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Eu realmente gostaria de ser burro

O poeta britânico Thomas Gray em Ode em um Prospecto Distante do Eton College cunhou uma das minhas frases favoritas:

Daniel Bragança · 2021-06-29 20:12 · 1 claps · 9.7 min read
#terra-plana #terapia-quântica #conhecimento #dissertação #deepak-chopra
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Eu realmente gostaria de ser burro

O poeta britânico Thomas Gray em Ode em um Prospecto Distante do Eton College cunhou uma das minhas frases favoritas:

“Ignorance is bliss”

Ou, na nossa amada língua portuguesa: “A ignorância é uma bênção”.

Em muitas coisas sou agraciado com tal bênção e realmente prefiro me manter ignorante. Porém, em várias outras eu sou amaldiçoado pelo conhecimento, adquirido através de anos de incansável leitura e insaciável curiosidade. E esse conhecimento dói.

Sim, esse é um daqueles textos irracionalmente paradoxais em que eu reclamo de um problema que muitas pessoas gostariam de encarar. Então, como diria o grandíssimo Alcemar:

“Te agarra que vai doer.”

Alcemar

Alcemar: grande mestre da reclamação irracional

Alcemar: grande mestre da reclamação irracional

Um exemplo que eu sempre uso pra explicar o mundo do século XXI é o exemplo da violência. Há quem diga que nós estamos no período mais violento da história, como se o ser humano nunca tivesse sido tão cruel. Parece que esqueceram das aulas de história que contavam sobre o império Assírio, que arrancava os olhos e a língua de seus prisioneiros de guerra e aqueles que fossem julgados como inaptos ao trabalho escravo eram torturados de diversas maneiras até a morte. A questão do século XXI é que agora muita gente tem um celular no bolso e acesso à internet e podem filmar cenas crueis e horríveis e divulgar para o mundo todo ver o quanto o ser humano é capaz de ser simplesmente mau.

A violência não cresceu. Muito menos diminuiu. Só passou a ser amplamente divulgada.

Mas infelizmente não é só a violência que passou a ser amplamente divulgada mundo afora.

Já há alguns anos que ouço falar sobre a teoria da Terra plana, um movimento que diz que, tanto biblicamente quanto cientificamente, a Terra não é esférica, mas é um disco plano circundado por uma parede de gelo e coberta por um domo. O Sol e a Lua estariam abaixo dessa cúpula girando sobre a superfície da Terra, os outros planetas estariam além do Sol, galáxias e outras estrelas seriam fixas no “firmamento”… Enfim. Um modelo que literalmente ignora todas as descobertas da física, da química, da geologia e de tudo o que já foi estudado, testado e comprovado cientificamente.

E eu acho incrível como as pessoas são capazes de buscar argumentos pra defender aquilo que elas acreditam, por mais que não faça sentido. Eu, apesar de extremamente cético com muita coisa, sou cristão e isso vem da fé, que não tem explicação. Mas não dá pra simplesmente ter fé que a Terra é um frisbee estático apoiado nas costas de quatro elefantes em cima de uma tartaruga chamada Pedro que flutua pelo espaço.

Pedro, a tartaruga espacial voadora que aparentemente é um conceito menos improvável do que o de um planeta esférico.

Pedro, a tartaruga espacial voadora que aparentemente é um conceito menos improvável do que o de um planeta esférico.

O espetáculo lógico dos defensores desta teoria é um balé incrivelmente bem orquestrado, contendo websites de procedência duvidosa, fotos em baixíssima resolução, mapas, explicações estranhas, cálculos confusos, canais do YouTube gravados em quartos escuros, enfim. Todo tipo de coisa que faria qualquer pessoa normal duvidar das evidências apresentadas é justamente o que parece impressionar os teóricos da Terra Plana.

Um dos argumentos mais incríveis deles é o questionamento de como a água não cai de um planeta esférico. Segundo eles, a água deveria cair da parte “de baixo” da esfera, como se a gravidade atuasse sempre “para baixo” no espaço, onde as coisas seriam forçadas em direção a um abismo infinito, e não em direção ao centro do planeta, como nós mesmos sabemos. A argumentação é tão incrível que a prova dessa teoria é o cidadão jogar água em um modelo do globo terrestre e provar que ela escorre e cai a partir da parte de baixo do globo, significando que “se a Terra fosse realmente uma esfera, toda a água escorreria a partir dos pólos”.

Claro que isso é bem mais simples de se compreender do que toda a teoria da relatividade geral, que, em resumo, trata da distorção do espaço-tempo gerada pela matéria que causa a existência da gravitação e todos aqueles cálculos e experimentos complicados de se fazer e mais ainda de se reproduzir que inferem esta regra. E isso é, inclusive, um dos contra-argumentos utilizados pelos terraplanistas. Segundo eles, os cálculos da física teórica quântica são propositalmente complicados a fim de que a grande massa não “veja a verdade de que a Terra é plana, que a Nasa é uma farsa e que nós somos manipulados desde pequenos a acreditar em uma mentira globalista que, de alguma forma, favoreceria a elite mundial”. De acordo com essa gurizada, isso tudo serviria para trazer lucro a essa elite.

Do meu ponto de vista, não é uma maneira muito inteligente tentar buscar lucro ao gastar bilhões de dólares em pesquisas, farsas de foguetes e satélites. A conta não bate e existem formas mais simples de se obter lucros altíssimos.

Em Admirável Mundo Novo, por exemplo, Aldous Huxley nos ensina que o melhor método de obter lucro infinito é controlar a população com drogas. Muito mais fácil do que um esquema ultra elaborado de lavagem cerebral que custa bilhões de dólares por ano a diversos países ao redor do mundo (seja ele plano ou esférico) pra manipular a população do mundo e de alguma forma ganhar dinheiro com isso.

Drogas são mais baratas e funcionam melhor pra controlar a população.

Para os cientistas da Terra Plana, esta foto, tirada do quintal de um fã de astronomia na Inglaterra, é uma farsa. A Estação Espacial Internacional não é real e as agências espaciais são apenas empresas que manipulam a população ao redor do mundo.

Para os cientistas da Terra Plana, esta foto, tirada do quintal de um fã de astronomia na Inglaterra, é uma farsa. A Estação Espacial Internacional não é real e as agências espaciais são apenas empresas que manipulam a população ao redor do mundo.

O século XXI não criou esses grupos. A internet não criou esses grupos. O avanço da tecnologia apenas permitiu que diversos ignorantes ao redor do mundo se encontrassem e criassem um grande esquema de imbecilização em massa.

Assim como a violência, a ignorância não aumentou. Só passou a ser amplamente divulgada.

O exemplo dos terraplanistas é só um em meio a um mar de pseudociências e pesquisas com olhares duvidosos que não servem a nenhum propósito a não ser criar argumentações inúteis sobre questões que já foram resolvidas no passado. Mas para uma certa espécie de viciados em leitura, da qual eu sou um exemplar bastante característico, buscar contrapontos e argumentos contra pseudociências se tornou um verdadeiro esporte. Um esporte onde a gente ganha literalmente nada. Na verdade só perde tempo… Muito tempo.

Mas um esporte maravilhoso.

Há de se observar que pseudociências não incluem religiões. O conceito de religião é, por si só, avesso à ciência. É a aceitação da irracionalidade através da fé. É possível ser religioso e cientista? Sim. Mas isso é assunto para outra verborragia que será (ou não) feita em outro momento. Só quero salientar isso pra já responder questionamentos inesgotáveis de “ah, mas a Bíblia…” ou “mas e a religião XPTO?”

Mas por vezes as pessoas misturam coisas que não devem ser misturadas.

Me lembro da primeira vez que li o termo Terapia Quântica. A primeira coisa que eu pensei foi o óbvio: — Tem uma galera se bombardeando com nêutrons e chamando isso de terapia?

No fim das contas, a tal Terapia Quântica é uma mistureba incrível de astrologia, mediunidade, terapias alternativas, religiões orientais, misticismo clássico e até ufologia, onde a única coisa “quântica” que isso tudo envolve é o nome “Quântica” que atribuíram à terapia.

Se a salada ecumênica (alguns terapeutas quânticos misturam até o cristianismo na história) já me incomoda, imagine atribuir o nome “Física quântica” a essa gigantesca badalhoca mística.

A palavra quântico, da qual descende a expressão Mecânica Quântica, que é o campo da física que estuda os fenômenos da matéria e da energia a nível subatômico no universo, veio das descobertas de Erwin Schrödinger sobre o movimento dos elétrons (aquela história do gato entra aí), que seria quantizado, que quer dizer que não pode ser definido pontualmente, mas apenas discretamente, ou seja: Quanticamente. Quântico significa, simplesmente, Discreto.

Porém…

“Segundo José Roberto Marques, a palavra “quântico” vem de quantidade e se refere ao fato de que todos os seres humanos são formados por energia e conectados uns aos outros por meio dela. Quando um indivíduo se torna consciente em relação a essa grandeza, descobre o fantástico poder que possui dentro de si para se curar e se desenvolver. Dentro desse contexto, a terapia quântica atua como um processo holístico que busca alinhar corpo, mente e espírito, através do autoconhecimento e autoconsciência.”

Dalila Barakat, do site Mil e Uma Viagens

A escritora do texto discorre sobre a Terapia Quântica e seus princípios básicos, atribuindo à técnica também o nome Terapia Vibracional e usando de uma frase, erroneamente atribuída a Thomas Edison: “Ciência sem Espiritualidade é falta de Conhecimento, Espiritualidade sem Ciência é Fanatismo”. Outros autores também atribuem a mesma frase a outros cientistas importantes, como Albert Einstein ou Neils Bohr (fonte: pesquisei a frase), porém todas no mesmo contexto da Terapia Quântica.

Às vezes, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, como disse Vanderlei Luxemburgo.

Voltando ao texto da escritora do site:

(Nós,) os terapeutas holisticos nos concentramos nas causas das doenças, e não apenas nos seus sintomas. São elas, por exemplo: Acupuntura, ThetaHealing, Reiki, Iridologia, Yoga, Reflexologia, Florais, Aromaterapia, Cromoterapia, Musicoterapia, Dançaterapia, entre outros.

Sim, esse negócio é da galera que diz “gratidão” em vez de “obrigado”.

Em resumo, Terapia Quântica seria uma forma de canalizar energias da mente, do corpo e da natureza a fim de promover cura, seja ela física, mental, espiritual, emocional ou energética, transformando um termo antes usado apenas em ambientes acadêmicos e científicos em um picadinho holístico e sistêmico de badalhoca esotérica que a própria autora afirma que não é esotérica, mas trata de chakras, poder da mente, energia, vibração e outros termos da galera que aplaude o pôr do Sol.

Algumas correntes, incluindo a própria autora do Mil e Uma Viagens, abordam também Constelações Familiares, ou Constelações Sistêmicas, que é uma espécie de terapia de grupo, desenvolvida por um cara chamado Bert Hellinger, bastante controversa, que envolve alguns absurdos em relação a traumas e abusos e que merece um texto inteiro apenas voltado a isso.

O ThetaHealing, outra forma de “cura” controversa utilizada pela Terapia Quântica, também é amplamente aplicado, simbolizando uma espécie de “cura da alma”.

“Essa técnica permite identificar e transformar crenças, padrões e sentimentos limitantes armazenados no subconsciente. E esses padrões dificultam a vida em vários aspectos, como finanças, amor, autoimagem, saúde, trabalho, entre outros. Por meio de ferramentas simples, o praticante consegue acessar conteúdos inconscientes para curar feridas profundas, como traumas, abusos, separações, raivas, rancores ou ressentimentos. Acessamos memórias passadas, sem a necessidade de vivenciá-las novamente, a fim de entender a raiz e ressignificar como encaramos hoje esses fatos através do entendimento e aprendizado deles.”

Basicamente, uma regressão tunada, utilizando-se de princípios de hipnose para curar as pessoas de seus males… Financeiros?

A pergunta que fica é:

O que tem de Quântico nisso?

O termo Terapia Quântica vem do livro Cura Quântica, de Deepak Chopra, publicado em 1989. De acordo com Chopra, da mesma forma que a física quântica explica fenômenos físicos ocultos a nível sub-atômico, a terapia quântica trataria de doenças do corpo e da mente em um nível profundo, invisível, não-manifestado e energético. Daí o uso de termos como “energia”, “vibração” e etc. Chopra é o criador da meditação transcendental e utiliza princípios do Ayurveda, um antigo sistema indiano que compreende saúde como “equilíbrio energético entre corpo, espírito e mente”.

“Se medicina antiga fosse eficiente, a expectativa de vida milênios atrás seria maior do que o que é hoje. Não seria de míseros 30 anos. Era 80 pra mais.”

Daniel Bragança, alguma mesa de boteco, 2016

O que me incomoda em tudo isso são as explicações. Certa vez eu li uma explicação sobre astrologia que citava interações gravitacionais das constelações zodiacais com a Terra, como se elas fossem realmente tão importantes que seriam capazes de influenciar no nascimento das pessoas e a partir daí se originariam os signos zodiacais (fonte: alguma pessoa muito crente em horóscopo comentando uma piada sobre signo no Facebook), enquanto se passou mais de um século da proposição da existência das ondas gravitacionais por Henri Poincaré, em 1905, à sua observação prática em 2015, pelo Observatório de Ondas Gravitacionais por Interferômetro Laser, nos Estados Unidos. De fato, a ciência ainda não compreende tudo sobre a gravidade. Mais se sente seus efeitos do que de fato se compreende sua natureza, porém, é uma das quatro forças fundamentais do Universo.

A falta de compreensão e explicação sempre abre pretexto para a criação de teorias malucas sobre os mais variados temas. Teorias como a da Terra Plana, da Terra Oca ou da Cura Quântica pouco se baseiam em métodos científicos, mas em empirismo básico e nas mais variadas formas de esoterismo, religiosas ou não. E todas elas buscam explorar a ignorância e a preguiça mental do público de massa para ganhar notoriedade ou métodos de trabalho de menor esforço, mais baseados em fé cega do que em ciência.

A Cura Quântica, por exemplo, explora a ignorância da massa em relação a termos científicos bastante específicos a fim de utilizar métodos de terapia alternativos antes desacreditados como se fossem terapias válidas e cientificamente comprovadas, cobrando caro por elas e trazendo uma falsa sensação de paz ao coração de pessoas muitas vezes afligidas por doenças reais.

Placebos bastante sofisticados, em resumo.

As teorias de Terra Plana, Terra Oca, Terra em Formato De Croquete De Queijo e etc, se valem da ignorância do público geral em relação a modelos físicos e teorias complexas para ganharem notoriedade com puro empirismo primitivo, tendo enfim seus 15 minutos de fama na TV ou no YouTube.

“Ora, se eu não entendo algo, não quer dizer que eu seja um ignorante. Quer dizer que a teoria está errada e que o certo é o que eu vejo da forma como eu assisti no YouTube ontem.”

Resumo dos argumentos de qualquer terraplanista.

E eu? Bom… Eu sou amaldiçoado pela curiosidade e pelo conhecimento que advém da saciedade desta coceira mental que me aflige toda vez que vejo algo que não conheço. Praguejado pela compreensão dos cálculos complexos e aparentemente ininteligíveis da matemática avançada, da física teórica, da mecânica quântica. Afligido por todas as letras que li e que de alguma forma gravei em todos esses 23 anos de leitura assídua que, desde cedo, envolvem livros sobre o universo, a natureza, tudo isso.

Ver pessoas defendendo as teses de Deepak Chopra e de movimentos como o dos terraplanistas me dói na alma, nos olhos e, principalmente, no Hipocampo.

Às vezes eu só quero acreditar. Às vezes eu só quero ser mais um. Às vezes eu quero ser burro.


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