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A nova geração de ídolos esportivos brasileiros: o desafio de ocupar o trono dos mitos

Por Enrico Todescan, Leonardo Falco, Pedro Fonseca e Vinicius Lopes, alunos do JOS1E

Jornalismo Cásper 2025 · 2025-06-20 01:28 · 0 claps · 7.7 min read
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A nova geração de ídolos esportivos brasileiros: o desafio de ocupar o trono dos mitos

Por Enrico Todescan, Leonardo Falco, Pedro Fonseca e Vinicius Lopes, alunos do JOS1E

Hall da Fama do COB (Comitê Olímpico do Brasil) ( Foto: reprodução/ Comitê Olímpico do Brasil)

Hall da Fama do COB (Comitê Olímpico do Brasil) ( Foto: reprodução/ Comitê Olímpico do Brasil)

Por décadas, o Brasil cultivou ídolos esportivos como quem celebra heróis mitológicos. Atletas que iam além das vitórias: encantavam, emocionavam, inspiravam. Nomes como Ayrton Senna, Ronaldo Fenômeno, Daiane dos Santos e Gustavo Kuerten não foram apenas campeões em suas modalidades; tornaram-se símbolos nacionais, referências de superação, carisma e identidade. Seus feitos extrapolaram os limites das pistas, quadras ou campos. Estavam na televisão aberta, nas conversas de família, nas camisas dos torcedores e até nas salas de aula.

Hoje, porém, há uma lacuna evidente. Com o encerramento das carreiras desses grandes nomes, o Brasil vive um hiato de figuras com esse mesmo apelo popular. A ausência de ídolos não é apenas uma constatação nostálgica; ela repercute diretamente no engajamento do público, no investimento das categorias de base, no interesse da mídia e no próprio desenvolvimento das modalidades. Sem ícones fortes, muitos esportes perdem visibilidade e, consequentemente, impacto social. Surge então a pergunta inevitável: onde estão os novos nomes capazes de ocupar esse lugar?

Embora ainda em fase de amadurecimento, uma nova geração começa a despontar com força no cenário internacional. O ala Gui Santos, hoje no elenco do Golden State Warriors, representa uma promessa sólida para o basquete nacional. O jovem tenista João Fonseca, com desempenho surpreendente em torneios juvenis e profissionais, atrai olhares atentos para um tênis que não encontra substituto à altura desde Guga. E na Fórmula 1, o piloto Gabriel Bortoleto carrega as esperanças do automobilismo brasileiro, uma modalidade que há anos clama por um sucessor à altura de Senna.

A emergência dessas novas promessas traz à tona uma discussão necessária: será que esses jovens talentos têm o que é preciso para se tornarem mais do que atletas de alto nível? Poderão eles alcançar o status de ídolos nacionais, inspirando milhões e ocupando o espaço simbólico deixado por seus antecessores? Para responder a essa questão, conversamos com especialistas, jornalistas esportivos e ex-atletas para entender o que define um ídolo, por que o país vive esse momento de transição e quais caminhos esses possíveis protagonistas terão de trilhar para conquistar o coração de uma nação.

A construção da idolatria

Torcida brasileira: o país cultiva seus ídolos com devoção quase religiosa. (Foto: Anne-Christine POUJOULAT/AFP/JC)

Torcida brasileira: o país cultiva seus ídolos com devoção quase religiosa. (Foto: Anne-Christine POUJOULAT/AFP/JC)

Idolatria, segundo o dicionário Michaelis, é o “ato de prestar culto divino a algo ou alguém; amor cego ou admiração exagerada”. No esporte, essa definição adquire contornos quase literais. Atletas são elevados a um altar popular, com torcedores que os veneram como semideuses. Essa devoção, muitas vezes irracional, move multidões, molda identidades e transforma jogadores em símbolos maiores que o próprio jogo. Como explica o sociólogo e mestre em Ciências da Religião Ivan Barbosa Martins, existe uma dualidade nesse tipo de culto: “Se é num cunho religioso, é pecado; se é no campo social, o cuidado é até onde você pode ser levado por essa idolatria”.

A performance esportiva é o primeiro ingrediente, mas está longe de ser o único. O ídolo é, acima de tudo, uma construção social. Sua força reside na capacidade de representar algo maior: um ideal coletivo, uma narrativa de superação, um símbolo de pertencimento. No Brasil, onde o esporte se entrelaça com temas como raça, classe social e identidade nacional, o papel do ídolo transcende a arena esportiva. Ele se torna também expressão de um imaginário popular potente.

Exemplos dessa força simbólica não faltam. Durante a Copa do Mundo de 1994, Romário não apenas garantiu o tetracampeonato ao Brasil; tornou-se, para muitos, o herói absoluto daquela geração. Houve quem batizasse filhos com seu nome e quem tatuasse seu rosto na pele. Seu talento, carisma e timing perfeito para decidir jogos o colocaram num panteão de adoração poucas vezes repetido.

O papel central da mídia

A mídia, inevitavelmente, ocupa papel central nesse processo de consagração. Como aponta Ivan Barbosa Martins:

“Não existe um pensamento ético sobre o que pode ser um exemplo; o que der dinheiro, a mídia transforma em ídolo”.

Muitas vezes, o que define quem será elevado ao status de herói popular não é apenas o desempenho, mas a capacidade de gerar audiência, vender produtos, criar engajamento nas redes sociais e atrair patrocinadores.

Em tempos de hiperconexão digital, esse aspecto midiático se potencializou. A idolatria contemporânea não nasce apenas das vitórias, mas também da presença constante nas redes sociais, das campanhas publicitárias bem-orquestradas e da construção de uma imagem pública multifacetada, que muitas vezes ultrapassa os limites do esporte e invade o universo das celebridades. “A idolatria midiática não é espontânea, é fabricada”, reforça Ivan.

Basquete: Gui Santos e o sonho na NBA

Gui Santos em ação pelo Golden State Warriors: o jovem ala brasileiro tenta abrir caminho como nova referência do basquete nacional. ( Foto: Dylan Buell/Getty Images)

Gui Santos em ação pelo Golden State Warriors: o jovem ala brasileiro tenta abrir caminho como nova referência do basquete nacional. ( Foto: Dylan Buell/Getty Images)

O basquete brasileiro tem história rica, marcada por nomes consagrados. Wlamir Marques e Amaury Pasos brilharam nos anos dourados de 1959 e 1963, quando o Brasil conquistou dois títulos mundiais. Oscar Schmidt — o “Mão Santa” — tornou-se o segundo maior cestinha da história do basquete mundial, atrás apenas de LeBron James. Marcel de Souza, com o ouro no Pan de 1987, é outro capítulo glorioso na memória do basquete nacional.

Contudo, apesar desse passado ilustre, o presente ainda busca um sucessor com apelo popular equivalente. Entre os mais recentes representantes dessa nova safra está Gui Santos, de apenas 22 anos, atualmente no Golden State Warriors. Draftado em 2022, o ala-pivô representa uma fagulha de esperança para reacender o interesse nacional pelo basquete. O ex-jogador e hoje comentarista Danilo Castro, da Band, analisa com pragmatismo os desafios de Gui:

“A chance de um jogador brasileiro chegar à NBA é mínima. O Gui teve muita resiliência. Para se tornar um ídolo, precisa primeiro se manter na NBA, ser obediente taticamente, e também de um grande trabalho de massificação da mídia brasileira em cima do basquete”.

O sonho de recolocar o basquete brasileiro em evidência

Danilo também ressalta um problema estrutural: a falta de identificação do público com as ligas e clubes nacionais. “Para se tornar um ídolo aqui no Brasil, tem que começar a vender camisa do Mogi ao invés do Lakers.” Em outras palavras, o mercado interno ainda não consegue transformar talentos locais em referências nacionais enquanto o consumo cultural do basquete permanece atrelado aos astros da NBA.

Para Danilo Castro, a nova geração tem se distanciado um pouco das referências nacionais. “Tenho certeza que hoje a molecada assiste mais esportes fora do que brasileiro, estamos perdendo um pouco do patriotismo”, avalia. Com o acesso cada vez maior a ligas internacionais e ídolos estrangeiros, muitos jovens acabam se conectando mais com atletas de fora do que com os talentos que despontam no próprio país, o que representa um desafio adicional na formação de novos ídolos nacionais.

Com Gui Santos, o Brasil ao menos planta uma semente: ele é um símbolo de que novas gerações podem almejar o topo com base em treinamento de excelência, intercâmbio internacional e investimento sólido em categorias de base. Sua trajetória oferece um vislumbre de futuro para o basquete nacional, num movimento que conjuga importação de metodologia com exportação de talentos.

Gabriel Bortoleto e o peso do legado de Senna

Gabriel Bortoleto em sua estreia na Fórmula 1 pela equipe Sauber: nova promessa do automobilismo brasileiro. (Foto: Divulgação/ Fórmula 1)

Gabriel Bortoleto em sua estreia na Fórmula 1 pela equipe Sauber: nova promessa do automobilismo brasileiro. (Foto: Divulgação/ Fórmula 1)

Quando o assunto é automobilismo, o Brasil sempre teve uma relação de amor intenso. Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Felipe Massa pavimentaram trajetórias de sucesso, mas nenhum atingiu o patamar mítico de Ayrton Senna. Desde sua morte trágica em 1994, o país procura alguém capaz de resgatar aquele nível de paixão.

Nos últimos anos, essa busca ganhou um novo protagonista: Gabriel Bortoleto. Com apenas 19 anos, o jovem piloto de São Paulo rapidamente ascendeu nas categorias de base do automobilismo mundial. Em 2023, sagrou-se campeão da Fórmula 3 com atuações de alto nível, mostrando uma maturidade impressionante para sua idade. Sua passagem vitoriosa pela Fórmula 2, coroada com o título logo em seu ano de estreia, foi histórica, com direito a vitória heroica em Monza após largar da última posição.

Seu desempenho consistente atraiu o olhar de grandes equipes e, em 2025, Bortoleto finalmente chegou à Fórmula 1, assinando com a Sauber. A entrada no grid representa um renascimento simbólico do automobilismo brasileiro no principal palco do esporte a motor mundial. O jornalista Rafael Lopes, especialista em automobilismo no Grupo Globo, reforça a importância deste primeiro ano:

“Este ano tem que ser um ano para o Gabriel pegar maturidade na competição, entender como a elite funciona, as dinâmicas, para que ele entenda o carro e mostre seu potencial”.

O desafio de Bortoleto é duplo: além de adaptar-se tecnicamente à F1, terá também que conquistar o público — algo que transcende os resultados na pista. Caso consiga unir carisma, boas performances e apoio midiático, pode, sim, se tornar o próximo grande ídolo nacional, reeditando uma relação emocional que parecia perdida desde a Era Senna.

João Fonseca e a esperança de um novo Guga

João Fonseca, de apenas 18 anos, já conquista espaço no circuito profissional e alimenta a esperança de novos dias de glória no tênis brasileiro (Foto: RS/Fotos Públicas)

João Fonseca, de apenas 18 anos, já conquista espaço no circuito profissional e alimenta a esperança de novos dias de glória no tênis brasileiro (Foto: RS/Fotos Públicas)

No tênis, a sombra de Gustavo Kuerten ainda paira. O “Guga” não foi apenas tricampeão de Roland Garros; foi também um fenômeno de carisma, identificado com o brasileiro comum, carismático dentro e fora das quadras, símbolo de perseverança e alegria.

Desde sua aposentadoria, o tênis brasileiro navegou por um vácuo de relevância internacional — até surgir João Fonseca. O carioca de 18 anos rapidamente atraiu os holofotes com seu estilo agressivo, potente forehand, excelente backhand e vitórias expressivas em torneios profissionais. O título do ATP 250 de Buenos Aires, as conquistas em torneios Challenger e as vitórias sobre jogadores do Top 30 mundial já o colocam como um dos jovens mais promissores do circuito. Para o jornalista Alexandre Cossenza, criador do blog “Saque e Voleio”, o potencial de João é enorme:

“Ele tem potencial para brigar lá em cima, estou falando de Top 20, Top 10, quem sabe número um do mundo… a trajetória dele até agora indica coisas grandes”.

Apesar da empolgação, Cossenza faz uma ressalva: o tênis é um dos esportes mais imprevisíveis em termos de carreira. “É muito difícil fazer previsões. Mas tudo o que o João mostrou até agora aponta que ele pode ser grande.” Além da performance, Fonseca já demonstra carisma e orgulho em carregar a bandeira brasileira, ingredientes fundamentais na construção de um ídolo nacional.

Por atuar num esporte com cobertura internacional semanal, João tem ainda a vantagem de estar constantemente nos noticiários esportivos — fator essencial na construção midiática de um herói popular.

O Brasil à procura de novos mitos

A ausência de grandes ídolos fora do futebol expõe uma carência simbólica importante para o imaginário nacional. Os casos de Gui Santos, Gabriel Bortoleto e João Fonseca mostram que há uma nova safra promissora, mas o caminho até o status de mito ainda exige mais do que talento: depende de resultados consistentes, carisma, presença midiática e identificação genuína com o povo brasileiro.

Enquanto esses jovens seguem escrevendo suas histórias, o país torce para que deles surjam os próximos heróis capazes de inspirar crianças, unir famílias frente à TV e, quem sabe, um dia ocupar aquele mesmo altar onde ainda estão Senna, Guga e companhia.


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