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Pluribus: Você é mais do que suas experiências? Individualidade, Criatividade e (In)Felicidade

A humanidade está na interpretação singular das experiências?

Guilherme · 2026-02-18 00:33 · 0 claps · 12.1 min read
#plur1bus #pluribus #inteligencia-artificial #individualidade #criatividade
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Pluribus: Você é mais do que suas experiências? Individualidade, Criatividade e (In)Felicidade

Olá, simpático leitor da internet. Recentemente fui assistir com um amigo (salve Dudu!), a nova série do momento: Pluribus, do Vince Gilligan. E fiquei com vontade de comentar sobre alguns pontos da série.

Vou me permitir extrapolar um pouco a série para comentar especificamente duas coisas:

  • Somos a soma das nossas experiências?
  • Homogeneidade significa a morte da criatividade? Dá para ser feliz sem ter identidade?

Então fica o aviso, TEM SPOILERS

Quando eu era pivete e mais alheio à vida, pedi um jogo de PlayStation 2 emprestado. Tenho certeza de que era um jogo da Era do Gelo. Agora a memória me falha se era The Meltdown ou Dawn of the Dinosaurs. Tenho a impressão de que era o dos dinossauros.

Procurar essa foto para exemplificar me fez assistir meia hora de gameplay para confirmar, e eu acho que joguei ambos, mas zerei esse.

Procurar essa foto para exemplificar me fez assistir meia hora de gameplay para confirmar, e eu acho que joguei ambos, mas zerei esse.

Criança é meio merda para cuidar de coisa, então lembro que acabei perdendo a capa do jogo. Quando chegou o dia de devolver, tomei um esculacho da minha mãe por ser irresponsável, e ela me fez ir pedir desculpas para os meus primos. Fui me cagando de medo.

Eles realmente não se importaram e honestamente esqueceram do jogo imediatamente. Depois a gente foi jogar o jogo do Bob Esponja de PlayStation 2.

Esse tenho certeza de que era o SpongeBob Movie Game, pois uma das memórias mais vívidas que tenho da infância é de me frustrar com essa banheira do caralho.

Esse tenho certeza de que era o SpongeBob Movie Game, pois uma das memórias mais vívidas que tenho da infância é de me frustrar com essa banheira do caralho.

Desse acontecimento tirei duas coisas importantes, que acho que é muito fácil esquecer:

  • As pessoas são mais do que a gente conhece delas e elas podem simplesmente não cumprir nossas expectativas
  • As pessoas existem fora da minha visão?

Essas coisas me marcaram bastante, tanto que são memórias meio vívidas. O que é engraçado, pois conversando com meu primo recentemente ele genuinamente não se lembra disso.

E depois desse começo prolixo, eu finalmente chego aonde eu queria.

Somos a soma das nossas experiências?

É muito fácil acreditar que sim, mas advogo pelo contrário

Thumb desse video

Thumb desse video

Penso que, da mesma forma que é impossível calcular a quantidade de estrelas que tem no céu, é impossível mensurar a imensidão interna de apenas uma única pessoa. Todo esse início foi para chegar nesse ponto: uma história de como uma criança chegou à conclusão de que as pessoas são mais do que conseguimos dar crédito a elas.

Perceba na minha pequena história como em nenhum momento o eu que existia naquele momento conseguiu pensar fora da própria individualidade, e como ele achou estranho que as pessoas estavam agindo diferente do que ele achava que era o correto e o natural.

Não só isso, mas é muito fácil cair na arrogância de pensar que somente o eu pensa. Afinal, só conseguimos ver e ouvir a nós mesmos no íntimo. Mesmo sabendo que o outro é provavelmente igual, certamente eu seria diferente, não? O outro sofre igual eu? Das mesmas coisas?

Dito isso, não é impossível entender o outro, pelo menos até uma certa amplitude. Não só isso, mas em um nível mais superficial é possível ler intenções e pensamentos, jogar com padrões para um objetivo. Nós também somos nossas memórias e experiências, como dizem, gato escaldado tem medo de água fria.

Vamos imaginar uma situação hipotética. Um ser humano X se envolve em uma experiência definidora na infância, seja ela positiva ou negativa. Isso é algo que existe com ele e que fica.

“Mas você não estava justamente falando contra isso?”

Não exatamente. O meu ponto é que nós não somos escravos das nossas experiências e memórias, mas elas certamente nos influenciam. Dá para chutar atitudes que o X pode ter devido à situação que passou, mas em última instância a essência de quem é X vai dizer o quanto essa experiência o define ou não.

Do mesmo jeito que é muito fácil presumir que um viciado em crack vai fumar a próxima pedra, tanto quanto ele pode simplesmente conseguir parar com o vício, por mais que seja obviamente difícil.

Como a gente não consegue ouvir o monólogo interno do outro, esse tipo de nuance acaba meio que se perdendo. Mas gosto de pensar que somos mais e que podemos ser mais. Não somos escravos daquilo que aconteceu conosco e podemos ir além.

Certo, entendi seu ponto, mas, o que isso tem a ver com Pluribus?

Em Pluribus, as pessoas entraram em uma mente de colmeia. A entidade Outros é uma mistura de todas as pessoas infectadas do mundo ao mesmo tempo. Ela tem todas as memórias e experiências, menos as negativas. E é justamente aí que entra meu ponto. Sem individualidade é impossível essa entidade ser uma pessoa, quanto mais todas as outras pessoas do mundo.

Digo com convicção: mesmo que você tenha um meio de ler as memórias do outro e ter suas experiências, a menos que você tenha sua essência individual para julgar e agir, aquilo se torna tão impessoal quanto assistir a um filme.

Portanto, a entidade está incorreta em se categorizar como todas as pessoas do mundo. Ela é uma terceira coisa, algo pós-humanidade. A essência do que define o humano está na individualidade, então, mesmo que essa entidade consiga ter todas as memórias humanas, a incapacidade que ela tem de julgar por uma ótica individual impede o resto do processo. Ela não tem crenças, desejos, prazeres ou desprazeres.

Mesmo a cultura, sendo algo que dita bastante das experiências que podemos ter, não existe nessa unidade. Essa entidade não tem nada que possa ser chamado de seu, ao mesmo tempo, em que busca colonizar a individualidade do resto.

Nós não somos nossas experiências, nem somos escravos delas, mas nossa concepção arbitrária e subjetiva referente a essas experiências e como elas nos moldam e mexem fundamentalmente com nossa essência é o que faz de nós humanos. Os Outros não têm isso, portanto não entendem, mesmo que tenham todas as memórias do mundo.

Os seres humanos são os únicos animais da Terra que conseguem mudar a percepção que eles mesmos têm do mundo, da realidade e deles próprios. Para os poetas é o nosso coração, para os religiosos é a nossa alma, para os céticos é o nosso cérebro que interpreta nossa verdade da realidade. Para cada pessoa que existe há uma realidade e uma verdade, limitadas pelo que a gente chama de “eu”.

E “eu” não são experiências, não são pensamentos e atitudes.“Eu”, meu caro leitor, é nem mais, nem menos que “eu”.

Posto isso, quero partir para o segundo tópico do texto, considerando a morte do eu e de toda individualidade.

Homogeneidade significa a morte da criatividade? Dá para ser feliz sem ter identidade?

Resposta curta: sim, significa a morte da criatividade, e não, felicidade não existe sem individualidade, pelo menos em algum nível.

Acabou o texto?

Obviamente que eu não poderia perder a oportunidade de dissertar sobre isso, então vamos lá. Como diria Jack, o Estripador, vamos por partes.

Uniformidade é o novo mal do seculo?

Hoje, com a grande vinda da IA, temos um fenômeno geral que acontece: a similaridade de coisas que não têm nada a ver. Para olhos bem treinados, um site vibecodado ou um texto exclusivamente criado por IA consegue ser exposto com duas olhadas.

Não confundir trabalhos que usam IA como ferramenta e trabalhos feitos por ia.

Afinal, a IA não consegue criar nada novo, apenas assimilar o que existe e misturar no que é considerado um padrão. Tirando a agência humana, você perde a particularidade das coisas. Um desenho, uma série, um anime, um jogo ou qualquer representação artística que pode ou não ter o propósito de representar fielmente uma realidade nunca realmente consegue fazer isso.

Esse tipo de imagem simplesmente imita nossas fantasias e desejos pessoais, criando constructos fictícios que nunca conseguem corresponder à realidade. Ao desenhar um lugar, você só consegue desenhar aquilo que interpretou do lugar. Ao fazer um filme sobre um tema, acontece o mesmo.

O mesmo vale para a linguagem. Em textos poéticos são utilizadas palavras específicas que remetem sentimentos para o autor. Por exemplo, ao ler em outra língua, talvez “home” não toque nenhum alarme, mas casa é a casa que você morou.

Então, se toda realidade, até mesmo a das palavras, está atada àquilo que conseguimos interpretar e conjecturar, como a IA consegue? Do mesmo jeito que os Outros em Pluribus: é uma grande massa de informação buscando o jeito mais humano dentro da média para atender uma necessidade X.

Isso é Negativo?

Por um lado, talvez seja positivo. A aproximação de pessoas, o fim de guerras, conflitos, racismo, tudo que divide e machuca se vai. Mas a que custo?

Certamente, se eliminarmos todas as experiências individuais e as coisas que nos definem, os conflitos acabam. Mas isso é realmente uma coisa boa? Uma linguagem que você não consegue chamar de sua, a não necessidade de uma cultura e a morte de qualquer tentativa do diferente?

Se tudo for enlatado, se todo mundo gostar de tudo e não existir mais subjetividade, ainda podemos nos chamar de humanos?

Os Outros certamente não podem mais. Eles não criam, pois não têm essa individualidade. No momento em que todos os textos forem iguais, todas as artes forem feitas a partir de um banco de dados, a gente vai conseguir entender o que perdeu.

https://x.com/felipe_krust/status/2019442547781685391

https://x.com/felipe_krust/status/2019442547781685391

Um exemplo claro é ver como sites, para o bem ou para o mal, tinham mais personalidade. Tudo vai se padronizando de tal forma que é até estranho ver isso atualmente.

Não me entenda errado. O toque humano não é garantia de originalidade ou de qualidade, mas pelo menos é de personalidade. Quando você cria, é impossível se separar completamente da sua criação, pois ela sempre mostra um pouco da sua interpretação de algo.

Esse, por exemplo, diz que gosto muito de evangelion

Esse, por exemplo, diz que gosto muito de evangelion

O que talvez pareça uma reclamação meio imatura, à la punk, sobre originalidade, para mim pelo menos é mais sobre individualidade e o direito de ser e fazer diferente.

O objetivo final dos Outros em Pluribus é conseguir infectar toda a humanidade, incluindo os sobreviventes. Para eles, a diferença é um crime, pois simplesmente não conseguem conceber um mundo fora da mente de colmeia. Por outro lado, Carol Sturka quer tirar todo mundo forçadamente da mente de colmeia, também impondo sua vontade. A diferença principal, para mim, é a escolha.

Por si só, a escolha de se uniformizar, se adaptar ou entrar nessa situação não é boa nem ruim, e pode ser debatida. Só que aqueles infectados não têm necessariamente escolha, e eles querem tirar a escolha da Carol. Acho que o ponto de Carol ser claramente quem mais está sofrendo com a solidão, e possivelmente a mais triste dos sobreviventes, está justamente em como ela escolhe a tristeza.

Ela prefere essa tristeza real à união conjunta forçada com o resto. O fato de ela ser uma mulher lésbica que participou de terapia de conversão diz bastante sobre isso. O show pode ser lido nessa metáfora: uma sociedade que não aceita e não quer o diferente.

É difícil resistir quando Satanás maquina a mulher da sua vida para te enganar, honestamente.

É difícil resistir quando Satanás maquina a mulher da sua vida para te enganar, honestamente.

Uma coisa que eu pensei durante a série, ainda nesse aspecto, é o seguinte: os Outros criaram Zosia. Literalmente criaram, no sentido de pegar uma mulher(árabe?), e mudá-la o suficiente para que ela se parecesse com o personagem que Carol criou, gerando familiaridade nela, além de usar todas as memórias de Helen, ex-esposa de Carol, para fazer o que ela gosta.

Dito isso, Carol resiste até onde consegue, mas quando a solidão fala mais alto, ela se entrega a Zosia.

Uma coisa que me passou pela cabeça: e se Zosia não for lésbica? Ela não tem o direito de recusar? Por ela estar na mente de colmeia, meio que tudo é aceito? Mas, como individualidade não existe, é quase como se fosse um boneco. O que é estranho pra caralho.

Relações não existem sem humanidade. Sem individualidade. Sem vontade.

O ponto de virada para mim, onde isso ficou claro, é quando Carol pergunta memórias específicas de Zosia, não da entidade, mas da pessoa que era dona do corpo. E, por um momento, ao falar de sorvete de manga, ela parece tão humana que difere do resto do comportamento apresentado, quase como se estivesse saindo do personagem.

Uma coisa tão simples e individual como um gosto demonstrou tanto sobre essa pessoa. Uma pessoa de verdade, e não uma consciência geral.

Somente pessoas podem ter sabores favoritos.

Sem esse poder de decisão, sem essa individualidade, tudo se torna igualmente sem gosto e cinza. Não só na literalidade da mente de colmeia, mas também na necessidade de se encaixar em grupos, de performar opiniões. A falta de coragem também mata a criatividade e o amor.

Ser você é um ato de respeito próprio.

Partindo então para o ultimo ponto.

Dá para ser feliz sem ter identidade?

Os Outros certamente parecem infinitamente mais felizes que Carol Sturka ou que Manousos. Não só a entidade, mas também os sobreviventes que aceitaram a situação parecem mais felizes.

O que, de certa forma, é verdade em algum nível. Mas não dura para sempre, pois é uma falsa felicidade.

Começando pelos sobreviventes, temos o cara que está literalmente brincando de boneco, performando Casino Royale com o corpo dos outros enquanto vive uma vida dionisíaca, Koumba.

Do outro lado da sala temos Laxmi, que está fingindo que o filho dela ainda está vivo.

E, além deles, temos Kusimayu, que quer entrar na mente de colmeia, pois acredita que sua família e sua cultura estão lá.

O que esses três têm em comum?

Uma falsa felicidade que só existe enquanto ignoramos aspectos da realidade para nos adequar.

  • Koumba não tem ninguém de verdade perto dele, só bonecos, atores, se preferir.
  • Laxmi sabe que seu filho se foi mas se prende a isso.
  • Kusimayu é o exemplo mais literal disso, assim que ela entra na mente de colmeia sua cultura é oficialmente extinta.

Com esses exemplos pelo menos, a Carol parece a mais honesta ao escolher a liberdade de sofrer.

A felicidade é falsa, pois não existe ligação quando a integridade do indivíduo é comprometida. Eles sabem disso e não têm coragem para encarar.

Carol recebe o peso da solidão por encarar essa verdade, e isso a quebra.

Manousos, por outro lado, nunca compromete a própria integridade e busca em Carol uma igual, alguém para ajudá-lo a salvar o mundo.

Por não se assimilarem a essa nova realidade, eles sofrem direta ou indiretamente lutando pela própria individualidade.

De certa forma, sem ajuda dos Outros, conseguem superar barreiras de distância e comunicação. E o que deixa tudo mais engraçado é que Carol e Manousos se parecem tanto que não se dão muito bem. Tudo isso é irônico e parece contraintuitivo, mas simplesmente demonstra uma verdade clara.

Nem tudo são flores, mas são as flores que a gente escolhe.

Agora falando dos outros.

Eles parecem não conseguir conceber um mundo sem a mente de colmeia. É instintivo para eles querer infectar a todos, mas isso demonstra que, a princípio, estão determinados a viver assim.

Não existe felicidade nos Outros, pois não existe tristeza. Não existem sentimentos ruins nem bons, nem valores, nem nada. Eles são quase como apartidários da própria pessoalidade.

Por exemplo, eles não parecem ser especificamente contra abusos. Não têm crenças, não têm moralidade, não têm nada.

Não tem como amar Shakespeare e um livro qualquer igualmente. É isso que nos diferencia. Nós gostamos, amamos, sentimos o bom e o ruim. Temos parâmetros, coisas que gostamos, coisas que odiamos.

  • Eu gosto de picolé de uva.
  • Eu não gosto de chocolate.

Sem o bom não existe o mal, sem a falta de calor não existe o frio. Como isso pode ser algo verdadeiro?

Se eu acho tudo bonito, eu não acho nada particularmente bonito. Se nem mesmo uma vista, uma música ou um sabor eu consigo aproveitar, como isso pode ser genuína felicidade?

Aqui meio que volta aquele discurso da coragem de ser único, de forma literal na mente de colmeia, mas de forma metafórica na sociedade. Como conseguimos viver sem sermos nós mesmos? Como conseguimos não buscar a nossa felicidade?

Fazendo novamente um chamado para o começo do texto: por que essas memórias que me marcaram são particularmente importantes para mim? O que esses jogos representam? Por que especificamente eu comecei o texto com uma memória tão pessoal?

Acho que, se você chegou até aqui, consegue responder essas perguntas. E não necessariamente gostar da execução, mas pelo menos entender, certo?

Eu quero acreditar que sim, mas cada um é cada um. (ha!)

https://www.youtube.com/watch?v=KcWSMlh_EKQ

https://www.youtube.com/watch?v=KcWSMlh_EKQ

Caso você tenha se interesado o suficiente e decidiu ler até aqui, agradeço de coração pela atenção. A minha mensagem final é sejam mais originais, por vocês e por mim! Eu estou tentando ser.

Edição: esse texto foi publicado dia 17/02/2026 antes da segunda temporada talvez as coisas mudem mas como ensaio acho que é isso mesmo

Autor: Eu (Guilherme)

Recomendação de Musica Aleatoria:

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