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Preguiça de fazer uma coisa só…

Existe uma pergunta que me acompanha há muitos anos e que, curiosamente, só agora eu comecei a responder com mais honestidade: e se eu…

Delan Salazar · 2026-05-16 03:00 · 0 claps · 2.6 min read
#carreira #estrategia #marketing #reflexao #publicidade
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Preguiça de fazer uma coisa só…

Existe uma pergunta que me acompanha há muitos anos e que, curiosamente, só agora eu comecei a responder com mais honestidade: e se eu nunca tivesse desejado ser um especialista? Durante muito tempo, ouvi que crescer profissionalmente significava afunilar. Escolher uma única habilidade. Defender um território. Ser “o cara” de alguma coisa muito específica. E eu entendo completamente o valor disso. Especialistas são fundamentais. Mas olhando para a minha trajetória, percebo que ela sempre foi construída no movimento contrário: expandindo repertório, ocupando espaços diferentes e desenvolvendo a capacidade de conectar coisas aparentemente distantes.

Comecei no atendimento e, pouco tempo depois, migrei para a redação. Em seguida, a própria dinâmica das agências foi me empurrando para outras funções. Passei a participar de apresentações, construção de conceito, campanhas, posicionamento, direção criativa, relacionamento com cliente, planejamento e estratégia — muitas vezes antes mesmo de existir um nome sofisticado para isso. Antes de branding virar um cargo desejado no LinkedIn, já existia alguém tentando organizar sentido dentro das marcas. Antes de estratégia virar departamento, já existia alguém aqui tentando entender comportamento, narrativa, repertório, negócio e cultura ao mesmo tempo para fazer uma ideia funcionar de verdade.

Lembro de uma viagem para São Paulo, muitos anos atrás, quando visitei uma grande agência. Durante a apresentação, uma pessoa me mostrou os departamentos de redação: o núcleo que fazia títulos, o núcleo que fazia roteiro, o núcleo institucional, o núcleo de varejo. Em determinado momento, ela perguntou o que eu fazia em Goiânia. E eu respondi quase sem pensar: “Tudo isso”. Na época, aquilo me pareceu apenas uma diferença estrutural entre mercados. Hoje entendo que aquele momento revelou muito sobre a forma como eu aprenderia a trabalhar. Em mercados menos compartimentados, a gente desenvolve uma musculatura mais híbrida. Aprende a pensar e executar ao mesmo tempo. Aprende a improvisar, conectar áreas, assumir responsabilidades e encontrar soluções mesmo quando ainda não existe um processo desenhado para aquilo.

Talvez por isso eu nunca tenha conseguido separar completamente estratégia de execução. Nunca fui o profissional que entrega um direcionamento e desaparece do processo. Se acredito numa ideia, quero entender como ela respira no texto, na campanha, na apresentação, no discurso da marca e até na maneira como as pessoas envolvidas defendem aquilo. Durante muito tempo, ouvi que liderança significava sair do operacional. Mas hoje penso diferente. Existem lideranças que apenas controlam fluxos e existem lideranças que amplificam talentos. Eu me interesso muito mais pela segunda.

Grande parte das coisas mais interessantes que construí profissionalmente nasceram de trocas. De conversas. De gente talentosa dividindo repertório, percepção, sensibilidade e inteligência criativa. Talvez por isso eu tenha desenvolvido uma admiração enorme por profissionais generosos. E quando digo generosidade, não estou falando de gentileza protocolar. Estou falando da disposição de compartilhar pensamento, provocar crescimento coletivo e reconhecer quem construiu junto. Hoje, muitas vezes sinto mais orgulho de citar as pessoas envolvidas num projeto do que de reivindicar autoria isolada sobre uma ideia.

A verdade é que nunca trabalhei pensando apenas em cargo. Trabalhei tentando ampliar possibilidades. Em alguns momentos achei que precisava escolher exatamente quem eu era: redator, criativo, estrategista, atendimento, planejamento. Hoje percebo que talvez eu sempre tenha sido alguém interessado em atravessar territórios diferentes sem abandonar a criação como eixo principal. E isso exige curiosidade. Muita. Porque a curiosidade impede que a gente endureça cedo demais.

Talvez o mercado continue obcecado pela ideia de especialização absoluta. Mas, honestamente, acho que a vida contemporânea exige outra inteligência: a capacidade de conectar repertórios, circular entre áreas, aprender rápido, reorganizar pensamento e continuar expandindo horizonte sem medo de mudar de forma ao longo do caminho.

No fim, acho que nunca quis ser especialista em uma única função. O que eu busquei foi outra coisa: me tornar alguém mais especial…estrategicamente capaz de criar e colaborar com a expansão inteligente em muitos lugares diferentes.


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