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A morte — Pt. II

Não dá pra ficar indiferente em face da morte. Impossível. Alguma coisa vai mudar em você.

Engracadinha in nonsegmentado · 2025-10-17 00:42 · 0 claps · 5.4 min read
#morte #cancer #pais-e-filhos #relacionamentos #despedida
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Wiki topics: ONC · Oncology

A morte — Pt. II

Não dá pra ficar indiferente em face da morte. Impossível. Alguma coisa vai mudar em você.

A morte pode te encher de vida e te inundar de um medo terrível. A morte pode te obrigar a olhar para coisas que você enterrou e não tem vontade de tocar. Ela pode provocar sentimentos incríveis de empatia, ternura, compaixão e pode também te paralisar, fazer com que você não saiba o que fazer.

A morte pode ser uma grande escola para quem fica e, o mais importante, ela força a gente a olhar pra dentro, ainda que a gente não queira. E vamos ser honestos aqui, a gente não quer. Olhar pra dentro é se reconhecer e, diante da morte, encarar a própria finitude, já sendo bem repetitiva. Diante dessa finitude os mais variados sentimentos podem nos abordar.

Enfim, o dia 28 de setembro chegou e eu fui visitar o meu pai levando a bordo 3 filhos para me sentir escudada dos sentimentos que pudessem se apossar de mim. Qualquer tipo que fugisse ao meu controle.

Antes dessa visita, estava encarando tudo de forma prática e pragmática. Apesar de ser muito sentimental e de às vezes me sentir em carne viva diante de certas situações, estamos falando de um pai e de uma filha. Ainda que recebendo mensagens sobre as atualizações do caso dele, agora um paciente terminal, não tinha ideia de como reagiria.

Sou o tipo de pessoa que ainda não aprendeu a lidar com certas situações. Embora tenha em meu cerne sentimentos bem desenvolvidos como empatia, amor, amizade, havia muita mágoa dentro de mim, de maneira que a minha indiferença estava me assustando. Meu receio era levá-la na bagagem.

Foto de Jakob Cotton na Unsplash

Foto de Jakob Cotton na Unsplash

Ir para aquele lugar ainda é um passeio lindo, sobretudo quando é dia de sol. Alguns caminhos pela estrada mostram um Rio de Janeiro mais rústico, florido e com chão de terra. Ver as vaquinhas pastando nos cercados e as montanhas floridas acabam de alguma forma nutrindo a nossa alma. Fora as nuvens de um branco arrebatador em contraste com o céu muito azul. Mais uma vez é a vida em toda a sua pujança diante da morte. O caminho inexorável de todos nós.

Me peguei pensando no legado da vida que a gente planta, assim como o campo energético que a gente nutre a vida toda. Há que se ter cuidado com esse plantio, já que a colheita é uma certeza.

Ao vê-lo como uma pálida sombra do que fora, eu senti o inesperado. Senti todo o amor que há em mim, uma compaixão incrível em face de tamanha fragilidade. Esse era o tipo de sentimento que eu menos imaginava que teria. Dei muitos beijos, abracei, dei-lhe todos os carinhos e palavras doces que tinha guardado em mim, no cantinho mais escondido, que nem lembrava mais que teria acesso. Mas estavam lá. Nenhuma mágoa seria forte o suficiente para enfrentar todo o amor que eu carrego. Nunca desejaria a ele o tipo de sofrimento que está passando.

Em contrapartida, ao lembrar do meu pai e da criança que ele foi, percebo o quanto carregou dores profundas. Dores que, num raio energético, reverberaram em tantas mulheres… principalmente nelas. Um verdadeiro vale de lágrimas, ainda que não intencionais. Ele soube fazer chorar.

E mesmo que eu não deseje um final de vida com tanta dor, é só isso que ele sente agora. Tento encontrar algum sentido nisso. Tento entender o tamanho desse câncer que só cresce, se expande, como se fosse a materialização de algo que não foi dito, não foi curado. Tento racionalizar o que não tem razão.

Porque, se houvesse lógica, crianças não teriam câncer. Em seu campo vibracional não há raiva, nem mágoa, nem sentimentos desestruturantes. E ainda assim, acontece.

Foto de Jakob Cotton na Unsplash

Foto de Jakob Cotton na Unsplash

O fato é que a minha porção mística acredita, sim, que somos responsáveis por manter bem esse veículo onde habita a nossa alma. Nosso corpo. A gente precisa minimamente tentar viver uma vida equilibrada física, emocional e, por que não, espiritualmente. Uma sagrada tríade. Pessoas privilegiadas como nós, que possuímos comida no prato todos os dias, roupas, tecnologia, um teto e saúde, temos também a responsabilidade de honrar essa vida. Buscar o autoperdão, buscar o perdão ao outro, procurar um médico para ver se está tudo em ordem com o nosso corpo, um psicólogo, sim, quando o calo aperta; a rede de amigos, ou até mesmo a parentela. E quando nada disso funciona, por que não ajudar a curar a dor daqueles que não têm nada? Daqueles que não têm privilégios. Quando a gente faz o bem ao outro, a gente se cura de nós mesmos. É impressionante.

Lady Diana, Princesa de Gales (fui longe agora), no auge da depressão e da bulimia, procurou fazer trabalho humanitário usando de seu prestígio para diminuir o sofrimento de cidadãos angolanos assolados por minas terrestres, que ainda os mutilavam no pós-guerra civil em seu país e esse é apenas um exemplo do que um ser humano em sofrimento pode fazer.

O que acontece é que nós nos encastelamos na nossa dor. Ficamos obsessivos e enredados por ela e não conseguimos ver mais nada na frente. Então, chega um momento em que a nossa dor acaba nos engolindo, principalmente, quando a gente não se cuida, não conversa, não divide e a vida, para piorar, não perdoa. A vida não passa a mão na cabeça de ninguém, muito menos dos que sofrem. Se a gente não se ajuda, não é a vida que vai repentinamente tirar a gente do buraco e, infelizmente, muitos não entendem ou não sabem disso.

Meu pai marcou um check point em todas as caixinhas. Levava consigo uma mágoa inesquecível de sua infância, provocou dor naqueles que lhe ofereceram amor, não valorizou os que lhe suavizavam a vida, deu valor àqueles que lhe roubavam a paz e sucumbiu, muito provavelmente quando se deparou com suas próprias escolhas. Foi-se deixando abater pela reta final, talvez por se dar conta em algumas ocasiões de que podia ter feito diferente. Isso pode ter-lhe corroído a alma e tem sido rápido. Menos de 1 ano.

Eu observo com cuidado, porque também a minha vez vai chegar, dentro de vinte anos, se eu durar até lá. O fato de envelhecer não vai fazer a menor diferença. A vida continuará trazendo as provas e tudo vai depender de como eu vou lidar. A vida vai me tirar pessoas caras. Elas hão de morrer e eu hei de pranteá-las na despedida, talvez eu sinta que estou ficando pra trás, mas já agora, eu vou anotar mais essa lição.

Foto de Christopher Campbell na Unsplash

Foto de Christopher Campbell na Unsplash

Não deixarei meus sonhos morrerem, sonharei novos sonhos. Quando a dor for muito grande, hei de dividí-la em partes com amigos, com a família, com o psicólogo, para que fique menor. Ainda que a vida me achate, recorrerei aos ambulatórios espirituais, para que não me afogue em sofrimento e ainda assim, se eu cansar, hei de procurar o amor dos que me têm afeto: filhos, irmã, colegas de trabalho, uma escrita num blog, o cheiro do mar, a música ou o silêncio.

Sei que eu não sou parâmetro de bem viver ou baluarte da perfeição. Cada um sabe onde lhe gritam as dores. Viver cansa, dá trabalho e tem horas que dá muita vontade de desistir.

Naquela tarde de domingo, tive uma compreensão maior da dor que meu pai carrega. Chorei por dias só de pensar que sua dor materializada virou companheira fiel até o dia de sua despedida e rogo que eu consiga vê-lo ao menos uma vez mais. Não gostaria de me despedir ainda. Ainda não sou capaz de dizer adeus a esse homem.


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