A voz e a vez das Herdeiras do Samba
As filhas de Zé Kéti, Casquinha, Mauro Duarte, Paulinho da Viola e Candeia e se unem para celebrar e a obra, a amizade e a memória dos pais
A voz e a vez das Herdeiras do Samba
As filhas de Zé Kéti, Casquinha, Mauro Duarte, Paulinho da Viola e Candeia e se unem para celebrar e a obra, a amizade e a memória dos pais

Herdeiras do Samba, em 14/07/2018, no Museu do Samba
Por Leandro Resende, Gabriel Sabóia e Douglas Lemos Fotos: Lucas Dumphreys
Sentada sobre um sofá vermelho no Museu do Samba, localizado aos pés do Morro da Mangueira, Eliane Duarte, de voz mansa e elegante, fez uma sugestão. “ Há uma música de meu pai, em parceria com Paulo César Pinheiro, que seria excelente para começar as nossas apresentações”. Rever os mais belos sambas da nossa história, recordar os compositores que morreram sem glória, resgatar e dar valor a arte popular, são alguns dos ensinamentos da canção — e que vão de encontro a proposta das Herdeiras do Samba. O grupo, formado por cinco mulheres se apresenta neste sábado (21) na quadra da Portela, durante uma homenagem a Clementina de Jesus.
Pela ordem da foto que abre este texto, eis as Herdeiras: Geisa Kéti, Mônica Trepte, Eliane Duarte, Eliane Faria, e Selma Candeia. São, respectivamente, filhas de Zé Kéti, Casquinha, Mauro Duarte, Paulinho da Viola e Candeia. Se os pais delas ou se conheceram na Portela, ou foram parceiros de festa, caneta e copo, ou tudo isso, elas, por outro lado, demoraram a caminhar juntas. O grupo é resultado de uma semente plantada na cabeça de Geisa, há alguns anos, quando Ataulpho Alves Jr. (morto em outubro passado) a convidou para um show que levaria o nome “Os Herdeiros”. Passaram-se alguns anos até que Selma Candeia sugerisse: “e se a gente se juntasse?”.

Geisa Kéti, filha de Zé Kéti
“A ideia foi sendo mentalizada e construída dentro da minha cabeça, até que no final de 2015, 2016, Selma me disse que um outro projeto dela tinha acabado. Era a nossa hora”, afirma Geisa, que uniu as outras quatro em torno de um grande “toque de reunir” das tradições que viram os pais construírem, aprenderem e guardarem. Afilhada de Nelson Cavaquinho, Geisa ressalta, sempre, que a roda das Herdeiras primará pelo que chama de “costumes ancestrais” do samba. E faz um destaque importante: não se trata de um grupo de cinco cantoras. Dentre elas, apenas Eliane Faria, que recentemente celebrou 25 anos de carreira, e Mônica Trepte são cantoras profissionais. As outras, como diz Selma, estão ali para “ajudar no coro”. “Não é somos um grupo de cantoras, não somos todas ‘Alciones”, brinca Geisa. “A nossa reunião foi em torno da força dos nossos pais, para mostrar para as novas gerações. De que forma? Estamos construindo, estudando…”, relata.
Nas apresentações das Herdeiras certamente não faltarão histórias como as que conta Eliane Faria. Mais que filha de Paulinho da Viola, ela é, também, neta de César Faria, icônico violonista, sobrinha de Anescarzinho do Salgueiro, afilhada de Mauro Duarte e filha de Alcinéa Pereira, passista da Academia do Samba. Essa estrelada árvore genealógica fez Nelson Sargento rebatizá-la de “a verdadeira filha do samba”, relembra Eliane. Entrar para o grupo, segundo ela, é uma forma de contar a versão delas sobre os fatos. “O samba tem muitos acadêmicos, muita gente querendo falar por nós. Mas nós vivemos a história. Então, a intenção é mais que cantar samba, cantar os nossos pais. Queremos mostrar qual é a nossa essência”, pontua.

Eliane Faria, filha de Paulinho da Viola
Se o repertório está sendo montado aos poucos, uma coisa já está certa e as Herdeiras não abrem mão: uma das principais motivações da roda é contar ao público quais são os verdadeiros compositores das canções. Eliane Duarte lembra de uma história emblemática nesse sentido, que ocorreu na primeira apresentação em público das Herdeiras, há pouco mais de um mês. “Cantei ‘Lama’, e um senhor veio pra mim dizer que a música era do Nelson Cavaquinho. Neguei, disse que era do meu pai, Mauro Duarte. Ele não acreditou, disse que tinha aprendido que era do Nelson Cavaquinho”, lamenta. Selma Candeia recorda que ‘Preciso Me Encontrar’, escrita por seu pai, frequentemente é atribuída ao mestre Cartola. “Até o Fantástico colocou que a música não era do meu pai!”, relembra.

Eliane Duarte, filha de Mauro Duarte
Hoje são cinco, mas elas fazem questão de lembrar que não são as únicas herdeiras. Geisa Kéti enfatiza, por exemplo, o papel que Nilcemar Nogueira, neta de Cartola, teve em sua vida. “Ela colocou eu e Selma, cada uma em um lugar, para militar pela cultura e pelo samba”, afirma, em lembrança ao período em que elas foram dos Conselhos Estadual e Municipal de Cultura. Além disso, elas pretendem, aos poucos e à medida em que as apresentações do grupo começarem a ser feitas de forma mais sistemática, chamar outros netos, netas, filhos e filhas de sambistas históricos. “Temos muitas rodas de samba na cidade, e várias perderam um pouco do sentimento, do comprometimento. Queremos tentar recuperar um pouco da união dentro da história do samba, que marcou o gênero”, resume Geisa Kéti.
Amizade, aliás, é palavra fundamental na história dos cinco pais ilustres. Casquinha, prestes a completar 96 anos, vez por outra pede para filha Mônica Trepte “preparar seu terno”. “Vou para Portelinha encontrar Candeia e Waldir 59”, sonha o velho bamba. Mônica, uma das herdeiras, é quem tem a responsabilidade de tomar conta do pai, em Bangu, onde vivem. Apesar da locomoção limitada, o ‘Center-Half’ da Portela ainda apronta das suas, canta sambas antigos e até inéditos. Fatos que fazem sua filha se queixar do descaso com que a obra do pai é tratada. “Ano passado o samba foi 100 anos e não lembraram do meu pai. Vi na Internet, há um tempo, um comentário de pessoas achando que ele estava morto”, lamenta a Herdeira, que agradece às homenagens recentes feitas a seu pai por coletivos de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo. Mas ainda assim, Selma faz coro e acha que o legado do parceiro de seu pai está silenciado: “poucas rodas de samba do Rio cantam as canções de Casquinha”.

Mônica Trepte, filha de Casquinha
As lembranças de um passado compartilhado, mesmo que não diretamente, se avolumam. Todas, por exemplo, se recordam da dificuldade que foi para convencer os pais de que elas, como meninas e mulheres jovens, poderiam participar das rodas de samba e dos shows. “Meu pai me afastava de tudo”, resume Eliane Duarte, antes de pontuar que hoje as mulheres estão procurando mais espaço. Diante delas, na conversa realizada no último sábado (14), uma parede do Museu do Samba traz as fotos de diversas mulheres que fizeram história na cultura popular: D. Ivone Lara, Lygia Santos, Tia Surica… “Tem mulher na história do samba sim, uma grande força feminina!”, afirma Eliane Faria, enquanto olha para as fotos e fala sobre o novo papel feminino nas rodas.

Selma Candeia, filha de Candeia
Antes de morrer, Candeia pediu para filha, Selma, que “começasse a tomar conta” das “coisas” que fez. O legado da arte negra, que ele tanto prezou em vida, não poderia se perder após sua morte. “Imagina se ele visse que muitos dos parceiros dele, hoje em dia, são pouco citados?”, indaga.
Em tempos tão confusos e difíceis para história brasileira, qualquer lembrança sobre seus verdadeiros heróis se tornam presentes para quem se importa com a cultura. Vem aí as Herdeiras, para rebater pré-conceitos, falar em memória, ancestralidade e território. Está nas mãos delas, também, a defesa de um legado fundamental para quem ainda crê no samba como agente transformador das realidades. Que seja como Candeia ensinou: um canto com os pés no chão, com o coração, protagonizado por pandeiro e tamborim.

As Herdeiras do Samba e Nilcemar Nogueira, neta de Cartola
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