Irmãos Brothers SA
A humanidade parece ter desenvolvido um talento quase religioso para acumular riquezas e erguer impérios com a mesma naturalidade com que…
Irmãos Brothers SA
Photo by Allison Saeng on Unsplash
A humanidade parece ter desenvolvido um talento quase religioso para acumular riquezas e erguer impérios com a mesma naturalidade com que se constrói um castelo de areia: com orgulho e a infeliz certeza de que, em algum momento, a maré vai destruir tudo. Os egípcios empilharam pedras colossais para guardar os cadáveres faraônicos e o ouro suficiente para dar inveja ao Tio Patinhas. Os babilônios ergueram jardins suspensos e muralhas que, se não sustentaram o próprio império, ao menos serviram para constar nas sete maravilhas do mundo.
Este texto é sobre a ascensão e queda de um empreendimento que poderia ter sido tão grande quanto esses. Provavelmente não só a maior multinacional brasileira, mas também responsável pela maior fatia do PIB nacional. Uma epopeia que começou com meu já tradicional apetite pelo fracasso financeiro e foi abruptamente dilacerada pela ainda mais tradicional ganância fraterna. Essa praga que acompanha a humanidade desde que Caim expressou todo o seu afeto com a elegância de uma pedrada na testa de Abel; ou como quando José, em um gesto de altruísmo exemplar, foi vendido como escravo à força pelos próprios irmãos; e, no capítulo mais constrangedor de todos, quando Adão faz o favor de desposar sua irmã gêmea, filha biológica e projeto de clonagem artesanal, ao sentar a mandioca na Eva. Pensando bem, ter irmãos na Bíblia é um esporte de altíssimo risco. Infelizmente, ter irmãos fora da Bíblia também.
O ano era 1998. O mundo chorava pela derrota na Copa, digeria o escândalo de Bill Clinton e, paralelamente, eu fazia minha estreia no grande e desumano teatro canibal que chamam de capitalismo.
Na época, os recreios escolares eram mercados livres de contrabando infantil. Tazos, Geloucos e Mini Craques circulavam como moedas de ouro, trocados, disputados ou simplesmente roubados, o que mostrava a predisposição maquiavélica infantil para o crime. No meu colégio, outra moda também chamava a atenção da molecada. Tratava-se de um futebol de dedo jogado num tabuleiro cravado de pregos representando jogadores, em que se usavam polegares ou palitos de sorvete para mover, com técnica e violência, uma moeda ou semente que costumavam fazer o papel de bola.
Foi aí que o meu instinto de visionário condenado à falência eterna deu as caras. O palitinho de sorvete, diferentemente do polegar, tinha vantagens estratégicas: mais flexibilidade, mais precisão e, sobretudo, a possibilidade de ser customizado. E customização, como todo bom capitalista sabe, é um ótimo atalho para a exploração do bolso alheio.
Eu e meu irmão demos início, assim, à nossa primeira grande empreitada conjunta: abrimos a Irmãos Brothers S.A.
O processo era sofisticadíssimo:
- Ambos catávamos palitos usados no chão da cantina (selecionávamos os menos asquerosos e menos infestados de DST).
- Levávamos os palitos para casa e os submetíamos a um meticuloso protocolo de higienização (dávamos uma sopradinha).
- Ele cuidava da personalização com canetinhas escolares e da contabilidade.
- Eu gerenciava a distribuição e as vendas.
- Lucro dividido meio a meio — como bons sócios fraternos que, como a Bíblia prova, jamais terminam em tragédia.
Nossos best-sellers eram palitos com cores de camisas e símbolos de times de futebol. Obviamente, não pagávamos um centavo em direitos autorais. Era pirataria pura, um treinamento precoce para o que viria a ser o principal componente do mercado nacional.
Vendíamos como se estivéssemos abastecendo a Amazon. Ficamos populares. Concorrentes surgiram, mas todos tombaram diante da nossa logística e marketing agressivos.
Foram semanas acumulando riquezas que fariam inveja a muitas big techs. Sonhávamos com férias na Disney, mulheres, mansões com Ferraris na garagem e muito sorvete, mas todo o império foi por água abaixo após o evento que prova, mais uma vez, que a corrupção brasileira é um problema crônico e enraizado.
Foi numa quarta-feira fatídica que meu irmão voltou da escola com um olhar vazio e os ombros caídos. Esmorecido e cambaleante, era o retrato vivo da derrota. Alguma coisa muito séria havia acontecido com ele. Temi pelo pior: meu dinheiro!
— Fui roubado — falou em decibéis inaudíveis.
O estojo que carregava todas as economias da futura multinacional havia caído no chão, e as trilhares de crianças ao seu redor, como numa espécie de chuva de balas de aniversário infantil, instauraram um cataclismo social ao modo de Jogos Vorazes: amontoaram-se e surrupiaram tudo. Em segundos, nada restou. Nem uma moeda, nem um farelo de dignidade. Lembraria da queda da Bolsa de 1929, se eu soubesse o que isso quer dizer.
Fiquei chocado. Aquilo seria motivo para iniciar guerras em qualquer nação. Respirei fundo e vivi todas as fases do luto até que, em um golpe incomum de maturidade, me acalmei e ponderei: “vou afundar a cara dele na base do soco”. Seu porte físico, no entanto, fez uso de excelentes argumentos para me convencer de que essa ideia encurtaria consideravelmente meu tempo de vida. Contentei-me em desejar que Deus perdoasse aquelas pessoas ruins.
Anos depois, contando essa história na frente do meu irmão, descobri a verdade. Ele gargalhou e confessou: não houve roubo nem catástrofe social. Houve apenas ele torrando cada centavo da nossa fortuna em Tazos.
O modo como isso será registrado nos livros de história não é problema meu. Mas é com um leve gosto de lágrima que concluo que, pelo menos, não pratico beach tennis.
Galera, estou cultivando um Substack agora porque sim, né? Tem muito texto publicados nas duas plataformas, mas muitos outros que não estão. Confiram lá:
메타데이터
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