Do Braseiro ao Incêndio
Sempre fui do tipo de gente que sente as coisas de forma devastadora. Chorava demais, sangrava demais, tudo em excesso, como se meu corpo…
Do Braseiro ao Incêndio

Paw Grabowski / øjeRum
Sempre fui do tipo de gente que sente as coisas de forma devastadora. Chorava demais, sangrava demais, tudo em excesso, como se meu corpo exagerasse em súplica, clamando por alívio. Todo exagero parece mesmo esconder uma falta tremenda.
A falta corrói qualquer estrutura, por mais maciça que possa parecer, cria fissuras, vãos, veios por onde flui uma única promessa: a do colapso total. Subitamente arruinado, sempre me entendi como sobrevivente em meio aos destroços, e nunca como as ruínas, as estruturas colapsadas. Madeline Miller que escreveu em “Circe”,
Foi a minha primeira lição. Sob a suave e familiar face das coisas há outra, que anseia por rasgar o mundo em dois.
Vi esses dias, na internet, no Twitter, alguém escrever assim “emocionei, engoli o choro. Respirei fundo”. Esses relatos sempre me pegam. Para mim, e eu imagino que para muitas pessoas também a justaposição de “sentir”, “entender”, “verbalizar” e “agir” nos leva sempre a encruzilhadas.
Eu nunca fui bom de escolher qualquer coisa, sempre peco em deixar de pesar os prós e contras, e muitas vezes acabou em complicações tremendas, mas no fim sempre dá certo. Eu nasci com um superpoder maior do que a esperança: a fé cega no futuro.
Acho que porque, no final do dia eu “não discuto com o destino, o que pintar eu assino”, como Leminski, não estou lutando contra o destino nem esbravejando, estou servindo-o, sendo a tecedura viva de suas maquinações. Sempre estou onde era para que eu estivesse.
E muitas vezes, a mesma força que me eleva a lugares incríveis também me atrai para ruínas, também me faz quebrar. O prospecto de viver em um mundo constantemente bombardeado por monóxido de carbono escoando do escapamento de veículos, violado por agrotóxicos despencando dos céus em atos criminosos e torturado por queimadas ilegais, me fez pensar que não necessariamente nos recuperaremos disso, mas certamente podemos ter esperança de que vidas melhores virão, e não só ter esperança, mas tomar ação, para não só aguardar o milagre, mas ter condição de recebê-lo no corpo.
Por isso diante de forças que poderiam me destruir, eu permaneço. Quebrado, arruinado, desorientado, mas vivo e potente sob a promessa do retorno: porque está escrito em algum lugar que eu voltarei, e que esse certamente não é o meu fim.
Deixo que o horror escape, o grito ecoe, a ferida sangre e a cena geral seja uma visão insalubre. De repente você olha, e a paisagem te domina, subjuga, arruina; eu te disse para não olha, você se foi e eu estou aos prantos, eu te implorei para não olhar, mas você precisava saber que tipo de mundo deu origem a alguém como eu.
Sempre fui do tipo de gente nunca olhava pra trás, mas escrevia sobre, pra daí poder olhar.
메타데이터
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