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Vídeo pra Quem? A Estranha Relação dos Brasileiros Com As Redes Sociais

Enquanto esperava meu voo em um aeroporto qualquer, ouvi algo familiar. Duas meninas brasileiras estavam encostadas perto da tomada…

FP Editor in Occasional Thoughts · 2025-06-19 13:07 · 0 claps · 3.6 min read
#redes-sociais #brasil #psicologia #carência #antropologia
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Vídeo pra Quem? A Estranha Relação dos Brasileiros Com As Redes Sociais

Enquanto esperava meu voo em um aeroporto qualquer, ouvi algo familiar. Duas meninas brasileiras estavam encostadas perto da tomada, carregando o celular. Devem ter uns 25 e poucos anos. Estavam de férias, parecia, pois falavam o próximo destino para um vídeo.

Uma delas tentava gravar, mas nada fluía, segundo ela, claro. Gravava, apagava, reclamava da amiga, mostrava o passaporte, usava um espanhol meio teatral… “Para os seguidores”. Só que ela não era influencer. Nem perto disso.

Era só alguém tentando fazer algo que precisa ser feito.

Fiquei incomodado. Me pareceu tudo muito… performático. Um ensaio forçado. Como se a viagem só existisse se fosse bem documentada. E fiquei com essa sensação presa: pra quem, afinal, era aquele vídeo? Não é de hoje que sinto isso. Não tenho twitter, não tenho instagram. E minha vida é melhor assim. Abaixo aprofundamos a razão.

Falei com uma amiga. Ela perguntou se era no Brasil que isso estava tão intenso. Não sabemos, mas eu trouxe o que tenho: a perspectiva empírica e a científica.

A empírica:

Moro na Europa Central e vivi muitos anos em Portugal. E, sinceramente, não vejo isso da mesma forma. Mas minha opinião não importa. Claro, os jovens também usam redes sociais. Mas não vejo essa relação tão carente com a câmera. Esse desejo quase infantil de aprovação. O celular ainda é uma ferramenta, não um espelho emocional.

A científica (e ela grita):

  • O Brasil é o 2º país do mundo onde a população mais passa tempo em redes sociais: em média 3h46 por dia (We Are Social & Meltwater, 2024).
  • Em 2023, o Brasil tinha mais de 165 milhões de usuários de redes sociais — o que representa quase 80% da população (Statista, 2024).
  • Entre jovens de 16 a 24 anos, o uso ultrapassa 4h20 por dia, com destaque para Instagram, TikTok e YouTube.
  • Segundo estudo da FioCruz (2022), o uso abusivo das redes entre jovens no Brasil tem sido associado a aumento de quadros de ansiedade, depressão e distorção de autoimagem corporal.
  • Um estudo da USP (2023) mostrou que 1 em cada 3 jovens entrevistados relata já ter se sentido “inútil” ou “sem valor” após comparar sua vida com a de influenciadores digitais.

E esse é o ponto: as redes não são só distração — são fonte de sofrimento real.

Quando a influência vira golpe

Não bastasse a idealização, ainda há os escândalos. O Brasil tem acumulado casos graves de influenciadores promovendo:

  • “Jogos do tigrinho” (cassinos ilegais disfarçados de entretenimento)
  • Rifas fraudulentas com sorteios forjados
  • Promoções falsas e produtos que nunca chegam

Só em 2023, o Procon-SP notificou mais de 60 influenciadores por publicidade enganosa (UOL, 2023). E o número cresce. Porque tudo virou palco. E o palco precisa de espetáculo — mesmo que seja falso.

Golpes, estelionato e a falsa promessa da fama

O mais preocupante não é só o desejo de visibilidade. É o que se constrói sobre isso. O Brasil vive hoje uma epidemia de golpes digitais promovidos por pessoas que se autointitulam influenciadoras.

  • Em junho de 2025, Nego Di foi condenado a 11 anos e 8 meses por aplicar golpes com rifas falsas, somando mais de R$ 5 milhões em prejuízos. (estava em algum regime aberto, no dia que escrevi aqui)
  • O influenciador Ruyter Poubel foi alvo da “Operação Faketech” por promover apostas ilegais e jogos de azar, atingindo milhares de seguidores.
  • Em fevereiro, Filippe Ribeiro foi preso por estelionato no esquema de venda fraudulenta de veículos.
  • Casos como os de Gladison Pieri e Pamela Pavão envolvem rifas manipuladas, ocultação de patrimônio e recusa em entregar prêmios.
  • A Operação Falso Profeta investiga influenciadores religiosos por desviar R$ 160 milhões de fiéis em promessas de multiplicação de dinheiro.
  • Plataformas como o jogo do “tigrinho” (cassinos ilegais disfarçados de apps) foram promovidas por diversos influenciadores. Muitos usaram benefícios sociais como o Bolsa Família para apostar, aliciando seguidores em situação de vulnerabilidade.
  • Em 2024, a CPI das Bets foi instaurada para investigar essas práticas. O relatório final foi arquivado — mas o problema não foi resolvido.

O paradoxo brasileiro

  • O Brasil é digitalíssimo. Segundo o IBGE (PNAD Contínua TIC, 2023), 94,6% dos jovens brasileiros têm acesso à internet.
  • Mas a base educacional é dramática: De acordo com o Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF), 8 em cada 10 brasileiros têm dificuldade para interpretar textos simples. Metade da população não consegue ler e compreender uma notícia inteira (INAF, 2022). É o mundo dos stories sem leitura dos contextos.
  • Essa estética da ostentação começa a contaminar tudo. Tenho familiares no Brasil — gente simples, de origem humilde. Caixa de supermercado, faxineira. E vejo um movimento estranho: a fala muda, o estilo muda. Surge o desejo de falar como influencer, de dar festas caras, de mostrar tudo.
  • Vejo isso na minha família. E não entendo bem. Fico triste. Porque não é sobre aspiração — é sobre ilusão.

Não sei o que resolve

Sinceramente? Não sei. Mas vejo esse movimento com tristeza. Porque não é só sobre vaidade. É sobre solidão. Sobre pertencer. Sobre ser visto.

Sei que a resposta está na educação. Na escuta. Em referências mais saudáveis. Mas enquanto isso não vem, tem gente demais tentando ser alguém — pra ninguém.

E isso é muito estranho.

https://www.meioemensagem.com.br/midia/brasil-ja-soma-2-milhoes-de-influenciadores

https://www.statista.com/topics/9465/influencer-marketing-in-brazil/

https://consumidormoderno.com.br/brasil-influencia-digital/#:~:text=Segundo%20pesquisa%20da%20Nielsen%2C%20o,mais%20de%2010%20mil%20seguidores


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