Meu quarto obituário (Para meu velho Leopoldo)
É a quarta vez que me proponho a escrever algo sobre uma pessoa que parte.

Meu quarto obituário (Para meu velho Leopoldo)
É a quarta vez que me proponho a escrever algo sobre uma pessoa que parte.
A primeira vez que me aventurei foi a um amigo, e as outras duas vezes escrevi sobre minhas tias que, tristemente, morreram com uma diferença de seis meses ou menos.
Mas como não existe números da sorte para contagens como esta, me veio na quarta vez a necessidade de falar sobre meu sogro, Leopoldo dos Santos Rodrigues.
Seu Leo, que deixou Portugal ainda na adolescência, conservava com orgulho o sotaque de fácil perda, caso quisesse nesta terra fugir do estereótipo.
Mas se isso quisesse, não teria se tornado gerente e depois dono de padaria. De “não português”, só tinha o nome.
– Tem um imperador com este nome — lembrava. — Leopoldo I da Áustria.
Com nome de imperador criou, junto da esposa Marina, três filhas com a realeza que lhe cabia: Ana Cristina , Maria Cecília e Ingrid Micheline.
Costumava dizer que as tratava como uma bela macieira, onde, depois de muito cuidado, proteger da chuva, dar a quantia certa de Sol, vinha um e apanhava uma maçã.
Tinha três genros – três apanhadores de maçãs — e cinco netos, a contar as gêmeas que virão.
Tinha suas convicções políticas, conhecimento da história mundial por curiosidade, acompanhava todo o tipo de esporte e, por algum tempo, acompanhava programas como “América Vista de Cima”… havia assunto para cada membro da família.
Lia livros de mistérios, biografias e curiosidades sobre esportes. Começou a ler uma dessas séries de romance de época, inteirando do que a população feminina da casa consumia.
Fazia o que o médico mandava, mas também fazia o que queria. Detestava hospitais e, nos nove anos de nossa convivência, o vi internado quatro vezes.
– É assim mesmo, meu velho! A cada dois anos, um pit stop — eu dizia.
– Velho? Onde? — respondia.
Quando voltou da última incursão, prometeu não ir mais. Nos últimos dias perguntou pelas netas que estão por vir: Sofia Leonora e Guilhermina Vitória. Nomes compostos, da realeza. Despediu-se da filha Cecília e, sob minha vigília, morreu dormindo, em casa.
Uma curiosidade: devia se chamar Leopoldo dos “Anjos” Rodrigues, mas o tabelião esqueceu e colocou o nome que achou melhor. Ficou “Santos”.
Seu Leopoldo nunca foi Santo mas, enfim, voltou a ser dos Anjos.
Parta em paz, meu velho.
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