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Cálculo estratégico ou fé sobrenatural?

Uma resposta ao artigo de Carlos Eduardo Sell sobre a FSSPX

Rafael Gonçalves · 2026-02-24 23:13 · 0 claps · 3.7 min read
#fsspx #crise-na-igreja #concilio-vaticano-ii #sagrações
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Cálculo estratégico ou fé sobrenatural?

Uma resposta ao artigo de Carlos Eduardo Sell sobre a FSSPX

O artigo de Carlos Eduardo Sell, intitulado Por que a FSSPX optou por sagrar bispos sem mandato de Roma?: uma análise a partir da teoria da escolha racional”, publicado em 24 de fevereiro de 2026 no site do IHU — Instituto Humanitas Unisinos, parte de um enquadramento no campo das ciências sociais, mas que se mostra insuficiente para compreender a natureza real da crise eclesial contemporânea e, em particular, as motivações profundas da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX).

Ao interpretar a decisão da Fraternidade de sagrar novo bispos à luz da teoria da escolha racional, o autor pressupõe que estamos diante de um cálculo estratégico meramente institucional, no qual custos e benefícios são ponderados segundo uma lógica de maximização de interesses organizacionais e puramente humanos. É precisamente aí que reside o equívoco fundamental: a crise em questão não é sociológica, política ou institucional, mas essencialmente teológica e espiritual.

Essa limitação argumentativa torna-se evidente quando o autor afirma que, ao escolher não negociar, a FSSPX estaria realizando um cálculo estratégico visando preservar sua identidade, o que seria “bom para a entidade, mas ruim para a Igreja”. Tal formulação parte de uma premissa que entendo equivocada: a de que a Fraternidade age primordialmente em defesa de uma identidade institucional própria.

A história da FSSPX demonstra exatamente o contrário. Desde sua fundação, em 1970, a Fraternidade não existe para preservar uma marca, uma estrutura administrativa ou somente um espaço no interior da Igreja, mas para salvaguardar integralmente a Tradição católica diante de uma ruptura doutrinal, litúrgica e pastoral sem precedentes, instaurada desde Vaticano II.

Se a preocupação principal fosse a autopreservação institucional, a FSSPX não teria mantido diálogos e tratativas de negociações com Roma. Pelo contrário, ao longo dos anos analisou propostas, aceitou visitas apostólicas e participou de diálogos doutrinais . Todas essas iniciativas fracassaram não por intransigência da Fraternidade, mas porque Roma, de modo sistemático, recusou-se a enfrentar o núcleo real do problema, que é a necessidade de uma avaliação crítica do Concílio Vaticano II e das reformas que dele derivaram. A exigência romana tem sido a aceitação integral do Concílio para qualquer acordo. Ora, precisamente esse é o ponto em que a Fraternidade não pode ceder sem trair sua própria razão de existir.

Cabe destacar, apenas para contextualizar o leitor, que a missão da FSSPX transcende a questão da Missa Tradicional. Embora a liturgia seja o sinal mais visível e emblemático deste imbróglio, ela não constitui seu núcleo isolado. O centro da crise está também nas transformações profundas ocorridas no campo da doutrina, da moral, da catequese, da eclesiologia, do ecumenismo, da liberdade religiosa e da própria identidade católica. A Missa tradicional tornou-se o estandarte simbólico dessa resistência porque nela se condensam, de modo particularmente eloquente, os princípios teológicos e espirituais da Tradição multissecular da Igreja.

Portanto, “regularizar” a situação da FSSPX não é algo simples. Podemos observar o que ocorreu com as comunidades Ecclesia Dei, fundadas após as sagrações de 1988, que acordaram e se regularizaram com Roma, por uma plena comunhão, em troca do indulto de ministrar os sacramentos Tradicionais. Porém, não lhes é permitido pregar sistematicamente contra os erros de Vaticano II e das práticas pastorais e doutrinais da hierarquia vinculadas ao chamado “espírito do concílio”.

Se a intenção da FSSPX fosse apenas preservar uma identidade própria, o caminho mais fácil teria sido romper definitivamente com Roma, adotando posições sedevacantistas ou cismáticas, como fizeram inúmeros outros grupos tradicionalistas dissidentes. No entanto, a ela sempre se recusou a seguir esse caminho. Essa posição intermediária — nem rendição doutrinal, nem ruptura formal — é, na prática, a mais difícil, a mais desgastante e a mais custosa, tanto no plano humano quanto institucional. Não há nela qualquer vantagem estratégica evidente, mas apenas fidelidade à missão entendida como sobrenatural e à própria promessa de Cristo: non prævalebunt (Mt 16,18).

A história recente da Fraternidade também contrapõe o argumento segundo o qual a eventual excomunhão produziria isolamento e enfraquecimento. Entre 1988 e 2009, seus bispos permaneceram formalmente excomungados. Foi exatamente nesse período que a FSSPX experimentou seu maior crescimento, atraindo um número cada vez maior de fiéis em todo o mundo. Longe de provocar estagnação, a amarga marginalização institucional favoreceu um florescimento notável, justamente porque permitiu à Fraternidade desenvolver sua missão sem as interferências constantes da hierarquia modernista persecutória.

O mesmo vale para a tese de que sua postura atual enfraqueceria os chamados grupos conservadores moderados. A dinâmica romana mostra exatamente o oposto: sempre que a tensão com a Fraternidade se intensifica, surgem movimentos de mitigação das restrições litúrgicas, com o objetivo de manter sob controle os fiéis ligados à Tradição, combinando endurecimento público contra a FSSPX com concessões seletivas, destinadas a preservar a fidelidade institucional — como se viu claramente após as sagrações de 1988. Esse mecanismo explica os recentes acenos públicos de cardeais identificados como conservadores, que buscam se apresentar como alternativa “obediente” ao tradicionalismo, numa tentativa de convencer Roma a liberalizar o acesso à liturgia tradicional.

Em última análise, me parece que o problema do artigo está em tentar explicar uma crise sobrenatural com categorias puramente sociológicas. Enquanto Roma se recusar a encarar esse problema em sua profundidade, toda negociação permanecerá no nível da gestão política da crise, jamais de sua verdadeira solução. As decisões de 1988 e aquelas que agora se aproximam não nascem de racionalidade instrumental, mas de uma consciência sobrenatural diante de um real estado de necessidade oriundo de uma grave crise na Igreja.


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