A arte de mudar para comunicar com propósito
Maristela Crispim e a aposta no Jornalismo Independente para cobertura socioambiental
A arte de mudar para comunicar com propósito
Maristela Crispim e a aposta no Jornalismo Independente para cobertura socioambiental
Por Karizia Marques
Maristela Machado Crispim é hoje uma das principais referências no jornalismo ambiental brasileiro. Cofundadora e editora-chefe do Instituto Eco Nordeste, também preside a Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental (RBJA). Mas conquistar tudo isso foi resultado de uma trajetória longa e diversa no jornalismo. As experiências acumuladas e uma atenção constante nas mudanças do jornalismo, marcaram as transformações do próprio ofício.

(Foto: arquivo pessoal)
Antes de se tornar um nome relevante na cobertura socioambiental no Brasil, Maristela percorreu caminhos diversos: da imprensa tradicional à assessoria de comunicação, das redações à sala de aula, percurso que lhe rendeu 50 prêmios de jornalismo. Foram mais de 25 anos no Diário do Nordeste, onde atuou como repórter, redatora especial e editora. E foi nesse longo percurso que ela consolidou seu olhar atento às pautas socioambientais, um olhar que acabaria a conduzindo ao jornalismo independente.
Após décadas em um grande veículo de mídia convencional, a decisão de mudar parecia ser arriscada, mas veio de forma natural para seguir naquilo que mais gostava e acreditava. “A minha trajetória, ela teve alguns lances que me empurraram mais ainda em direção às questões socioambientais”, afirma.
Antes de ingressar no jornal impresso, ela já foi assessora de imprensa na Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), o primeiro contato com o jornalismo científico, e na Fundação Konrad-Adenauer, onde atuou em projetos sobre agricultura familiar e comércio justo. Essas experiências ajudaram a moldar seu interesse por temas relacionados ao meio ambiente, economia e direitos sociais.
Depois, já no Diário do Nordeste, boa parte das suas premiações veio de reportagens baseadas no jornalismo de soluções, prática fundamental no campo ambiental. “Atribuo esses prêmios a uma visão diferenciada da nossa região, que hoje se intitula jornalismo de soluções. Lá atrás, quando comecei a fazer, nem sabia o que era, mas era tentar desconstruir os estereótipos sobre a nossa região, que até mesmo os jornalistas da região reforçam”.
Após as redações, outro momento na carreira foi essencial para que Maristela seguisse novos rumos dentro do jornalismo. Em 2002, quando ela era diretora do Sindicato de Jornalistas. Ali ela percebeu uma lacuna na cobertura ambiental e viu uma nova oportunidade, “Viajei para o Congresso da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), conheci a Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental (RBJA), e ao participar dessa rede, eu pude conhecer outros jornalistas que faziam essa cobertura socioambiental, mas que era quase que completamente voltada para dois biomas, Mata Atlântica e Amazônia. Então, eu decidi voltar mais o meu olhar para a Caatinga, para o nosso bioma”, relembra. Esse contato com iniciativas independentes dentro da área ambiental foram a chave para despertar um novo desejo.
Com toda essa bagagem, o desejo de construir um projeto próprio começou a tomar forma. Finalmente veio a decisão que parecia ser a certa para seguir, e então, em 2018 fundou a Agência de Conteúdo Eco Nordeste. Hoje, a Eco Nordeste é uma agência voltada para o jornalismo de soluções com foco no desenvolvimento sustentável do Nordeste brasileiro. Em seus sete anos, ela se tornou referência dentro do jornalismo ambiental na região e no Brasil.
Apesar dos poucos anos, a Agência já conquistou quatro prêmios de jornalismo: 2º Prêmio MPCE de Jornalismo — 2020; Prêmio Semear Internacional de Jornalismo — Edição 2020/2021; Prêmio Megafone de Ativismo 2023; Prêmio de Jornalismo do Banco do Nordeste (BNB) — Edição 2023. Os Prêmio são um reflexo da sua competência com o trabalho trazendo de forma única diversidade, ciência, regionalismo e soluções.
Mas os bons frutos vieram após muita dedicação de Maristela em levar seu desejo adiante: “Eu não tinha noção do que era tocar um veículo independente, mas não só o jornalismo digital com as suas características mas fundamentalmente gerir um negócio. Eu não tinha formação para gerir um negócio e precisei aprender na prática, teve alguns momentos de formação dos cursos da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), na formação da Ajor (Associação de Jornalismo Digital)…”. A rede de apoio não para por aí, alguns veículos independentes mais experientes também ajudaram na causa. “Fiz uma formação com a Elayne, do Alma Preta Jornalismo, gestão de veículos digitais, e tudo isso foi ajudando nesse processo de construção”.
Iniciativas assim fazem o jornalismo chegar em lugares que a mídia convencional dificilmente chegaria, contar histórias que passariam despercebidas, mas que fazem toda a diferença no ambiente, permite ao jornalista contar narrativas de formas únicas. A Caravana Nordeste Potência, realizada em 2022 é um desses trabalhos que ela relembra com orgulho: “Nós percorremos uma extensão nordestina do Rio São Francisco, desde a Foz, Sergipe até o médio São Francisco, entre Juazeiro e Petrolina, Pernambuco e Bahia. A gente pôde mostrar vários aspectos de como a gente pode ter uma economia regenerativa da região do São Francisco, a gente fez isso a partir de cooperativas de agricultura familiar, agroecológica. Nós visitamos também três etnias indígenas da região e vimos as práticas socioambientais desses territórios, podemos mostrar uma cooperativa de crédito de carbono na Caatinga e outras coisas”.
A atuação de Maristela hoje ultrapassa as reportagens. Ela representa e fortalece redes, articula novas iniciativas e forma novas gerações de comunicadores. Sua presidência na Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental é também reflexo de um compromisso com a transformação do jornalismo, tornando-o mais plural, mais conectado com a realidade das pessoas e mais atento aos desafios do nosso tempo.
Texto produzido em Julho de 2025 para a disciplina de Jornalismo Independente e Alternativo.
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