um novo limite, a dessensibilização inicial. Ou seja, para se obter novamente o prazer, é preciso duplicá-lo, depois triplicá-lo e assim inicia-se a espiral do terror.
Se vocês estão prestando atenção parece que a palavra que desponta agora é limite, o prazer precisa de limitação, precisa de um a partir daqui parou, agora já é hora de ir para casa, chega de bebida tome um suco ou uma água. Uma terceira lei: Para que o prazer se mantenha prazeroso é preciso limitar o próprio prazer. Nós criamos mecanismos para essa limitação.
O mais óbvio deles é estabelecer uma distinção entre um espaço-tempo para o prazer e outros espaços-tempos em que o prazer fica restrito ou em que ele existe, mas em grau muito menor, muito menos concentrado e pouco perigoso. O que se vê muito por aí é a distinção entre o tempo do trabalho (unhappy hour) e o tempo pós-trabalho (happy hour), não quando o expediente acaba (às vezes sim), mas quando a semana de trabalho chega ao fim. Na sexta-feira à noite milhares de pessoas se dirigem ao bar ou a festa para poderem gozar do momento de prazer tão aguardado.
Devo confessar que acho essa distinção limitativa muito preguiçosa, e a definição do momento do prazer como happy hour quase ofensiva. Não quero que minha semana seja dividida entre a infelicidade do dever e a felicidade do prazer, não estou buscando me libertar de nada, nem amaldiçoar meu trabalho como sendo infeliz, e também não preciso de uma hora feliz em um bar, posso muito bem-estar em paz com um vinhozinho no conforto do lar.
Essa distinção também inspirou realizações mais elevadas que essa, ainda bem, é o caso das festas e festividades de todo tipo que estão bem fixadas no calendário anual, e que nós aguardamos, vejam só, com um prazer tão grande quanto o próprio prazer que elas contêm e que irá ser revelado quando chegarem. Penso não nas festas de fim de ano, necessariamente, mas nas outras, a festa junina do vinho quente, do frio agradável e das danças, todas as outras festas regionais que representam não só momentos de prazer, mas também de união em torno de uma cultura, de um povo.
As festas são realizações espaço-temporais dedicadas ao prazer e que se destacam como momentos especiais de um calendário. Apesar que no Brasil tudo vira festa e festas são antecipadas e alargadas, o que é um grave erro, ainda podemos contar com o coeficiente de segurança do bom senso social em não deturpar essas festas, ninguém em sã consciência faria uma festa junina no calor de janeiro. Com isso isola-se o prazer e, por isso mesmo, aumenta-se o prazer.
Festas de aniversário também são momentos especiais dedicados ao prazer, ao prazer de se estar vivo e poder compartilhar isso com as pessoas que ama. E vejam que nas festas mais importantes experimentamos um prazer e uma elevação de espírito muito distintos de um happy hour em um bar; nas festas estamos vivos, no bar meio mortos, apenas não nos demos conta disso ou somos covardes demais para anunciar. Nas festas nos preparamos com dedicação, uma roupa junina é muito mais digna e feliz do que a camisa social amassada que usamos no escritório e que usamos depois para tomar drinks na hora feliz.
A distinção espaço-temporal nos acompanha desde sempre, conhecemos bem o entusiasmo que a criança sente quando seu pai diz ´´hoje vamos para o parquinho``, ela sabe que irá desfrutar de um prazer naquele lugar, diferente do que está fazendo em casa. Conhecemos também a tão aguardada hora da sobremesa que faz com que todo mundo retorne a mesa com expectativas renovadas para desfrutar agora de um prazer doce. Quando vencemos uma competição com suor e dor, empenho e dedicação, e depois recebemos um prêmio, nem que seja algo simples, mas para nós momento de prazer genuíno pelo trabalho bem feito.
E os exemplos se avolumam, pois a vida é feita de contrastes entre a quase ausência de um prazer e a sua presença vigorosa em momentos especiais e decisivos para renovar nosso espirito. Essencialmente, essa distinção deve ser governada pela fabricação consciente e saudável do espaço-temporal prazeroso, dito de outra forma, é um prazer pensado e, por isso mesmo, educado, respeita certos limites e não admite excessos, ele acontece, ele acaba, agora é só ano que vem.
E aqui vai um alerta, antes de seguirmos. Os espaços-temporais em que há restrição do prazer não eliminam em absoluto o prazer, coisa impossível evidentemente, assim como não são horas de penúria e dor, horas infelizes, longe disso. O momento do trabalho e dos deveres inspiram felicidade e prazer, especialmente quando temos sucesso em nossos objetivos, mas são distintos, por exemplo, do prazer especial das festas. Em suma, não queremos fazer daquela restrição um inferno, assim como o momento do prazer não é um paraíso eterno, o contraste existe e se acomoda com moderação, talvez seria mais claro dizer o prazer dos momentos normais e o prazer dos momentos excepcionais.
Eu já falei demais e ainda nem cheguei no ponto que inspira o título, peço perdão, vamos a ele. Quero agora falar de outro mecanismo de limitação que me parece ainda mais digno do Ser humano, mas cuja instalação na vida depende de esforço ainda mais consciente, pois envolve dever. Vocês já repararam como somos cuidadosos em nosso trabalho diário? Como chegamos no horário, como respeitamos as regras, como sempre tentamos fazer as coisas bem feitas? Sem dúvida por medo da demissão ou do bloqueio da ascensão dentro do ofício, afinal somos seres mortais e temerosos, e temos contas a pagar.
Todavia, será que não poderíamos transferir essas qualidades para as atividades prazerosas que tanto estimamos? O cuidado, a pontualidade, o esmero, a organização, todas estas para compor a tecitura de nosso prazer. As atividades prazerosas, portanto, tem que ser igualmente humanas e dignas de nossas qualidades, e isso é o que chamo de o dever no prazer e nessa combinação somos chamados a exercer o que nos dá alergia com responsabilidade.
A palavra que vêm à mente é hobby e ele é definido como sendo ´´Atividade feita por lazer, distração, prazer, divertimento e não por obrigação; passatempo favorito. Fala-se muito sobre a importância de se ter um hobby como sendo uma espécie de contraposição ao trabalho oficial, alimentado pela necessidade de equilíbrio, e algo que se faz no *tempo livre* pelo livre exercício da liberdade do indivíduo. Contudo, é preciso afirmar que um hobby não é qualquer coisa e existem diferentes tipos de hobby, e cada um deles vem com uma exigência, um preço que se paga para ser feliz e ter prazer. Obviamente ficar no sofá não é um hobby, assim como ir para academia todo dia parece ser um exemplo dele, mas ainda não é; o hobby não é simplesmente fazer alguma coisa ´´saia desse sofá e vá fazer algo, é bem mais do que isso.
O hobby exige presença, de corpo e de alma, e muita atenção, é algo para ser cultivado delicadamente. Imaginem uma pessoa que se inscreve em uma oficina de escultura de argila, pois isso parece a ela prazeroso, bem, terá que aprender técnicas para manipular o produto e mais técnicas para dar a ele o formato desejado, isso custa tempo e empenho, mas o processo e o resultado final compensam tudo. Agora, a pessoa não poderá se comportar como uma criança, que pega a argila e faz com ela qualquer coisa, quase sempre se lambuzar toda e lambuzar todas as paredes e o chão, hobby não é coisa para ser infantilizada.
Com a jardinagem é a mesma coisa. Se você não seguir regras, usar os produtos certos, os tipos de poda adequados, se a planta precisa de sol e água (e em qual quantidade), em suma, se você não se dedicar com precisão, você pode matar todas as plantas e matar seu jardim, e isso sem dúvida será muito desprazeroso.
O hobby é, portanto, uma forma humana de controlar o prazer, submetendo-o a ação da inteligência humana que opera o tempo todo durante a atividade. É também uma forma limitada de prazer, pois o que o sustenta é justamente a contraposição com o trabalho oficial e os deveres diários, se o hobby tomar conta de tudo então deixa de ser hobby, a oficina de escultura fecha em determinado horário e a jardinagem acaba quando o sol se põe.
Agora, me permitam falar sobre uma associação que considero muito benéfica e apropriada para controlar e limitar um dos prazeres mais perigosos para o Ser humano, mas se bem administrado, fonte de prazer para a vida toda. Se trata das bebidas alcoólicas, mas aqui quero falar daquela que considero mais segura, justamente pelo dever que inspira no homem, é quase como um dever imposto, se você começar a se interessar por ela, esse interesse impõe naturalmente o dever que, para todos os efeitos, se assenta quase sempre no conhecimento e na experiência adequada. Se trata do Vinho.
Eu não gostava de bebida alcoólica em geral, nem de vinho, achava o gosto amargo, mas quando estava com 19–20 anos comecei a beber vinho e pouco a pouco tomei apreço pela bebida, passei a admirar seu gosto e a beleza dos rótulos que são uma parte também prazerosa, de um prazer estético, do consumo de vinho. Mas, logo no começo, esse prazer demanda mais do que ele mesmo.
Quando comparamos o gosto de uma Vodka com o gosto de outra Vodka, de outra marca e de outra qualidade, podemos chegar à conclusão de que aquele líquido transparente possui o mesmo gosto não importando o rótulo, compra-se qualquer uma. Com o vinho isso é impossível; a quantidade de elementos a serem considerados na escolha são muitos e, partindo do princípio de que você quer efetivamente escolher um vinho e não apenas tomar um, você irá se deparar com isso: tipos diferentes de uva (o que por si só envolve: acidez, presença de tanino, doçura, etc.), regiões produtoras distintas, avaliações daquele vinho feitas por outros consumidores, preço, gosto pessoal, tipo de alimento que será consumido junto (ou seja, harmonização), e por aí vai.
Escolher um vinho demanda uma cabeça, pois a variedade é tanta e as possibilidades são tantas, os rótulos são tantos, que a escolha demanda precisão, tempo, cuidado. Até agora não vi por aí nenhum especialista em Vodka, mas em matéria de vinho existem muitos, se trata de uma bebida antiga, celebrada por culturas antigas, cultivada por famílias e, portanto, são também a expressão de uma tradição, de uma continuidade. O vinho demanda respeito por parte de seus apreciadores, muito mais do que consumidores.
Diante de tudo isso, seria uma atitude muito profana e desrespeitosa simplesmente beber e, especialmente, beber para ficar bêbado. O vinho não combina com o exagero e com o alcoolismo, em primeiro lugar porque o excesso irá matar toda a experiência, ao confundirmos os sentidos perdemos a capacidade de recepcionar e discernir sobre as qualidades daquele vinho, sua complexidade de gosto e aroma. A inconsciência mata a experiência toda.
E aqui o argumento econômico pode auxiliar. Se eu vou comprar um vinho mais caro, digamos até 500 reais, ele evidentemente irá pesar no bolso e a pessoa será obrigada a saber muito bem no que está gastando, o alto preço exige atenção e não descontrole, e também exige precisão. É claro que se você for muito rico, você vai pegando qualquer um de 500 ou 1000, mas se você for uma pessoa normal ou um rico controlado, saberá discernir. A pressão econômica impõe restrições ao prazer, e para além disso vocês não ficam minimamente curiosos porque raios aquela garrafa é tão cara, o que a torna tão especial? Isso atiça a curiosidade e já não queremos simplesmente beber, mas conhecer.
Beber com moderação não é aqui uma recomendação, aqui é a regra absoluta, ao ultrapassar um limite o vinho virá álcool e nada mais. Ou seja, as características intrínsecas do vinho aliadas ao desejo de conhecimento do apreciador produzem uma experiência única, especial e limitada, esse é o caminho natural, e qualquer desvio é intolerável. Então no consumo de vinho existe um dever para o apreciador, ele precisa de conhecimento de causa se começar a se interessar o mínimo que seja, ele será obrigado a isso, ele não poderá dizer ´´escolha qualquer ume nem poderá dizer ´´vamos beber todas hoje.
Bem, já podemos concluir. Os hobbys e o vinho são aqui usados para defender o dever no prazer, uma das formas mais interessantes de se limitar o prazer, ou seja, mantê-lo prazeroso por mais tempo, uma vida toda. O dever significa que as atitudes e os elementos elevados do Ser humano operam para controlar e dirigir a experiência prazerosa, dando a ela um destino digno e preservando seu caráter agradável. Como vimos, a distinção espaço-temporal também cumpre a função limitativa, se bem que não exige nenhum dever muito especial, além de uma participação mais organizada em uma festa específica, por exemplo.
Ainda há, é claro, muitas pontas soltas nessa história, penso, por exemplo, na questão do prazer sexual e se o casamento seria então a forma de limitar e organizar essa experiência. Penso na função limitativa da gastronomia, no prazer musical dependendo da organização meticulosa de uma orquestra, e também nos prazeres estéticos de todo tipo e como o elemento estético por si só demanda uma limitação harmônica. Bem, os exemplos são vários, mas todos têm isso como princípio formador: O uso limitado e inteligente de um prazer.
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