A Beleza que redime o tempo: contemplação e afeições na vida cristã
(Ensaio para Tutoria Filosófica do Invisible College — escrito em julho de 2025)
A Beleza que redime o tempo: contemplação e afeições na vida cristã
(Ensaio para Tutoria Filosófica do Invisible College — escrito em julho de 2025)
Em meio a conversas com filhos adolescentes sobre o tempo de uso no celular, a autora deste ensaio se surpreendeu quando um deles tentou argumentar contra a senha de bloqueio de tempo no aparelho, mostrando prints do tempo de uso de alguns amigos. O que usava menos somava 6 horas; o que usava mais, 10. A partir daquele momento, nós, pais, refletimos: como temos vivido o nosso tempo? Com tantos interesses fragmentados em uma vida repleta de notificações, como tem sido o nosso tempo de adoração a Deus? Mais que isso, a forma como vivemos o tempo pode ser compreendida, em si mesma, como uma forma de adoração?
Não é intenção deste ensaio se ater exclusivamente à vida digital, porém, situações como essa, mais do que dilemas parentais, convidam-nos a voltar o olhar ao coração. Em meio a esses questionamentos, o pensamento robusto, e por vezes poético, do pastor, teólogo e filósofo Jonathan Edwards nos oferece um caminho para refletir sobre afeições, beleza e encantamento. Há em suas obras um ordenamento da realidade e da adoração que nos permite respirar a grandeza de Deus como fundamento para compreender o mundo.
Sendo assim, se Edwards foi capaz de contemplar uma simples aranha e, a partir disso, se maravilhar com a sabedoria de Deus, como podemos, nós, recuperar a beleza de parar e refletir sobre a própria vida sob a grandeza do Criador? Como fazer isso quando vivemos correndo contra o tempo? Certamente, não é fácil desacelerar, mas a Eternidade divina nos convida a valorizar o tempo como fundamento e direção de nossas afeições espirituais.
Isto posto, este ensaio defende que os conceitos de beleza e afeições de Jonathan Edwards oferecem uma crítica espiritual profunda à forma moderna de viver o tempo, marcada por aceleração, distração e fragmentação. Argumentamos que seu pensamento, ao propor que a excelência divina se manifesta como beleza e reorienta nossas afeições, também pode redimir a nossa relação com o tempo, ou ao menos, nos auxiliar a repensar como temos vivido os nossos dias. Essa visão, longe de nos afastar da razão como um salto no escuro, acende nossas afeições com fervor. Trata-se de um amor que compreende e comunica, pois Deus, sendo relacional, não nos convida a uma experiência meramente subjetiva ou irracional, mas a uma fé iluminada que integra mente e coração.
A Queda e o descompasso das afeições
A princípio, comecemos refletindo sobre a seguinte passagem de Agostinho, nas suas Confissões: “Fizeste-nos para Ti e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti.” Certamente, essa conhecida oração de Agostinho nos faz compreender a tensão do nosso coração com o tempo. Desde a Queda, nossas afeições foram desordenadas, e agora, estamos em desarmonia com o tempo. Tentamos controlá-lo, mas somos consumidos por ele. “O tempo nos permite experimentar a maldição da queda e isso nos traz ansiedade e descompasso”. (GAROFALO NETO, EmílioNeto, 2020).
Nesse sentido, há um senso de insatisfação diante do relógio que corre e escancara a nossa finitude perante aquilo que não podemos controlar. A má mordomia do tempo, que é marcada pela autossuficiência e pelo afastamento do ritmo divino, torna-nos escravos dos nossos desejos imediatistas. As histórias fragmentadas que construímos geram uma existência acelerada e dispersa. Em Eclesiastes, o sábio aponta: “Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades!” O tempo, quando separado do temor de Deus, se torna um ciclo exaustivo e sem sentido.
A urgência desalinhada e a ansiedade pelo controle levam o homem a idolatrar o tempo como o seu senhor. Hoje, assumimos atributos incomunicáveis de Deus, a exemplo de onipresença e a eternidade, tentando estar em todos os lugares ao mesmo tempo, como se fossemos detentores de todo o poder da nossa história. Sobre esse tipo de reflexão, Byung-Chul Han identifica uma autoexploraçãoauto exploração que domina as nossas horas. Já não precisamos de um senhor externo, pois nós mesmos nos exploramos, e agora, somos projetos de performance.
Nesse contexto, Jonathan Edwards nos ajuda a perceber que nossas afeições não são apenas inclinações emocionais, mas expressões espirituais profundas. Para ele, a beleza e a excelência de Deus revelam-se de modo sensível à alma regenerada, conduzindo-a à adoração. “Ele tinha um senso tão vasto da soberania divina, que para ele, se a consciência de Deus cessasse mesmo por um instante, o próprio universo deixaria de existir”.
Destarte, até a própria Queda, que desordenou nossas afeições, não é um ponto final sem esperança. Ela é parte de uma história maior, em que a beleza é constantemente recriada. A cruz está inserida nesse quadro redentivo como a mais bela expressão da graça que redime o tempo, o pecado e a morte. Assim, a ordenação das afeições nos convida a habitar o tempo de forma sábia. Consequentemente, a contemplação ganha uma dimensão ontológica.
A aranha e a beleza contemplativa do instante
Em meio à urgência do nosso tempo, Jonathan Edwards nos convida a um movimento de contemplação consciente da natureza. Ao observar uma simples aranha, ele a elevou como sinal da sabedoria e beleza do nosso Criador. “O episódio em que Edwards se detém a observar uma aranha tece uma metáfora para sua postura espiritual: a atenção profunda ao ordinário revela maravilhas divinas que inspiram a alma a adorar.”
Sendo assim, pode-se compreender como o filósofo propõe um reencantamento do mundo, que antagoniza com a fragmentação do conhecimento. Edwards insistia que os vestígios da trindade manifestos na criação revelam uma harmonia ontológica e econômica, convidando-nos a um consentimento profundo, um deleite relacional e afetivo no Espírito Santo.
Ademais, a experiência da beleza transforma as afeições, conduzindo o coração à contemplação e ao amor do bem supremo, oferecendo um contra-ritmo à pressa e fragmentação do mundo moderno. Essa beleza não é apenas um conceito estético, mas uma expressão da excelência e harmonia do Ser de Deus que nos convida a habitar o tempo de forma redimida. “A beleza na criação participa da redenção maior, onde o encantamento pela realidade criada é um prelúdio para a comunhão eterna com Deus”
Cristo e a imagem suprema da beleza divina
Em seu ensaio Imagens das coisas divinas, Jonathan Edwards nos apresenta tipologias da natureza como imagens que apontam para realidades espirituais. O bicho-da-seda, a delicadeza das flores da primavera, o ciclo das estações, tudo isso comunica a glória de Deus e nos convida ao consentimento espiritual. Enxergar essas imagens é uma prática formativa de ordenamento das afeições, reencantando nossos dias com a luz divina.
Nesse sentido, se para Edwards a beleza tem origem no ser de Deus, podemos dizer que quanto mais a criatura refletir essa excelência, maior sua capacidade de tocar o coração e moldar nossa percepção do tempo. Ele não reduz essa beleza a uma única dimensão. A beleza é multiforme: estética, cognitiva, afetiva. Há, por assim dizer, uma beleza primária, um convite profundo à entrada no ser de Deus por meio de Cristo, fonte de toda luz, refratada em múltiplas belezas secundárias que compõem o mundo criado. Deus não nos deu apenas olhos para enxergar, mas olhos que brilham, capazes de ver com o coração aquilo que foi desejado pela mente do próprio Criador.
Como ele descreve em Afeições Religiosas, o deleite na glória divina está relacionado à nova vida que o Espírito Santo ilumina no coração regenerado. Nesse sentido, é o tempo que se curva ao ritmo da Graça, tornando-se um espaço sacramental em que cada instante é vivido com o peso eterno da glória. Sobre isso, James K. Smith nos lembra que no cerne do Cristianismo se encontra um acontecimento. A autorrevelaçãoauto revelação de Deus se desenvolve no tempo, e a redenção é realizada por meio de algo que acontece. O momento, assim, é uma reviravolta para o cosmos.
Cristo é, afinal, a imagem suprema das coisas divinas. Ele é a beleza encarnada. A Palavra que viveu em nosso tempo, o redimindo e orientando nossas afeições para o que é verdadeiro, belo e bom. A oração de Moisés deve ser a nossa súplica diária: “Ensina-nos a contar os nossos dias” (Sl 90:12). E como nos ensinou Agostinho, o tempo só encontra sentido quando habitado pela memória redimida, pelo desejo convertido e pela esperança da eternidade. Contemplar, então, não é mero exercício de autodisciplina ou imperativo para o descanso do corpo: é uma atitude de submissão à plenitude divina.
O tempo como o esticar-se da alma
Em Vestígios da Trindade, Peter Leithart nos lembra que o tempo não é um problema a ser resolvido, mas uma maravilha e mistério da existência humana. Somos chamados a perceber as épocas da vida como parte de um plano divino, pois a mordomia do tempo é expressão de uma vida moldada pela Aliança. Há uma promessa de presença ao longo da história, que sustenta os nossos dias.
Nesse caminho, Jonathan Edwards oferece uma contribuição valiosa: para ele, contemplar a criação não é escapismo, mas um exercício espiritual capaz de ordenar afeições e transformar o cotidiano em adoração. Seu olhar nos ajuda a resistir à fragmentação que marca o nosso tempo e alinhar o coração ao ritmo do Eterno. Contemplar, portanto, é também abraçar o tempo sob o senhorio de Deus. E ao fazermos isso, somos lembrados que o Espírito Santo está agindo em nós, de forma individual e coletiva. É ele que constrói um povo santo.
Por fim, habitar o tempo redimido não é apenas administrar minutos. É a conversão do coração e das afeições. Somos transformados pela presença viva e bela de Deus. Ou seja, a beleza que une o que foi fragmentado, pois o nosso Senhor do tempo é incansável em buscar um mundo que se reintegre. E como promessa, Ele estará conosco todos os dias.
Referências Bibliográficas
AGOSTINHO, Santo. Confissões de Santo Agostinho. Tradução de Lorenzo Mammì. 2. ed. São Paulo: Penguin-Companhia, 2017.
ALMEIDA, Guilherme de Carvalho. Beleza, teologia natural e apologética cristã. Cruciforme, 23 jan. 2020. Disponível em: https://cruciforme.com.br/beleza-teologia-natural-e-apologetica-crista/. Acesso em: 31 jul. 2025.
BYRD, James P. Jonathan Edwards para todos. Tradução de Francisco Nunes. 1. ed. Viçosa: Ultimato, 2021.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2015.
LEITHART, Peter J. Vestígios da Trindade: sinais de Deus na criação e na experiência humana. Tradução de Leandro G.F.C. Dutra. 1. ed. Brasília: Editora Monergismo, 2018. p. 79.
MARTINS, Vinicius. O desconhecido Jonathan Edwards: apreço pela natureza e ciência e pelo Deus Criador. Ministério Fiel, 12 fev. 2021. Disponível em: https://ministeriofiel.com.br/artigos/o-desconhecido-jonathan-edwards-apreco-pela-natureza-e-ciencia-e-pelo-deus-criador/. Acesso em: 30 jul. 2025.
NETO, Emílio Garofalo. Isto é filtro solar: Eclesiastes e a vida debaixo do sol. 1.ed. Brasília, DF: Monergismo, 2020.
SIMÕES, Jonathan. Fórum da Tutoria filosófica Invisible College sobre Jonathan Edwards. Acessado em 31 jul. 2025.
SMITH, James K. Como habitar o tempo: compreendendo o passado, encarando o futuro, vivendo fielmente agora. Tradução de Daniel Kroker, 1. ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2023.p.32
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