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Por que São Paulo alaga?

Quem pode ser responsabilizado pelas catástrofes que assolam a Cidade de São Paulo todo início de ano?

Renato Cordeiro · 2020-02-11 14:10 · 32 claps · 4.7 min read
#saopaulo #enchente #inundação #chuva #tempestade
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Por que São Paulo alaga?

A segunda semana de fevereiro começou da pior forma possível para a Cidade de São Paulo. Uma forte chuva se iniciou na madrugada e não demonstrou clemência com o raiar de um sol difuso no céu cinzento. Foi dito que em poucas horas choveu mais de 50% do total esperado para o mês — que normalmente já é um dos mais chuvosos, na cidade.

Ambas as marginais transbordaram, além de dezenas de córregos menores. Bairros inteiros acordaram submersos. Garagens de prédios viraram aquários de carros. Inúmeras árvores caíram. Diversos deslizamentos foram relatados. Segundo um informe, apenas na Grande São Paulo, 140 desmoronamentos, 120 quedas de árvores e 796 pontos de enchentes. O número deve crescer.

Ainda que tempestades similares ocorram com certa frequência e nenhuma administração municipal jamais saiu imune à tragédia, basta que elas ocorram para que logo brotem incontáveis artigos nos meios de comunicação, alguns oportunistas, outros mais sóbrios; poucos de fato atentos à verdade indesejada:

É impossível resolver todos os problemas trazidos pelas tempestades na Cidade de São Paulo.

Há um fato que precede a chegada dos padres jesuítas Manoel da Nóbrega e José de Anchieta, trazidos por João Ramalho à aldeia do Cacique Tibiriçá. Precede os ancestrais das primeiras tribos que usaram aquele mesmo morro às margens dos rios Tamanduateí e Anhangabaú, ou qualquer outra parte deste imenso território, onde se desenha a maior área metropolitana da América Latina. São Paulo alaga.

É comum escutar que a região metropolitana já foi repleta de Mata Atlântica, mas essa é uma ideia parcialmente correta. Havia sim muita mata, mas também outros biomas, campos com vegetações de cerrado, araucárias, e muita, muita várzea. A bacia do Rio Tietê tem no município de São Paulo características que a fazem mais semelhantes ao Pantanal do que quaisquer outros rios urbanos que conhecemos. O Tietê era um rio lento, repleto de meandros — aquelas curvas que fazem o rio serpentear e mudar constantemente de desenho através de um processo contínuo de assoreamento. Rios assim correm sem pressa através de planícies em meio a grandes várzeas alagáveis. Quando chove, eles transbordam.

fonte: BBC Brasil

fonte: BBC Brasil

O Tietê é o maior de cerca de trezentos rios que correm pelo município. É ainda o principal rio a cortar o Estado, nascendo no encontro do planalto paulista com a escarpa da Serra do Mar, e desaguando no Rio Paraná, que corre em direção ao Sul para se juntar ao Rio da Prata, de Buenos Aires e Montevideo.

De semelhante importância na cidade tem ainda o Rio Pinheiros, outrora repleto de meandros, e posteriormente retificado e até invertido, para a criação da represa Billings. Temos rios de primeira importância para a história da cidade, como o Tamanduateí e seu afluente Anhangabaú, que permitiram que o colégio Jesuíta prosperasse em seus primeiros anos, fornecendo água, transporte e defesa. Hoje milhões de pessoas passam insuspeitas sobre essas águas, em busca de presentes e outros bens na Rua 25 de Março, assim como no vale que compartilha o nome do afluente.

Estamos falando de uma região urbanizada com trezentos rios que, em sua maioria, transbordam com as chuvas de verão. Se estendermos para toda a região metropolitana, podemos estar falando de milhares. A cidade de São Paulo está implantada em meio a uma incrível bacia hidrográfica, pertencente ao aquífero Guarani — a maior reserva de água doce do mundo!

Conclui-se então que a cidade não deveria estar aqui. Então, a culpa é dos Jesuítas… ou dos Portugueses, correto?

Alguém realmente acha que quando aqueles dois padres subiram a Serra do Mar eles imaginavam estar plantando as sementes de uma conurbação urbana com vinte milhões de habitantes? Consideremos então os portugueses, que depois vieram transformaram a Aldeia em Vila, e depois em Cidade. Poderiam ter previsto que aquela colina margeada por dois rios não era um bom lugar para uma cidade. Mas a história diz o contrário. Era exatamente esse o terreno que eles buscavam. Um outeiro com visão periférica para permitir que aldeões se estabelecessem e se defendessem, se possível com abundância de água à disposição.

Portugal foi um grande império marítimo, mas é um país pequeno, repleto de morros e de população pequena. As cidades portuguesas lá, aqui e aonde mais foram fundadas, nasceram em colinas. Até mesmo Lisboa, Coimbra e Porto tem fundações semelhantes. Ocorre que o Município de São Paulo, sozinho, tem mais habitantes que a antiga Metrópole. Ninguém poderia prever o que viria a ser. Culpemos então os governantes!

Certamente nossos governantes são solidariamente responsáveis. Mas ouso dizer que o último prefeito não tem mais culpa que o penúltimo, e este que o anterior; e assim sucessivamente. Por muito tempo, foi unânime a ideia de que pavimentar era promover progresso, que rios canalizados desobstruiriam o desenvolvimento da cidade. Passamos boa parte do ano ainda acreditando nessa utopia, até que a Natureza vem manifestar seu imenso poder e o Homem observa impotente. Culpemos então as mudanças climáticas?

Talvez… Outros têm terremotos, tsunamis, tornados, vulcões. Criam alertas e procedimentos para evitar que as perdas humanas e materiais sejam maiores. Aqui, temos uma catástrofe natural para chamar de nossa. São as tempestades tropicais. Mas insistimos em tentar domá-las.

Ocupamos, pavimentamos e construímos sobre as várzeas essenciais para o espraiamento das águas. Canalizamos os rios e córregos, fazendo com que suas águas possam tão somente avançar para frente, nunca para cima, nunca para os lados. Retiramos das encostas a rica vegetação que retinha e desacelerava as águas que desciam do espigão divisor de águas dos dois grandes rios paulistanos. Hoje, essas várzeas se chamam Barra Funda, Itaim Bibi, Vila Leopoldina. Esses Rios se chamam Avenida do Estado, Avenida Bandeirantes, Avenida Jornalista Roberto Marinho (antiga Águas Espraiadas!). Essas encostas se chamam Jardins, Perdizes, Bela Vista.

Podemos gastar milhões e construir piscinões gigantescos, justificados pelas máximas de chuva do século. Podemos cavar e concretar calhas enormes nos rios, aumentar as galerias, criar o maior sistema coletor de águas pluviais do planeta, esvaziando os cofres públicos por um século. Serão bilhões, que demandarão outros milhões de manutenção, para resolver fenômenos que podem sequer ocorrer. Teremos um sistema colossal, ocioso na absoluta maior parte do ano.

Um governo recente investiu uma fortuna para concretar as margens do Rio Tietê, deixando-o com aparência de uma medonha vala industrial. O Governador então afirmou: não volta a transbordar. As fotos de hoje o desmentem.

São Paulo continuará a alagar. São Paulo alagará sempre.


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