Eu sou você
*21 Histórias Dedicadas à Amazônia* — dia 11
Eu sou você
21 Histórias Dedicadas à Amazônia — dia 11

– Sobre o que devo falar hoje?
– Sobre a Amazônia.
– O que, exatamente, você quer que eu diga sobre a Amazônia?
– Fale sobre como Ela mudou sua vida.
– Bem, foi quando estive lá que aprendi que posso viajar sozinha, enquanto descia de barco o gigantesco rio Amazonas, assistindo a tempestades tropicais com raios que cortavam o céu de ponta a ponta e iluminavam todo o rio em plena madrugada. Foi lá também que eu compreendi a imensidão da floresta, os cogumelos eram tão grandes que se pareciam com um banco de praça onde eu poderia sentar, as árvores tão altas e largas que era preciso três pessoas de braços abertos para envolver todo o tronco, vi pessoas que tinham jacarés de estimação, que apareciam regularmente no mesmo horário todos os dias em seu quintal para comer restos do almoço, vi como minha vida é frágil enquanto nadava no rio negro e saí às pressas da água sob os gritos de um homem que me contou que uma arraia gigantesca vivia ali e poderia me matar com uma simples rabada. E foi lá que eu tive clareza de que iria realizar o projeto Cidades para Pessoas. A força da floresta é tão verdadeira, tão espontânea, que estar lá me encheu de compreensão e energia para dar passos que mudaram a minha vida. Eu sinto com clareza que só estou aqui porque estive lá naquele momento.
– Ótimo. E o que mais você viu lá?
– Na segunda vez que estive lá, eu visitei uma cidade chamada Sinop, que é o maior polo de produção de soja do mundo. Lembro claramente da sensação de pisar para fora do avião e sentir um calor opressor secar a pele do meu rosto. Era desoladora a visão de devastação, difícil de acreditar que aquelas terras haviam sido cobertas da mesma floresta que eu conheci anos antes. Mais surpreendente era a quantidade de casos de câncer registrados naquela cidade e a sua naturalização. Fui a uma associação que cuidava de pacientes dessa doença e vi duas mulheres e uma criança entrarem lá com sacos plásticos cheios de cabelos. Eram doações que virariam perucas para as mulheres que haviam perdido seus cabelos com a quimioterapia. Disseram que muitas crianças doam seus cabelos lá, que havia até um garoto que sofria bullying por ter os cabelos longos, mas os deixava crescer porque queria doá-los para as perucas. Caminhei um tanto para espairecer essas informações difíceis de compreender. E senti na pele que a diferença de temperatura entre os parques florestais e o centro devastado da cidade chegava a 10 graus. Conheci muita gente séria e talentosa trabalhando para que a atividade econômica daquela região fosse menos agressiva. Torci por eles. Na última noite em que dormi lá, acordei no meio da madrugada com um nó na garganta. Fui até a varanda, ouvi papagaios voando. O sol começava a raiar. Chorei um choro ancestral. E pedi muitas desculpas. Desculpas por todo o sofrimento que eu causei nesse mundo. Desculpas, pela minha ignorância, porque eu não sabia o que estava fazendo. Então o sol apareceu e me aqueceu. Nunca mais trabalhei do mesmo jeito desde então.
– O que mudou no seu jeito de trabalhar?
– Bem, eu estava muito distraída com a vaidade naquele momento. Fazendo muita força para segurar um status de especialista, para segurar uma imagem de sucesso à qual havia me apegado. Depois de Sinop eu vi o quanto foi bom ter vivido esse status, esse sucesso, agradeci de verdade a tudo que pude aprender com ele, mas então o deixei ir. Fui pouco a pouco reduzindo a atividade do Cidades para Pessoas até interromper o projeto, sem saber o que viria. Fui criando coragem para sair da periferia de mim mesma e caminhar para o meu centro. Me descolei um pouco da personagem “Natália Garcia” que eu mesma havia criado.
– Foi bom?
– Olha, no começo foi horrível. Eu me senti um nada. Mas então, foi como se eu fizesse um zoom in em direção a esse nada e, chegando bem perto, vi que era um nada cheio do todo. Difícil de explicar essas coisas. O fato é que, daí em diante, ficou muito bom. Ficou mais leve existir.
– E hoje quem você é?
– Eu sou você.
– Espertinha… e quem sou eu?
– Eu sou a expressão da eternidade passando pelo corpo e pelo ego que me conduz por esse mundo nesse tempo.
– E para onde você quer ir agora?
– Para a cama dormir depois de publicar esse texto.
– Pois bem, então boa noite. E parabéns — você chegou à metade do seu projeto com esse décimo primeiro texto.
– Ufa, confesso que já estou ficando cansada.
– O cansaço, como a vaidade, só estão aí para te fazer treinar o seu centro.
– Compreendo. Eles sempre estarão aqui?
– Provavelmente sim.
– Me diz uma coisa, eu posso fazer qualquer coisa nesse mundo?
– O que você quer fazer?
– Publicar o livro que escrevi sobre o Butão.
– Por que?
– Porque eu gostei muito de escrevê-lo e acho que muita gente pode gostar de lê-lo.
– E se ninguém gostar?
– Bem, eu vou gostar de vê-lo publicado, e isso basta.
– Então acorde amanhã e dê um passo significativo nessa direção.
– Ok. E agora?
– Agora vá dormir.
메타데이터
- post_id
- bec79f4f2786
- slug
- eu-sou-você-bec79f4f2786
- url
- https://medium.com/21-hist%C3%B3rias-dedicadas-%C3%A0-amaz%C3%B4nia/eu-sou-voc%C3%AA-bec79f4f2786
- canonical_url
- https://medium.com/21-hist%C3%B3rias-dedicadas-%C3%A0-amaz%C3%B4nia/eu-sou-voc%C3%AA-bec79f4f2786
- author_url
- https://medium.com/@nataliafgarcia
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-07-29 13:04:28