← Back to list

Caminhos para o Turismo Sustentável em Fortaleza

Habitada há pelo menos 4.600 anos antes do presente, a Sabiaguaba é um ecossistema complexo de campos dunares, praias e manguezais

Victor Marvyo · 2025-05-25 00:46 · 0 claps · 6.5 min read
#jornalismo #unifor #sustentabilidade #turismo-sustentável
Open on Medium ↗
Wiki topics: 🚀 · Self Improvement

Caminhos para o Turismo Sustentável em Fortaleza

Habitada há pelo menos 4.600 anos antes do presente, a Sabiaguaba é um ecossistema complexo de campos dunares, praias e manguezais

Dunas Sabiaguaba, ponto turístico de Fortaleza/ Foto: Divulgação

Dunas Sabiaguaba, ponto turístico de Fortaleza/ Foto: Divulgação

O turismo é uma das forças motrizes da economia brasileira. Cidades como Fortaleza, no Ceará, ocupam lugar de destaque nesse cenário. Com praias urbanas, culinária regional e manifestações culturais diversas, a capital cearense figurou entre os três destinos mais procurados por brasileiros em 2023, segundo o Ministério do Turismo.

O fluxo de visitantes estrangeiros também cresceu, com destaque para turistas da Argentina, Itália e Portugal. Mas, como ocorre em destinos de alta atratividade, esse crescimento traz implicações profundas — ambientais, sociais e econômicas.

O turismo sustentável surge como uma resposta a esse paradoxo: como promover o turismo sem comprometer os territórios? Como garantir que os benefícios sejam distribuídos com justiça social e respeito ambiental?

Crescimento que exige cuidados

Fortaleza possui um dos maiores parques hoteleiros do Nordeste, com cerca de 33 mil leitos, de acordo com a Secretaria de Turismo de Fortaleza (SETFOR). A atividade turística, em 2019, chegou a representar aproximadamente 12,6% do Produto Interno Bruto (PIB) municipal, sendo responsável por dezenas de milhares de empregos diretos e indiretos.

Esse impacto econômico positivo, porém, convive com distorções. Parte significativa da população que vive nas áreas periféricas ou nos entornos dos polos turísticos ainda enfrenta obstáculos como informalidade, precarização do trabalho e dificuldade de acesso ao valor gerado pela indústria do turismo. Mulheres e jovens, especialmente, se veem frequentemente em posições instáveis, com pouca proteção social.

Além disso, cresce o risco de gentrificação, processo em que o aumento da valorização imobiliária em áreas turísticas provoca a expulsão de moradores de baixa renda. Na Sabiaguaba, bairro costeiro da cidade, esse fenômeno já é perceptível. A especulação imobiliária pressiona populações tradicionais a venderem suas terras e migrarem para zonas mais afastadas. Isso compromete o acesso à moradia e a continuidade de modos de vida ligados ao território.

No início de 2024, a agência Viaje com T&C, fundada por Tamara Colares, deu os primeiros passos rumo a um sonho: construir roteiros inclusivos para famílias atípicas. (Foto: Site Viaje com T&C)

No início de 2024, a agência Viaje com T&C, fundada por Tamara Colares, deu os primeiros passos rumo a um sonho: construir roteiros inclusivos para famílias atípicas. (Foto: Site Viaje com T&C)

“Deveria existir uma lei para inibir vendas para pessoas de fora porque quem mora ali não consegue competir com os preços inflacionados”, alerta Tamara Colares, fundadora da agência Viagem com TC, que atua no território há mais de cinco anos.

Sustentabilidade: mais que preservação ambiental

O turismo sustentável propõe um modelo de desenvolvimento baseado em três pilares: a proteção do meio ambiente, a justiça social e a viabilidade econômica. Ao contrário da abordagem extrativista do turismo convencional, esse modelo busca harmonizar as necessidades das comunidades locais com as experiências dos visitantes e a integridade dos ecossistemas.

Os peixes-boi são mamíferos, e seu parente mais próximo é o elefante./ Foto: Divulgação

Os peixes-boi são mamíferos, e seu parente mais próximo é o elefante./ Foto: Divulgação

Em Fortaleza, experiências práticas desse modelo podem ser observadas na região da Sabiaguaba. A área abriga um complexo de dunas fixas, manguezais, restingas e espécies nativas — todos sob constante ameaça de urbanização e visitação desordenada.

Um estudo publicado em 2003, pelo Instituto de Ciências do Mar (Labomar), da Universidade Federal do Ceará (UFC), apontou níveis elevados de coliformes fecais em trechos da orla durante feriados prolongados, quando o sistema de esgoto urbano é sobrecarregado. Animais marinhos, como tartarugas e aves costeiras, frequentemente ingerem resíduos plásticos, o que causa a morte de dezenas de espécimes por ano.

Além disso, trilhas clandestinas abertas nas dunas e construções irregulares pressionam ecossistemas frágeis. Áreas como o manguezal do Rio Cocó e as dunas da Sabiaguaba acumulam danos silenciosos, muitas vezes invisíveis para os visitantes. “A subida desordenada às dunas precisa ser controlada. Não se trata de proibir, mas de orientar, educar, cuidar”, reforça Tamara.

Turismo de base comunitária

Nesse contexto, experiências de turismo de base comunitária vêm sendo implementadas como alternativa viável. A região da Sabiaguaba tornou-se um laboratório de práticas sustentáveis e de inclusão social. A agência Viagem com TC, fundada por Tamara Colares, é uma dessas iniciativas. Com atuação desde 2019, a empresa desenvolve roteiros voltados principalmente para mulheres, com foco na segurança, empoderamento e impacto positivo.

Com base em três eixos — sustentabilidade, inclusão e fortalecimento comunitário — , a agência atua de forma integrada com os moradores. Guias nativos, hospedagens locais, trilhas educativas e vivências culturais compõem uma metodologia pensada para gerar renda local, respeitar o ambiente e ampliar o acesso a experiências turísticas inclusivas.

Sabiaguaba e suas belezas/ Foto: Nilton Alves

Sabiaguaba e suas belezas/ Foto: Nilton Alves

“A sustentabilidade é pensada desde o guia, que precisa ser nativo, até a pousada, que deve pertencer a alguém local. Sempre valorizando a cultura e o profissional da região”, explica Tamara.

Na mesma linha, em Fortaleza, o Museu Vivo transforma trilhas ecológicas em experiências educativas. Guias locais compartilham saberes sobre o ecossistema da região, como o impacto nas dunas e a importância da preservação ambiental. Esses percursos revelam uma conexão profunda entre natureza e cultura tradicional.

Trilha da Mata às Dunas com os trilheiros nativos Papito Sol e Lucas Tavares. (Foto: Viagem com TC/Divulgação)

Trilha da Mata às Dunas com os trilheiros nativos Papito Sol e Lucas Tavares. (Foto: Viagem com TC/Divulgação)

Um exemplo é a trilha “Histórias e Sabores”, conduzida por Roniele Suíra, morador da comunidade da Boca da Barra. Durante o trajeto, ele narra a história dos povos suíras — descendentes dos povos originários da Sabiaguaba — e apresenta práticas tradicionais de pesca e mariscagem. A trilha também inclui vivências gastronômicas e relatos sobre a luta contra a especulação imobiliária.

Além de guia, Roniell é ativista e defensor do território e das tradições locais. O Museu Vivo valoriza o conhecimento ancestral, dá voz às comunidades e promove a educação ambiental por meio da vivência direta.

Desde 2023, a agência passou a investir também em roteiros adaptados. Pessoas com deficiência visual, neurodivergentes, cadeirantes e crianças com mobilidade reduzida passaram a integrar atividades como trilhas sensoriais e oficinas de educação ambiental. “Não é só para pessoas neurodivergentes. É inclusão no sentido amplo: para todos”, afirma.

Governança e parcerias

O turismo sustentável só se consolida quando há governança compartilhada. Isso significa envolvimento de comunidades, setor público, instituições de pesquisa e empreendimentos locais. Em Sabiaguaba, esse arranjo começa a tomar forma. O projeto “Sabiaguaba Encantada”, liderado pela Viagem com TC, com apoio do Instituto Dragão do Mar (IDM), busca articular essas pontas para transformar a região em referência de turismo ecológico e inclusivo.

O projeto investe em capacitação de guias locais, eventos integrados de gastronomia e artesanato, esportes de baixo impacto e práticas educativas. É o caso de Lucas Tavares, estudante de Biologia pela Universidade Estadual do Ceará (Uece), e morador da comunidade, que hoje se capacita como guia ambiental.

Lucas Tavares: Jovem nativo da Sabiaguaba, estudante de biologia./ Foto: Mapa Cultural do Ceará

Lucas Tavares: Jovem nativo da Sabiaguaba, estudante de biologia./ Foto: Mapa Cultural do Ceará

Lucas atua há 10 anos na fotografia de animais silvestres no Ceará. Suas imagens ajudam a divulgar a fauna nativa e também servem como base para estudos sobre comportamento, distribuição das espécies e saúde dos ecossistemas.

Além disso, Lucas realiza trilhas ecológicas gratuitas com crianças da comunidade da Sabiaguaba. A iniciativa busca despertar, desde cedo, o interesse pela natureza e promover a educação ambiental de forma prática e envolvente.

O que ainda falta?

Apesar dos avanços, os desafios são evidentes. A cidade ainda carece de infraestrutura adequada para suportar um modelo de turismo sustentável em larga escala. Bairros como a Sabiaguaba não possuem linhas regulares de ônibus, sinalização turística ou transporte por aplicativo de forma confiável. A ausência de controle público sobre a especulação fundiária agrava o risco de expulsão das populações tradicionais.

Planetário Rubens de Azevedo, no Dragão do Mar./ Foto: Divulgação

Planetário Rubens de Azevedo, no Dragão do Mar./ Foto: Divulgação

Também falta engajamento mais amplo do setor privado. Como o turismo sustentável não oferece retornos financeiros imediatos, muitas empresas ainda optam por modelos convencionais, o que dificulta a construção de redes amplas e cooperativas.

“Muitas empresas não apostam no turismo sustentável porque o retorno não é imediato. Mas o que sustenta o turismo, a longo prazo, é a comunidade, o território e o cuidado”, destaca Tamara.

@SabiaguabaEncantada: um projeto nascido do amor pela natureza e da memória de minha mãe, Maria Norma. Um legado afetivo que vive através da arte, da comunidade e das trilhas mágicas. (Foto: Divulgação/Viagem com TC)

@SabiaguabaEncantada: um projeto nascido do amor pela natureza e da memória de minha mãe, Maria Norma. Um legado afetivo que vive através da arte, da comunidade e das trilhas mágicas. (Foto: Divulgação/Viagem com TC)

Educação e conscientização

A mudança de paradigma também depende de outro fator muitas vezes negligenciado: a consciência do visitante. A educação ambiental, conduzida por guias locais, tem sido ferramenta eficaz em Sabiaguaba. Trilhas guiadas por moradores transformam o passeio em aula, o que gera uma conexão mais profunda com o território.

Para onde vamos?

O turismo sustentável no Brasil caminha lentamente, mas caminha. Experiências como a da Sabiaguaba indicam que é possível alinhar desenvolvimento econômico, justiça social e conservação ambiental. O caminho passa por planejamento urbano integrado, proteção fundiária, apoio à economia solidária e políticas públicas que reconheçam o turismo como vetor de transformação.

“O turismo é fundamental para o progresso de uma região, mas ele precisa caminhar com a governança. Não pode ultrapassar o socialmente justo”, destaca Tamara.

Trilha da Mata às Dunas em Sabiaguaba com Roniele Suíra. (Foto: Viagem com TC/Divulgação)

Trilha da Mata às Dunas em Sabiaguaba com Roniele Suíra. (Foto: Viagem com TC/Divulgação)

Ao fim, a pergunta central permanece: quem se beneficia do turismo? A resposta a essa pergunta determinará se o turismo continuará sendo um vetor de concentração de renda e degradação ambiental — ou se poderá se transformar, de fato, em ferramenta de justiça e permanência.

Projeto Integrador em Jornalismo Ambiental, Universidade de Fortaleza (Unifor). Professora orientadora: Maristela Crispim. Repórteres: Taís Alcântara, Victor Marvyo e Yasmin Boyadjian.


메타데이터
post_id
bd64984c8c93
slug
turismo-sustentável-na-sabiaguaba-um-novo-caminho-para-fortaleza-bd64984c8c93
url
https://medium.com/@victormarvyo/turismo-sustent%C3%A1vel-na-sabiaguaba-um-novo-caminho-para-fortaleza-bd64984c8c93
canonical_url
https://medium.com/@victormarvyo/turismo-sustent%C3%A1vel-na-sabiaguaba-um-novo-caminho-para-fortaleza-bd64984c8c93
author_url
https://medium.com/@victormarvyo
status
ok
fetched_at
2026-06-24 18:57:25