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Contar o Nordeste não é para estranhos!

Após décadas soterrado pela visão sudestina, o cinema nordestino brota e luta por formação profissional nos interiores.

Valentin Bezerra · 2025-05-17 21:43 · 0 claps · 4.0 min read
#ufca #cinema #audiovisual #abaixo-assinado #jornalismo
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Contar o Nordeste não é para estranhos!

Após décadas soterrado pela visão sudestina, o cinema nordestino brota e luta por formação profissional nos interiores.

Por Valentin Bezerra

As primeiras gravações em vídeo foram feitas no final do século XIX, tendo como pioneiros os irmãos Lumière. A qualidade de captação era bem inferior, se comparada às gravações em alta resolução dos dias atuais. Nesses primeiros anos, as filmagens mostram a rotina das cidades, os trabalhos das realezas que dominavam o mundo, os afazeres domésticos de pessoas. Em síntese: o cotidiano (aquela mesma matéria-prima constitutiva das notícias que surgiram com o jornalismo moderno).

Na última década, com o avanço da inteligência artificial, as primeiras gravações dos irmãos Lumière foram remasterizadas, podendo ser vistas em melhor qualidade. Foto: Reprodução.

Na última década, com o avanço da inteligência artificial, as primeiras gravações dos irmãos Lumière foram remasterizadas, podendo ser vistas em melhor qualidade. Foto: Reprodução.

Por exemplo, uma fonte para a criação de um filme pode ser a observação de problemáticas no dia a dia, ou de ideias propagadas. A partir daí, surge a inspiração para a produção, roteirização e idealização de um filme. Surgem as histórias contadas pelos seus personagens, pela singularidade de cada experiência, de cada povo, com suas memórias, culturas, tradições e projetos para o futuro.

Desde o último século, a região Nordeste tem sido erroneamente — e quando há alguém que procura subverter essa ideia, é rapidamente apagada — representada como um local seco, onde uma grande parcela da população sofre com a fome e com pestes. Essa ideia é trabalhada por Durval Muniz em “A invenção do Nordeste e outras artes”, falando dos estereótipos sobre o Nordeste, mostrando como a região foi criada mais como uma ideia cultural e política baseada na visão sudestina e sulista.

‘No Rancho Fundo’, novela das 18h da Globo exibida em 2024, reforça estereótipos e mostra a visão distorcida do Nordeste pelo eixo Rio-São Paulo. Foto: João Cotta, TV Globo, Divulgação.

‘No Rancho Fundo’, novela das 18h da Globo exibida em 2024, reforça estereótipos e mostra a visão distorcida do Nordeste pelo eixo Rio-São Paulo. Foto: João Cotta, TV Globo, Divulgação.

Entretanto, nos últimos anos, em destaque na região do Cariri cearense, observamos a ascensão de produções que mostram a realidade, as culturas e os saberes da nossa região, retomando um processo de resistência aos muros construídos pela grande mídia. Um dos pioneiros nesse movimento foi o fariasbritense Rosemberg Cariry, importante cineasta, roteirista, documentarista, produtor, poeta e escritor.

Em 1986, ele contou a história do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto. A comunidade buscava uma vida comunitária igualitária, mas, em 1937, sob acusação de comunismo, forças do governo de Vargas bombardearam e massacraram entre 700 e 1.000 pessoas. Rosemberg propõe, assim, um debate sobre liberdade e reforma agrária, ponto importante na região do Cariri cearense que é constantemente silenciado pelas autoridades em Brasília.

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Na Universidade Federal do Cariri (UFCA) é ofertado o curso de Jornalismo. A graduação, com duração de quatro anos, conta com optativas de Documentário, Cinema Brasileiro, Cinema Nordestino e uma disciplina de Laboratório de Audiovisual. São nesses momentos que os estudantes têm a oportunidade de deixar fluir o seu imaginário, percepções e vivências sobre o Cariri cearense. Daí nasceu o documentário “Rotas Perdidas”, dirigido por Sâmia Costa e Ana Jafya, com auxílio de Otávio Pereira.

Denunciando a falta de linhas de ônibus e o isolamento do Residencial Leandro Bezerra, na Vila Três Marias, em Juazeiro do Norte, e, com uma linguagem acessível, empática e depoimentos marcantes de moradores, o produto extrapola a produção de pauta e apuração — procedimentos clássicos do jornalismo — e faz com que os estudantes trabalhem as habilidades de edição de vídeo, tratamento de áudio e direção de arte. E essas são competências que, observando a matriz curricular do curso de Jornalismo, não são aprofundadas e que seriam supridas com um curso de Cinema e Audiovisual.

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A região do Cariri é o lar da Chapada do Araripe, de um povo que guarda suas memórias com carinho. Aqui acontece o “casamento” entre os povos originários, os artesãos que, com suas mãos, bordam, pintam e esculpem peças variadas, os romeiros que vêm de todas as partes do país, venerar o Padre Cícero, a Beata Maria de Araújo e Benigna, brincantes de reisado, bandas cabaçais, poetas e músicos. Mas como documentar organizadamente toda essa rica cultura se não há uma formação direcionada para o cinema na região do Cariri? No interior da região Nordeste, em uma instituição pública, somente a cidade de Cachoeira (BA) possui um curso de Cinema. É preciso trazer essas formações para o interior do país, promovendo a propagação do conhecimento local e das vozes dos moradores dessas regiões silenciadas pelas regiões metropolitanas.

Campus da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), onde se localiza o único curso de Cinema e Audiovisual do interior da região Nordeste. Foto: Alberto Coutinho/AGECOM. Secom Bahia.

Campus da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), onde se localiza o único curso de Cinema e Audiovisual do interior da região Nordeste. Foto: Alberto Coutinho/AGECOM. Secom Bahia.

Por isso, é mais que necessária a criação do curso de Cinema e Audiovisual na Universidade Federal do Cariri (UFCA) e, através dele, promover ações de extensão nos bairros, nas escolas, em praças públicas mostrando que a arte e o cinema não deve ser mantido nas mãos dos ricos, mas deve estar no e com o povo e servir como instrumento de mudança social. Já houve outras tentativas de criação do curso na instituição. Porém, foram sufocadas pelos constantes cortes de gastos promovidos por Brasília sobre as universidades públicas, além da demanda da criação de outros cursos. Mas reforço: negar a criação do curso na região é se vendar, lavar as mãos e consentir com o apagamento da cultura caririense.

Campus de Juazeiro do Norte da Universidade Federal do Cariri (UFCA), onde são ministradas as aulas do curso de Jornalismo. Foto: Divulgação/UFCA.

Campus de Juazeiro do Norte da Universidade Federal do Cariri (UFCA), onde são ministradas as aulas do curso de Jornalismo. Foto: Divulgação/UFCA.

Você pode e deve apoiar essa causa importante assinando o abaixo assinado disponibilizado neste **link**! É preciso provar aos órgãos que sim, há demanda e sobretudo necessidade de formação de cineastas na região do Cariri cearense. E ainda mais. É preciso retratar o Nordeste com base naquilo que vemos e não pelo que pessoas de outros locais imaginam sobre nós. Ficar calado não é opção! Produzir audiovisual é para todos!


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