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145 anos de Trótski:

O legado dirigente do trotskismo nos dias de hoje.

Comitê de Luta - Leon Trótski · 2024-11-07 19:35 · 0 claps · 8.8 min read
#politics #trotsky #bolshevik #socialism #revolution
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145 anos: o legado dirigente do trotskismo nos dias de hoje.

Neste ano, em 7 de novembro, comemoramos os 145 anos do nascimento de Leon Trotski, uma das figuras mais emblemáticas do movimento socialista e revolucionário do século XX. Trotski, nascido Lev Davidovich Bronstein em 1879, foi muito mais do que um teórico marxista: foi um líder revolucionário incansável, estrategista militar e defensor ardente da revolução socialista internacional, além de um dos mais poderosos inimigos do imperialismo. Trótski viveu e morreu em defesa da revolução russa, e, neste breve texto, exporemos as razões pelas quais seu legado deve ser reivindicado enquanto programa da classe operária mundial, bem como ilustrar brevemente sua trajetória.

Trótski era um líder de massas e um grande orador. Ele foi presidente do Soviete de Petrogrado durante as revoluções de 1905 e 1917. Em 1917, era considerado o maior orador da revolução, sendo enviado aos locais mais difíceis para convencer os operários da insurreição. Começou a militar na clandestinidade com menos de 18 anos; aos 19, ajudou a formar o Sindicato de Trabalhadores do Sul da Rússia e foi preso. A partir de então, dedicou o resto da vida como militante revolucionário. Tornou-se líder do Soviete na revolução de 1905, com apenas 26 anos, sendo, na prática, o líder desta revolução. Em 1917, com apenas 38 anos, foi peça-chave na insurreição.

Da revolução até a morte de Lênin, a direita frequentemente se referia aos bolcheviques com a expressão "Lênin e Trótski". Ele foi o braço direito de Lênin durante todo esse período. Trótski é considerado o arquiteto prático da revolução; no momento decisivo, foi ele quem assumiu sua execução.

Ao tomar o poder, foi encarregado de negociar a paz com os alemães, a tarefa mais importante daquele momento.

Durante as negociações com os alemães, começou a guerra civil. Trótski foi escolhido para formar o exército e comandar o esforço de guerra — a nova tarefa mais urgente do período. Ele fundou o Exército Vermelho, reunindo 5 milhões de homens a partir do zero. Criou uma nova forma de agitação de guerra, com uma tática militar que combinava técnicas de combate, mobilização interna das tropas e uma campanha entre a população. O Exército Vermelho derrotou exércitos russos e os de 14 países estrangeiros, um verdadeiro "milagre militar".

Em seu testamento, Lênin fez críticas a vários membros do partido, propôs a remoção de Stálin da Secretaria Geral e também teceu críticas a Trótski, mencionando que ele era muito autoconfiante e, às vezes, zeloso demais com questões organizativas, em detrimento de algumas questões políticas. No entanto, Lênin também declarou Trótski o membro mais capaz dentro do Comitê Central.

Para muitos, ele era o sucessor natural de Lênin. Mais tarde, reconheceu que Lênin estava inteiramente correto nas críticas que lhe fez, considerando-o seu professor. Embora discordasse em alguns pontos, como todo bom aluno crítico e livre-pensante, acabou aceitando a realidade sem reservas.

Trótski era extremamente rígido e metódico. Relatos da época contam que o Comissariado da Guerra era o ministério mais organizado da União Soviética e que seu trabalho organizativo era invejável. Diziam que ele nem permitia que se fumasse em reuniões.

Durante a guerra civil, Trótski assinou milhares de ordens de fuzilamento de soldados e oficiais de patente do próprio exército. Não as assinava levianamente, mas também não hesitava em usar a corte marcial como instrumento de disciplina. Tinha pouca tolerância para deserções, saques, abusos e outras práticas comuns de exércitos em relação à população local.

Em determinado momento, estabeleceu a pena de morte para aqueles que relatassem falsamente atos de bravura em regimentos onde houve covardia. Era um inimigo da falsificação, acreditando que a verdade, por mais dura que fosse, era essencial para se ter autoridade moral. Como comandante de todo o exército, chegou a liderar um ataque a cavalo para levantar o moral das tropas, demonstrando coragem e liderança pelo exemplo. Curiosamente, Stálin e seus apoiadores o consideravam rude e rígido, enquanto Stálin se apresentava como “conciliador”. As farsas, vistas de longe, tornam-se absurdas.

Diante da ditadura de Stálin, Trótski propôs a convocação de um congresso. Para ele, o partido precisava ser chamado ao debate; ele acreditava na militância, no partido e em seu espírito revolucionário. No entanto, os stalinistas negaram o chamado à militância.

Trótski foi expulso do partido, exilado, e seus aliados foram presos e torturados. Até 1933, seis anos após sua expulsão, ele ainda exigia que o centralismo democrático fosse respeitado, algo que considerava sagrado. Exigia que Stálin reconhecesse a oposição como parte do partido, que ela seguisse a política da maioria, mas que tivesse o direito de debater as posições e tentar convencer a maioria. Essa exigência foi negada. Trótski era, antes de tudo, um homem de partido.

Após o desastre da ascensão de Hitler, Trótski concluiu que o partido era incorrigível por dentro e que uma mudança só seria possível de fora. Sua lealdade final, contudo, sempre foi com a classe operária. Se o partido não lutaria por ela de forma alguma, então era necessário outro partido.

No final da vida, enfrentou grandes atritos no movimento trotskista porque um setor achava que a União Soviética não deveria ser defendida incondicionalmente. Trótski levou o debate às últimas consequências, rompendo com esse setor. Detalhe: Stálin havia tentado matá-lo mais de uma vez, matado seu filho, levado sua filha ao suicídio, executado seus companheiros de partido e julgado Trótski à revelia, condenando-o à morte como contrarrevolucionário. Apesar de tudo, Trótski nunca mudou de posição. Sempre crítico de Stálin, sua defesa da revolução era inegociável, e sua ideologia não estava sujeita a mudanças de natureza moral ou emocional.

Aqui está o trecho revisado, com melhorias na pontuação e na estrutura:


Trótski foi assassinado por ordem de Stálin após treze anos de exílio. Para nós, ele é o maior mártir da luta comunista. Em seu túmulo, hoje, repousam a bandeira da União Soviética e a foice e o martelo, símbolos de sua vida e de sua dedicação à causa.

Pierre Broué, em sua análise sobre a situação na União Soviética em 1932-1933, mostrou que Trótski era visto por operários revolucionários como um verdadeiro símbolo do que a União Soviética deveria ser. Broué escreveu:

“Estas não eram frases vazias (sobre a reorganização da oposição dentro da União Soviética). O isolamento da Oposição de Esquerda estava chegando ao fim, depois de anos de repressão severa. Era evidentemente um fenômeno de primeira importância – e um que, compreensivelmente, os historiadores da era Kruschev tiveram o cuidado de não revelar – que Velhos Bolcheviques, que eram autênticos stalinistas, tiraram suas conclusões e, a partir daquele momento, começaram a se voltar para uma aliança com os trotskistas. Tal fenômeno seria inconcebível sem a pressão das massas trabalhadoras; e é precisamente isso que a correspondência (dos trotskistas) e o Boletim da Oposição estavam registrando, acumulando informações para qualquer um que quisesse coletá-las.

Em uma carta de setembro de 1932, fala-se de greves com ocupação nos Urais. Outra, em agosto, relata greves e manifestações de rua em Ivanovo-Vosnesensk, onde Kaganovich e Molotov salvaram a situação sacrificando bodes expiatórios locais à fúria dos trabalhadores. Nos meses finais de 1932, as cartas da URSS para o Boletim davam cada vez mais exemplos. Mais de cem trabalhadores foram presos na fábrica Amo (uma grande fábrica de automóveis em Moscou) depois que panfletos da oposição foram distribuídos, e dezenas em Charkopodshinsk, na fábrica Calibri, e na planta Báltica em Leningrado. Um panfleto (não feito pela oposição) foi distribuído numa fábrica em Kovrov, adotando os slogans da Oposição.

Durante uma comemoração de Outubro (da Revolução), numa fábrica que produzia freios, um retrato de Stálin havia sido colocado e rapidamente foi substituído por um de Trótski. O editorial do jornal-mural colocado na fábrica Trabalho Proletário, em 22 de janeiro de 1933, sobre a morte de Lênin, era inteiramente composto de extratos de artigos de Trótski.”

O que defendem, então, os trotskistas no século XXI?

Defendemos que o proletariado é a classe que realizará a revolução. A revolução proletária, em países atrasados, deve promover simultaneamente o desenvolvimento de tarefas tanto do capitalismo quanto do socialismo. Esse foi o caminho seguido por Lênin, que garantiu direitos como o voto e a reforma agrária — tarefas típicas do capitalismo — enquanto expropriava a burguesia, um passo essencial para o socialismo. Também defendemos a teoria do imperialismo de Lênin, complementando-a: o desenvolvimento nos países pobres é desigual e combinado. Em algumas cidades do Brasil, como São Paulo e Rio de Janeiro, as condições se assemelham às de países desenvolvidos, com fábricas que operam nos mesmos padrões das dos países ricos. Em outras regiões, no entanto, as condições lembram as do Afeganistão. Essa disparidade cria uma contradição: o proletariado dos grandes centros é forte como o de um país desenvolvido, enquanto a burguesia, que se sustenta no atraso nacional, é fraca. Essa disparidade na classe proletária facilita a revolução em países atrasados, embora também dificulte seu desenvolvimento posterior devido ao atraso nacional. As revoluções do século XX confirmaram isso, pois ocorreram apenas em países pobres e nunca avançaram para os países capitalistas com maior desenvolvimento tecnológico. Esses três pontos são centrais para a chamada teoria da Revolução Permanente.

Acreditamos que o socialismo, como Marx e Lênin nos ensinaram, representa um estado de capacidade produtiva superior ao do capitalismo, e que a reorganização dessas relações de produção só é possível, de forma completa, em uma escala internacional. O capitalismo é um sistema de produção global. Napoleão tornou o capitalismo um sistema internacional por meio da força das armas; a União Soviética, por outro lado, não conseguiu expandir o socialismo da mesma maneira. Lênin concordava com essa visão e, no congresso do Partido em 1918, afirmou: “a revolução na Europa é a nossa salvação”.

Defendemos que a União Soviética nunca alcançou o socialismo pleno, tendo permanecido em um estado transitório e contraditório. As relações de produção se aproximavam das socialistas, mas a capacidade produtiva do país não se igualava nem à de um país socialista pleno, nem à de um país capitalista avançado. Note que a URSS jamais chegou ao nível dos Estados Unidos, Alemanha, França ou Japão, considerando a proporcionalidade em relação ao tamanho desses países.

Defendemos incondicionalmente a ditadura proletária, seja na URSS, em Cuba, na Coreia ou em qualquer outro lugar. Defender o regime da ditadura do proletariado sobre a burguesia não significa, contudo, apoiar a política dos governos desses países. Temos pontos de concordância e discordância, pois a classe operária não é o seu governo, em lugar algum. Sua ditadura também não deve ser a ditadura de uma camarilha ou de um indivíduo.

Consideramos o governo de Stálin uma ditadura cruel e afirmamos que, salvo exceções pontuais, sua ditadura foi uma oposição ao regime da ditadura do proletariado. Denunciamos que uma burocracia, um setor da classe média e outras classes expropriaram o controle político da União Soviética, deixando o país nas mãos dos trabalhadores no campo econômico — pois não havia propriedade privada — mas tirando deles a administração dessa propriedade e da política do país.

Não defendemos uma democracia genérica na URSS. Há diferentes momentos na luta. O governo de Lênin, como o de Robespierre, foi marcado por uma luta sangrenta e uma guerra interminável contra a resistência da burguesia. Trotski, por muito tempo, foi o executor da “guilhotina bolchevique”. O terror bolchevique de Lênin era dirigido contra a classe dominante e em defesa da revolução; o terror de Stálin, contra o povo e o partido, visava manter uma ditadura contrarrevolucionária.

Seguindo a tradição de Lênin, defendemos que o partido da classe operária, em países capitalistas, não deve participar de governos burgueses, mesmo que sejam de esquerda. O proletariado deve ser independente, e por isso nos opomos a frentes amplas, populares ou qualquer outra forma de colaboração de classes.

Diante da ameaça do fascismo e da direita, acreditamos ser dever das correntes populares da esquerda unirem-se numa frente única de ação da classe trabalhadora contra o fascismo. Defendemos unidade na hora de agir contra a direita nas ruas, mas jamais uma unidade de programa e ideias com a esquerda capitalista. “Marchar separados, atacar juntos”, como disse Trotski.

Defendemos, como Trotski e Lênin, que o proletariado tenha todos os direitos políticos e democráticos possíveis sob o capitalismo, de forma incondicional. Quanto mais fraco for o Estado, mais rapidamente a revolução virá.

Defendemos a autodefesa das massas e a formação de comitês operários para a defesa, e um grande movimento de luta contra a direita e o fascismo. Defendemos o amplo e democrático armamento do povo, pois sem ele não há revolução.

Defendemos um partido comunista revolucionário, que fale abertamente a que veio e que defenda a revolução proletária, como fizeram Lênin e Trotski.

Defendemos o centralismo democrático: um partido governado por sua militância, que deve ser parte ativa do movimento de massas. Nosso lema organizativo, nesse sentido, é “democracia na decisão, unidade total na ação.”

Não se trata de um debate historiográfico ou de definir quem estava certo quase cem anos atrás. Trata-se de resolver questões que marcaram a história do movimento comunista e que nos impactam até hoje. O debate percorre desde a definição da natureza do Estado Operário e de como ele deve funcionar, até como conduzir a revolução, enfrentar o fascismo e lidar com a questão da colaboração ou não com a burguesia.

Somos trotskistas porque somos comunistas, defendemos a revolução proletária. Rejeitamos o stalinismo pela sua natureza contrarrevolucionária e, de fato, anticomunista. Diferenciamo-nos dos demais “trotskistas” do Brasil, pois somos defendemos o legado de Leon Trótski e não aceitamos imitações baratas.


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