Com dois fôlegos tomados, Sir Gregory entrou no quarto.
- O que faz aqui? Achei que iria embora hoje.
Lady e Lord
Com dois fôlegos tomados, Sir Gregory entrou no quarto. As janelas fechadas e a pouca iluminação poderiam ter dado um ar romântico dias atrás, hoje apenas reforçava que a morte rondava aquele ambiente. Suas mãos tremiam e ele teve que fechá-las em punhos para controlar sua dor, seu nervosismo e seu medo. A mulher na cama estava mais pálida do que ele gostaria de admitir. Quando ela percebeu que havia companhia em seu quarto, virou a cabeça em sua direção e lhe deu um sorriso fraco e doloroso.
- O que faz aqui? Achei que iria embora hoje.
Sua voz era forte e quebrada, de alguma forma. Ele se aproximou da cama até conseguir de fato olhar em seus olhos. Tomando outro fôlego ele se ajoelhou ao lado de Lady Alicia.
- Este sou eu. Fraco, perdido, quebrado. Esta é você, linda, forte e ainda inteira. Isso é tudo do qual preciso. – A dor em seu coração era grande demais, mas ele se obrigou a continuar olhando, e ser homem, como seu pai sempre disse. Homem o suficiente para admitir quando seu coração já foi domado – minha fé está abalada, não é possível ter fé quando a mulher que amo está condenada à morte sendo tão jovem. Mas eu ainda acredito. Acredito que possa fazer essa última coisa, o que está ao meu alcance. Eu a amei desde o dia em que pulou no lago para salvar um gato de rua. Você nem sequer hesitou, mesmo que isso a fizesse ficar pior. Eu a amei... – sua voz falhou – eu a amei quando me disse que não tinha mais medo de nada, e sem ter certeza se era correspondida me beijou no meio do jardim. Se puder ficar por mais um tempo, se puder fazer isso por mim... lady Alicia eu gostaria muito que se tornasse minha esposa.
Não havia dor nem tristeza, sem desesperança ou medo em seu olhar. Como a mulher forte e decidida que era, Alicia pegou minha mão e olhou em seus olhos, e ele sentiu o que sempre sentia quando ela o olhava assim, como se pudesse tocar sua alma.
- Seria a honra da minha vida me tornar sua esposa, Sir Gregory.
E ele a beijou. Ali mesmo, em seu quarto, mesmo que não fosse apropriado. Ele mandou o decoro para os infernos e a beijou com tudo o que tinha.
A cerimônia aconteceu em uma semana, com a licença especial que Sir Gregory conseguiu. Não havia convidados além daqueles que os amavam intensamente. Ela parecia tão fraca e frágil, mas seus olhos eram pura alegria. Sir Gregory chorou, para eterno escândalo se sua mãe, e ela limpou suas lágrimas enquanto sorria. Ele lhe disse, na frente de toda sua família e amigos “eu a amarei até que não haja mais mundo. Além disso.” Ela continuou sorrindo e contagiando a todos com sua alegria. A noite de núpcias foi algo que ficaria gravado na mente de Sir Gregory pelos próximos 5 anos. Quando eles já eram um só, ligados pela carne e espírito, enquanto ele se controlava para dar a ela tempo de se adaptar a ele, ela o olhou nos olhos e lhe disse “eu também o amarei até o fim, meu amor”.
Aquela noite, foi a única vez que eles puderam dividir a cama como homem e mulher. As primeiras duas semanas de casados, foram também as duas últimas de Alicia. Como uma forte onda, sua doença levou toda sua vitalidade, ela mal estava consciente na noite de sua morte, o láudano para a dor a tinha dopado. Gregory estava ali, ele não a deixou um só segundo.
- Á-agua.
Sua voz tirou Sir Gregory de seus devaneios. Rapidamente ele lhe deu o que queria e a acomodou em seus braços. Apesar da pouca consciência, ela ainda tinha forças em seu olhar. Ela o encarou.
-
Quero que seja feliz... – quando ele virou o rosto para evitar encará-la, ela segurou seu queixo com força extraordinária – não posso ir sem saber que poderá ser feliz novamente.
-
Então não prometerei nada. Não posso ser feliz sem você. Você está gravada como em pedra no meu coração. Ela lhe deu um irritante sorriso conhecedor, daqueles que dá a impressão de que sabe todos os segredos do universo.
-
Você me deu mais do que ousei sonhar. Sempre acreditei que ninguém devia morrer sem ser amado, sem amar. Ser amada por você foi a minha grande alegria. Quando estiver pronto, poderá se permitir amar novamente. E mesmo que não se permita, não terá escolha, há muito amor em você para que fique tão sozinho. Você não saberá que está apaixonado até que não tenha outra escolha a não ser admitir. Mas não se preocupe, ela saberá.
-
Como pode ter certeza? – perguntou ele irritado. Essa é a última coisa que queria estar falando com sua esposa. Ele não se via amando outra mulher além daquela, não poderia.
-
Porque ser amada por você, e amar você é como respirar depois de passar a vida inteira embaixo da água.
-
Eu só quero abraçá-la agora. Passaram-se alguns minutos, e ele achou que ela havia dormido até que sua voz aqueceu sua alma novamente.
-
Eu não vou a lugar nenhum. A morte não é suficiente para me afastar de você.
Ele gostaria imensamente acreditar nisso, mas horas mais tarde quando sentiu o último suspiro dela, e soube que sua alma não estava mais no quarto, quando seu coração rompeu de forma tão dolorosa que ele achou – e desejou – que morreria junto a ela, ele soube que era mentira. A morte a levou embora, a tirou dele e o deixou vazio. Não havia percebido que estava chorando tão alto, nem percebeu quando os criados, a mãe de Alicia e o irmão dela apareceram no quarto. Enquanto a sacudia e chamava seu nome sem parar, todos assistiam com lágrimas nos olhos, tanto por Alicia, quanto por Gregory. E ele apenas continuou...
Alicia Alicia Alicia Alicia Alicia Alicia Alicia ...
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