Rock nacional dos anos 70 — Parte I
Por Marcelo Magosso

Foto: Os Mutantes (reprodução internet)
Rock nacional dos anos 70 — Parte I
Por Marcelo Magosso
Quando se fala de rock brasileiro, invariavelmente, o primeiro assunto a surgir na pauta é o chamado BRock 80, a safra de bandas que surgiu entre o começo da década de 1980 e a realização da primeira edição do Rock in Rio (1985) — com justiça, diga-se de passagem, já que, além de movimento cultural, o rock daquela época foi trilha sonora da abertura democrática no país, após décadas de uma brutal ditadura militar. Apesar de toda sua importância, essa década de ouro não foi o começo do rock and roll no Brasil.
Olhando em retrospecto, desde os anos 1950 o rock faz parte da cultura brasileira, mas um período em especial foi muito pródigo e determinante para a evolução do estilo: os anos 1970.
Começamos hoje uma série que não pretende, em hipótese alguma, ser uma “discografia básica”, mas mostrar o panorama geral e as mudanças que ocorreram ao longo do tempo. Para isso, publicaremos mensalmente uma lista, ano a ano — de 1970 até 1979 — com dez discos que ilustrem o momento, entre clássicos absolutos e outros não tão óbvios.
Aproveitem a viagem!
Os Mutantes — Divina Comédia ou Ando Meio Desligado

Imagem: https://www.discogs.com
Um dos nomes mais importantes não somente dentro do cenário roqueiro, mas também para a música brasileira, certamente é Os Mutantes. O núcleo do grupo formado pelos irmãos Baptista (Arnaldo e Sérgio) e Rita Lee, é aqui brilhantemente acompanhado por Dinho (bateria) e Liminha (baixo), naquela que ficou marcada como a formação clássica da banda.
A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado é o terceiro e mais emblemático trabalho da discografia da banda, com sua mescla inconfundível de rock, psicodelia, MPB, tropicalismo e um toque de humor sarcástico, adornado pelas orquestrações do maestro Rogério Duprat. Este é um dos álbuns mais importantes da música brasileira.
Destaques: Ando Meio Desligado, Meu Refrigerador Não Funciona e Desculpe, Babe.
Rita Lee — Build Up

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A estreia solo de Rita Lee, mais do que um projeto paralelo, foi o início de uma carreira sem paralelos no rock nacional. O projeto bastante inusitado tem relação com a FENIT (Feira Nacional da Indústria Têxtil), que foi uma espécie de precursora da Fashion Week. Durante uma breve separação dos Mutantes, Rita apresentou o espetáculo Build Up Fashion Show. A nota no encarte do disco ilustra bem o conceito: “Rita Lee canta neste disco algumas músicas do show Build Up. Este show vai percorrer quase todo o Brasil numa promoção de 14 das nossas maiores empresas.”
Musicalmente, a obra guarda bastante semelhança com seu trabalho nos Mutantes, tendo contado com a participação dos demais integrantes da banda, em especial Arnaldo Baptista. A sonoridade transita entre o rock e o folk, com pitadas de psicodelia.
Destaques: Viagem ao Fundo de Mim, José e Eu Vou Me Salvar.
Ronnie Von — A Máquina Voadora

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Para quem conheceu Ronnie Von como apresentador de TV, pode parecer estranho ver seu nome associado ao mundo do rock, mas durante sua carreira o cantor lançou algumas das mais significativas obras psicodélicas da música brasileira, notadamente no período que compreendeu o fim dos anos 1960 e começo da década seguinte.
A Máquina Voadora é o terceiro disco da fase psicodélica do artista e, mesmo não tendo feito tanto sucesso quando foi lançado, o álbum tornou-se objeto de culto para as gerações seguintes. O disco transita entre rocks psicodélicos, adornados por guitarras distorcidas, e baladas cheias de orquestrações, criando uma tapeçaria de sons rica e multicolorida.
Destaques: A Máquina Voadora, Verão nos Chama e Viva o Chopp Escuro.
Os Incríveis — Os Incríveis

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Na estrada desde o início dos anos 1960, Os Incríveis lançou em 1970 um disco que foi ao mesmo tempo uma bênção e uma maldição. O disco autointulado veio em meio a um período histórico bastante particular. Em meio à empolgação com a Copa de 1970 e o famigerado “milagre econômico” do governo Médici, a banda achou por bem incluir no repertório do disco a música Eu Te Amo, Meu Brasil, de autoria de Dom, da dupla Dom & Ravel. A letra ufanista acabou servindo de hino não oficial da ditadura militar, o que manchou de forma indelével a reputação do grupo, ocasionando a saída dos músicos Manito e Netinho e, posteriormente, decretando o fim das atividades da banda.
Com exceção da canção já mencionada, o disco traz ótimos momentos, transitando entre resquícios da sonoridade da jovem guarda e influências mais pesadas, sempre com um trabalho instrumental impecável, em que se destacam a guitarra de Aroldo Santarosa e a bateria de Netinho.
Destaques: Adeus Amigo Vagabundo, You Keep Me Hanging On e Hi De Ho.
Som Imaginário — Som Imaginário

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Oriundo do famoso Clube de Esquina e tendo servido como banda de apoio de Milton Nascimento, o Som Imaginário, desde sempre, teve voz própria. Formado à época por um time de músicos que faz com que o rótulo de supergrupo seja totalmente pertinente ao conjunto, seus integrantes eram Wagner Tiso (teclado), Zé Rodrix (órgão e vocal), Luiz Alves (baixo), Tavito (guitarra base), Frederyko (guitarra solo) e Robertinho Silva (bateria).
O som do grupo, neste primeiro trabalho, é bastante orientado para o rock progressivo e psicodélico, com influências de jazz e MPB, sempre tendo uma sonoridade com ênfase nos teclados. É um disco para ser ouvido com atenção e mente aberta.
Destaques: Super-God, Feira Moderna e Make Believe Waltz.
O Terço — O Terço

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Um dos principais nomes do rock brasileiro nos anos 1970, O Terço, em seu primeiro disco, soava bastante distante, em termos de estilo, do que viria a ser o som clássico de discos como Criaturas da Noite (1975) e Casa Encantada (1976).
Formado por Sérgio Hinds (baixo e vocal), Vinícius Cantuária (bateria e vocal) e Jorge Amidém (guitarra e vocal), o grupo executa neste disco um rock com muito pouca distorção e bastante influência de música brasileira e folk.
Destaques: Nã, Imagem e Saturday Dream.
Umas e Outras — Poucas e Boas

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Abrindo aquilo que podemos chamar de “lado B” desta lista, temos o trio feminino Umas e Outras. Formado pelas cantoras Dorinha Tapajós, Regininha e Malu Ballona, o grupo teve curta duração e deixou como legado apenas o álbum Poucas e Boas, produzido por Nelson Motta.
O estilo praticado pelo grupo era um rock com forte apelo pop, com ênfase nos arranjos vocais. Várias músicas fizeram parte de trilhas sonoras de novelas da época, como Ondas Médias (Irmãos Coragem) e Pigmalião 70 (novela homônima), por exemplo. Vale a pena conferir algumas letras do grupo que, em tempos de censura e ditadura, eram bastante arrojadas.
Destaques: Ondas Médias, No Nepal Tudo é Barato e Serolav ou Oh! Meu Brasil.
Red Snakes — Trying To Be Someone

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Formado em meados da década de 1960, no Rio de Janeiro, o grupo trazia na bagagem dois discos calcados em versões instrumentais de canções internacionais quando entrou em estúdio para gravar o terceiro trabalho.
Trying To Be Someone representou uma mudança radical na sonoridade da banda, com o acréscimo de vocais e letras em inglês e um punhado de canções autorais. O estilo era um rock psicodélico extremamente bem executado. Infelizmente, logo depois do lançamento, o grupo encerrou suas atividades.
Destaques: Trying To Be Someone, Born Under a Bad Sign e Chest Fever.
Sound Factory — Sound Factory

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Atenção: não confundir com o grupo de house music dos anos 1990! Este Sound Factory foi uma banda formada no Rio de Janeiro por Antônio Ricardo Canízio Sampaio (baixo), Izidro Martins Neto (órgão), Trajano Luis Lemos Junior (bateria) e Kevin Valentine Peter Brennan (guitarra) e fazia uma mescla de hard rock com psicodelia.
O único trabalho do grupo lançado em 1970 traz uma sonoridade bastante pesada se comparada com o que se fazia em termos de rock no Brasil. O disco é, em sua maioria, composto por versões, mas contém três faixas autorais: Restless Time, Let’s Go e Midnight Inspiration.
Destaques: I’m Yours and I’m Hers, Let’s Go e Midnight Inspiration.
Novos Baianos — Ferro na Boneca

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Finalizamos esta lista com mais um grande nome da música brasileira.
Desde seu primeiro trabalho, os Novos Baianos apresentavam uma mistura de ritmos que, até então, poderia parecer heterogênea demais para dar certo. Mas deu, e ao longo dos anos o grupo lançou verdadeiras pérolas que misturavam rock, psicodelia, MPB, música regional, samba e ritmos latinos.
Em sua formação, a banda contava com artistas que, no futuro, tornariam-se grandes nomes em carreira solo, como Moraes Moreira, Baby Consuelo e Pepeu Gomes.
Destaques: Ferro na Boneca, Baby Consuelo e De Vera.
Na segunda parte desta série traremos grandes álbuns lançados em 1971, novamente mesclando nomes consagrados com outros “mais obscuros” da cena roqueira nacional.
Até lá!
메타데이터
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- 2026-07-14 22:38:33