Proto-personas: o caminho para soluções centradas no usuário
Criar produtos não é apenas sobre escrever código ou desenhar interfaces. O verdadeiro desafio — e também a essência do sucesso — está em…
Proto-personas: o caminho para soluções centradas no usuário
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Criar produtos não é apenas sobre escrever código ou desenhar interfaces. O verdadeiro desafio — e também a essência do sucesso — está em compreender as pessoas que irão usá-los.
Ao meu ver, uma solução bem-sucedida é aquela que:
- Entende profundamente o problema que deseja intervir
- Se conecta com as pessoas usuárias, enxergando como interagem com o mundo e com suas dores através dos seus próprios olhos
- Consegue amenizar, mitigar e/ou solucionar o problema
Como conseguir isso? Sendo customer-centric: colocando o usuário no centro de cada decisão, tornando-o objeto de estudo e intervenção durante todo o ciclo de vida da solução, e mantendo-o neste lugar mesmo com pressões de stakeholders, lideranças, prazos e afins.
Foi exatamente essa abordagem que comecei a adotar ao explorar um tema que, até então, era apenas um hobbie: o café. Atualmente, minha relação com o café evoluiu a ponto de se tornar um verdadeiro laboratório pessoal, onde cada preparo traz descobertas, mas também desafios. Como registrar minhas receitas e acompanhar minha evolução? Como guardar meus melhores experimentos e entender meu próprio paladar ao longo do tempo?
Com este terreno fértil para soluções, senti aquela vontade irresistível de criar algo para solucionar esses problemas. Mas, como qualquer resolvedor de problemas sabe, esse é o momento em que precisamos redirecionar o tesão e empolgação, resistindo à tentação de pular direto para a solução. Antes de construir qualquer coisa, eu precisava entender melhor as dores, os comportamentos e as necessidades envolvidas.
Enquanto resolvedor de problemas, seja como engenheiro de software ou como psicólogo, quando vejo um problema em minha vida (uma dor ou necessidade), busco entender o ambiente onde reside tanto a problemática quanto a pessoa que a sente/vive.
Decidi utilizar esse caso-problema do café e comecei a listar de modo mais consciente o que sentia e identificava de dores e sentimentos nas minhas experiências com café. E foi neste momento que cheguei às proto-personas.
Proto-personas: o que são e por que são importantes?
Antes de falar sobre como construí as minhas, é importante esclarecer: o que são proto-personas e por que elas são tão valiosas no desenvolvimento de produtos?
Quando falamos sobre entender as pessoas usuárias, geralmente pensamos em criar personas -representações detalhadas de perfis de usuários baseadas em pesquisas etnográficas, dados e análises comportamentais. No entanto, nem sempre temos tempo, capacity ou investimento para conduzir estudos aprofundados logo no início de um projeto, ainda mais quando stakeholders não têm visibilidade dos seus benefícios.
É aí que o propósito das proto-personas se enraiza. Diferente das personas, elas são construídas com base em hipóteses, percepções iniciais, crenças e experiências. É considerado um ótimo ponto de partida para direcionar o entendimento sobre as pessoas usuárias e validar algumas suposições antes de realmente investir recursos.
De modo sucinto, proto-personas são como esboços: ainda não possuo todos os detalhes, mas já conseguimos visualizar alguns padrões, direcionamentos e podemos torná-los mais robustos e certeiros ao passo que tivermos mais dados ou realizarmos pesquisas estruturadas.
Em meu caso, já tenho experiências prévias com o tema “preparo de café”, tanto as minhas quanto aquelas que surgiram das conversas com amigos com o mesmo hobbie. Antes de efetivamente investir recursos para criar instrumentos de coletas de dados, realizar entrevistas e análises, comecei pelas proto-personas.
Como construir proto-personas?
A confecção de proto-personas pode variar muito a depender do contexto no qual se emprega, mas normalmente segue um padrão.
Aqui contarei um pouco sobre as etapas mais fundamentais e como foi minha trajetória por elas com a problemática do café.
Brainstorming de características e comportamentos
Antes de definir perfis, é essencial ter claro o objeto de estudo (ex. preparo de café) e a problemática que motivou e movimentou pessoas à pensarem sobre uma solução.
Tendo isso bem estabelecido, é necessário levantar o máximo de informações possíveis sobre quem vivencia a problemática. Algumas perguntas úteis e que utilizei nessa fase foram:
- Quais são suas dores e necessidades? O que as motiva?
- Quais são seus comportamentos e hábitos relacionados ao contexto-problema?
- Quem são essas pessoas e como elas interagem com o problema?
- Como elas interagem com soluções similares hoje?
- Quais são os canais de contato e mídias que consome sobre café?
Iniciei meu brainstorming com as dores e sentimentos que havia listado, adicionei algumas dos meus amigos e fiz o exercício de tentar expandir a visão para outras pessoas que poderiam se interessar pela solução. Fui listando algumas características mais gerais tanto minhas quanto com pessoas com quem tive contato.
Parecendo ter exaurido as possibilidades, comecei a perceber algumas semelhanças e possibilidades de associações.
Identificação de padrões e agrupamento
Notei que havia asserções que pareciam pertencer a um grupo maior, elas poderiam ser agrupadas por uma variável em comum: o nível de conhecimento sobre o preparo de café.
Então, o próximo passo foi me perguntar “Qual é seu nível de experiência com o problema?”. Depois, foi agrupar insights e identificar os padrões a fim de ajudar a estruturar perfis distintos e evitar generalizações que poderiam levar a soluções muito complexas, genéricas e vagas.
No meu caso, identifiquei três grandes perfis:
- Desbravador do Café (Iniciante): recente no universo do café, em busca de aprendizados e orientações.
- Forjador de Sabores (Intermediário): entusiasta que já conhece alguns métodos de preparo, quer explorar e evoluir.
- Barista (Avançado): experiente e detalhista, busca refinar seu conhecimento e compartilhar com os outros.
Confecção do material
A fim de criar uma conexão e relação com esses perfis que são o cerne de tudo que surgir daqui em diante, fui ao Figma criar peças dessas três proto-personas, incluindo para cada uma delas uma foto de pessoa que peguei pelo Freepik, criando nome, idade, além de destacar em quadros separados as caracteríticas e comportamento, dores, necessidades, canais de contato com café e o nível de conhecimento sobre café.
Validação e refinamento contínuo
Como dito, proto-personas não são definitivas e tendem a ser refinadas com a chegada de novos dados. Elas servem como um ponto de partida e devem ser validadas conforme o projeto avança. Isso pode ser feito por meio de entrevistas, pesquisas e feedback de usuários reais.
O meu próximo passo (e que contarei num outro artigo) será utilizar o Mapa de Empatia para detalhar melhor cada um desses perfis e, depois, utilizar todo esse insumo para criar os famosos user-stories e/ou use-cases.
O que aprendi nesse processo?
Criar proto-personas foi um exercício revelador. Me fez perceber que, mesmo sendo usuário da solução que quero construir, meu perfil não representa todas as possíveis variações de público.
Além disso, esse processo me ajudou a colocar em prática o apaixonar-se pelo problema, e não pela solução (referência ao livro “Apaixone-se Pelo Problema, Não Pela Solução” de Uri Levine), garantindo que o que eu tiver que desenvolver tenha a pessoa usuária como fonte da verdade, tendo exaurido o problema e, por meio disso, contando com um propósito claro e real.
No fim das contas, a lição mais valiosa foi essa: quanto mais buscamos conectar com o humano e entendermos as pessoas, maiores são as chances de criarmos algo verdadeiramente relevante e encantador para suas vidas.
E você, já utilizou proto-personas em algum projeto? Viveu desafios nos primórdios de projetos? Como lidou com a pressão das demandas de TI sem perder o foco no usuário? Vambora compartilhar experiências.
메타데이터
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