Os Sambas-enredo de 2024 — Grande Rio
Enredo: Nosso destino é ser onça
Sambas-enredo 2024 — Grande Rio
Enredo: Nosso destino é ser onça

O enredo
A onça é signo e fio condutor na narrativa dos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora, baseado no “mosaico de cosmovisões de nações indígenas que habitavam (e habitam) o Brasil há milhares de anos”. Nas palavras deles mesmos, o enredo é “em devoração e desdobramento de Meu destino é ser onça”, obra em que o escritor Alberto Mussa” reconstrói a “epopéia mítica” tupinambá. Como “metáfora viva dos rituais antropofágicos”, a onça figura como chave para pensar “as disputas identitárias brasileiras e a nossa eterna capacidade de devorar para recriar — e renascer, rebrotar, revidar, deglutir”; é o “ser divino, sagrado, que ergueu reinos, em nosso imaginário” e “bordou de força e bravura as narrativas de matriz oral dos povos originários, as lendas costuradas em folguedos e canções, os cordéis do motor Armorial (movimento liderado por Ariano Suassuna nos anos 1970), o próprio carnaval do Rio de Janeiro, em algumas de suas melhores apresentações” — como Tupinicópolis, enredo da Mocidade em 1987.
A narrativa parte da ingratidão dos homens em relação ao Velho criador; de sua desilusão, vem a chuva de fogo; para apagá-lo, o trovão Tupã e o “dilúvio”. Tudo isso “rasga” o mundo em cicatrizes. Depois da noite, renasce a humanidade, que povoa a “terra-sem-mal”. Começam as disputas de poder. Maíra ensina o domínio do fogo; Sumé, “o avesso de Maíra”, tinha entre os seus poderes o de se transformar em onça. Poxi, parente de Maíra, foi morar no céu e virou Cuaraci, “senhor do cocar de fogo”, dando origem ao sol; Jaci, depois de derrotar uma aldeia de jaguares, parentes de Sumé, virou a Lua. O conflito gera outro dilúvio e dá origem a “terceira humanidade”. Então Maíra, pai do trabalho e transmutado em curumim, reensinou o homem a cultivar o solo — da luta diária pela comida. Sumé, pai da guerra, “destemido caraíba”, “ruge, voraz, no céu, perseguindo eternamente a Lua, a fim de vingar seus parentes”. Daí a necessidade de comer o inimigo: “devorar é tornar-se outro. Vingonça. Vingar é sobreviver…Devorar é seguir adiante”.
Finda a terceira criação, o enredo viaja pelo culto à onça pelos povos originários, que impediram o apagamento de suas pegadas: na figura dos jaguares nos altares do xamanismo; pelos templos que incas, maias e astecas ergueram em sua louvação. A onça segue grande nos mitos, como também nos cordéis e causos de pescador: “ponto de caboclo, ponta de flecha, ponta de dente, ponteio caipira. Encantarias! Tudo se funde e confunde nas troças do versador”.
“O nosso destino é ser onça” porque a defesa “dum futuro ancestral, múltiplo e diverso” requer uma “re-antropofagização”: é preciso recontar a história e bafejar saberes “contra a colonialidade que aprisiona, na jugular do atraso”. Redesenhar “o ser selvagem” através do samba. Tratar de todas as onças, inclusive aquelas “travestis guerreiras, panteronas, onças que redefinem os mantos tupinambás, onças que devoram a morte e fulguram feito estrelas” — aliás, um dos desdobramentos do enredo do qual mais senti falta nas obras. Enfim, para completar a aproximação das diferentes matrizes hoje reunidas sobre o Brasil território indígena — mítico e histórico — a sinopse lança os versos do rapper Oxóssi Carajá, filho de pai Karajá e mãe Quilombola: “Nasci do encontro de luta entre a aldeia e o quilombo”.
A safra
Muito, mas muito boa mesmo. Há três fortes concorrentes, acompanhados de um ou dois que podem perfeitamente pintar na final. A escolha já tradicional da Grande Rio de gravar todos os concorrentes na voz do seu intérprete, Evandro Malandro, oferece um vislumbre da versão final e aumenta a convicção de que a escola estará muito bem de samba na avenida.
Os sambas que eu mais gostei
João Diniz, Jailson da Grande Rio, Fabrício Fontes, Fred Camacho, Diego Nicolau e Francisco Aquino A exemplo do que fizeram quase todos os sambas, este também começa pelo velho e sua criação — “Eu sou um velho peregrino / celestial felino” — e pela ingratidão da humanidade seguida da ira de Tupã. Mas é a partir do primeiro refrão que o bicho pega mesmo: “Eu vi a desunião, e a chuva eu fiz cair / Alumiei o sol, e prateei Jaci / Chorei, chorei com a criação dividida / E recriei meu lugar e a vida” — é forte, além de funcionar muito bem como uma síntese do arco narrativo que vai da decepção do velho, sua vingança através do segundo dilúvio, até chegar à recriação. O próximo segmento do samba é poético e efetivo, ao transmitir a ideia não só da sobrevivência dos “saberes da onça”, como também de seu movimento (fumaça, rios, mares); sem esquecer da ignorância colonizadora: “Ritos xamãs, sabedoria / Que a ambição não traduziu”. O trecho que precede o último refrão é arrebatador e brinca ao encaixar palavras gerando ritmos absolutamente inesperados; isso tudo antes de lançar o slogan que certamente será incorporado pela escola caso esse seja o samba escolhido: “Encanto caboclo, ponto pra onça girar / História de pescador, caipira / Alada, sagrada que lambe demarca o sertão / Quem tem juízo não provoca não!” Finalmente, o (falso) refrão de cabeça, que apesar de forçar um pouco a barra com algumas rimas, traz a grande sacada “Grande Rio vira onça, vira que eu quero ver / homem-bicho, bicho-homem / tenho fome de vencer” e o último verso que termina em “e devora você”.
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Igor Leal, Arlindinho Cruz, Diogo Nogueira, Inácio Rios, Federal e Gustavo Clarão Depois do “hit quitandinha”, do ano passado, a parceria bicampeã na Grande Rio mais uma vez apresenta um favoritaço a, pelo menos, estar na final. Destaco logo de cara a linha melódica e rítmica da cabeça do samba, meio sombria, meio misteriosa, em perfeita sintonia com a narrativa e suas transições. Interessante como o samba optou por resolver a epopéia mítica já nessa primeira parte com: Onça celeste reluzente na constelação / Criou o homem por amor / Provou da ingratidão / Chuva de fogo… / Lá vem trovoada… / Deságua o pranto para renascer / O sol e a lua, Cuarací e Jaci / No sangue a luta de Maíra e Sumé / Pois devorar é saber seguir”; daí em diante, é só balanço e porrada. O trecho a seguir, além do ritmo irresistível, traz surpresas na linha melódica e harmônica, principalmente na segunda parte em que declama alguns dos povos indígenas — “Tem Kayapó, ritual Araweté / É Juruna é Pataxó / Bororó, Wari, Mawé” — encaixando a bela sequência “Se é magia tem fumaça / Um banzé de histórias do meu Brasil / Um Grande Rio aonde a flecha caiu”. O próximo segmento junta pajelança e macumba — incluindo referências a pontos do caboclos — para contar a difusão cultural da onça. É aí que vem a espetacular transição para o refrão de cabeça: “Eu vi a terra tremer… Jaguará, Maracajá / Eu vi a terra tremer… Juremê… Okê.. Ofá” — versos concisos e poderosos, que invocam onça, cabocla, Ogum e Oxóssi. Finalmente, o refrão perfeito, que celebra uma espécie de aliança antropofágica-decolonial encantada: “Bate o cajado no chão… / Deixa rugir o tambor /Caxias encarna… / Um povo devorador / Pro nosso mundo não se acabar / A encruzilhada protege o luar”.
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Elias Bililico, Dunga, Doc Santana, Dinny da Vila, Sergio Daniel e Henrique Tannuri Na disputa do ano passado Dunga (e Sérgio Daniel, acompanhados também por Toninho Geraes) já tinham defendido um sambaço que merecia ter vencido a disputa contra o — ótimo— “hit quitandinha”. Fizeram outra pancada. O início grandioso, com “O velho bateu forte o seu cajado” já faz pensar nas possibilidade que Mestre Fafá teria para brincar. Melodicamente, o samba é todo impecável. Na letra, fez a escolha de não seguir à risca a narrativa épica proposta na sinopse, “pulando”, por exemplo, da primeira destruição para um simples “Mas trovejou, relampejou / Fez a semente florescer / No horizonte o eterno renascer”. A solução encontrada acabou exagerando na simplificação e pede um ajuste, caso seja a obra escolhida. O primeiro refrão é um dos melhores da safra: “Auê…Auê Cuaraci cocar de fogo / Queima o sol no infinito nas cantigas do pajé / Auê…Auê brilha a lua de Jaci / Cai a noite nas batalhas de Maíra e Sumé”. O destaque no trecho seguinte é o pré-refrão com pegada de samba bem tradicional — “Flecha de caboclo, som da mata que me guia / E o faro do animal no batuque da folia…” — que encaixa muito bem no refrão de cabeça simples e eficiente ao sincretizar onça e escola: “Jaguaretê caçador sou Grande Rio / Minhas pegadas deixam marcas nesse chão / Virei “Onça Encantada” na aldeia / Sangue de Tupinambá na veia”.
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Paulo Onça, Paulo Cesar Feital, Jefinho Rodrigues, Marquinho Índio, Ricardo Cabral, Yedo Simões A parceria que tem seu próprio “Onça”, grande compositor amazonense, se destaca muito pelo trabalho meticuloso com o enredo, como de praxe quando o nome de Feital — outra fera — está envolvido. O samba começa com a narrativa da criação através de uma melodia doce: “A criação do mundo é encantaria Que o Velho Deus, supremo, fez brilhar / Viver é metafórica antropofagia Herança da visão tupinambá”. Esse trecho, no entanto, pedia mais sintonia entre melodia e narrativa — “O caos fez a dor navegar” — por exemplo, é cantado alegre demais. O samba entrega essa sintonia logo adiante, com os belos versos “É aí que Cuaracy no firmamento foi reinar / No infinito com Jaci foi namorar / Que engravidada de amor, clareia!” e com o primeiro refrão “Urucum e jenipapo tingem o corpo Brasileiro / Somos todos uma tribo sob a luz desse cruzeiro / Pataxós, kamaiurás, guajajaras, guaranis / Frutos nativos da mesma raiz”. Gostei muito da relação que a letra estabelece entre a transmissão da cultura popular da onça (“É ponto de caboclo, versos de cordel / É côco e barroco, som de menestrel…”) e a decisão do povo de se levantar contra a “ingratidão”, pra concluir com “E o samba, em prantos germina / A rosa vermelha da libertação”. O refrão reforça essa ênfase revolucionária e ainda homenageia a escola com lindos versos finais, além de mencionar a lua — elemento compartilhado entre este e antigos enredos da Grande Rio: “Bate o cajado nesse chão, ôô luar / Pra fazer revolução, iluminar / Mergulhei na grande Rio, correnteza de paixão / Lá vai meu coração”.
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Meu palpite
Dessa vez vence a parceria João Diniz, Jailson da Grande Rio, Fabrício Fontes, Fred Camacho, Diego Nicolau e Francisco Aquino. Chegam a final a parceria Igor Leal, Arlindinho Cruz, Diogo Nogueira, Inácio Rios e Gustavo Clarão (+Federal) e a parceria Elias Bililico, Dunga, Doc Santana, Dinny da Vila, Sergio Daniel e Henrique Tannuri. Parceria Paulo Onça + (Feital e cia.) pode chegar; ou mesmo a parceria Thiago Meiners, que também apresentou um ótimo samba.
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- 2026-07-20 10:21:28