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“Vade retro, Satana”: como expulsar demônios?

2º DOMINGO NA QUARESMA

𝖁𝖎𝖆 𝕸𝖊𝖉𝖎𝖆 · 2026-03-01 04:11 · 54 claps · 13.4 min read
#batalha-espiritual #exorcismo #demônios #diabo #tentação
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Wiki topics: 🧘 · Spirituality

“Vade retro, Satana”: como expulsar demônios?

2º DOMINGO NA QUARESMA

Cena inicial do filme “Constantine” (2004), um clássico cult pelo qual eu era obcecado na infância.

Cena inicial do filme “Constantine” (2004), um clássico cult pelo qual eu era obcecado na infância.

Antes de começarmos, é bom avisar que este texto não foi feito para você que não acredita em demônios ou magia. Hoje vamos entrar na toca do coelho pela primeira vez.

Esse ano comecei uma nova tradição quaresmal: assistir filmes sobre exorcismos, demônios e etc. Domingo passado assisti “Constantine” (2004), e hoje assisti “O Advogado do Diabo” (1997), um dos terrores da minha mãe. Quem me conhece sabe do meu interesse por essas temáticas, e de que brinco (embora com boa dose de verdade) que adoraria ser um exorcista. E com esses filmes, estou com o Diabo na cabeça.

Na verdade, a maior parte da população global tem algum tipo de Diabo na cabeça:

John Pilch sugere que hoje 90% do mundo aceita tanto a “realidade comum como a realidade incomum”, esta incluindo Deus e os espíritos. Além disso, a antropóloga Erika Bourguignon mostra que a convicção da possessão por espíritos é comum em culturas variadas no mundo todo, “como qualquer leitor de etnografia sabe”. Já há quatro décadas, ela conseguiu atestar convicções de possessão por espíritos em quase três quartos de sociedades representativas estudadas; alguns estudos subsequentes falam sobre estados alterados de consciência em cerca de 90% de sociedades. Diversas culturas oferecem um conjunto de matrizes interpretativas para essas experiências, embora a sua experiência muitas vezes produza algumas convicções semelhantes até mesmo em sociedades muito diferentes.

Muitos missionários presbiterianos do início do século 20 na Coreia aprenderam no seminário que os espíritos não eram reais, mas a maioria passou a pensar de outra forma no contexto de ministério ao lado de cristãos coreanos locais. Uma geração atrás, o notável missiólogo ocidental Stephen Neill advertiu que era quase impossível convencer os cristãos da maior parte do mundo “de que espíritos malignos não existem”. Mais recentemente, o missiólogo peruano Samuel Escobar relatou uma conversa com um professor autóctone da floresta peruana. Quando pessoas locais perceberam demônios na tradução do linguista ocidental de Marcos, o linguista ocidental explicou que esses espíritos eram somente para o primeiro século. Embora o professor local respeitasse o linguista, no entanto, ele insistiu que o seu ambiente local combinava melhor com o que encontrava no Evangelho de Marcos: “sabemos que realmente há demônios e espíritos; eles estão por aqui”.

O estudioso africano John S. Mbiti repudia a ignorância de ocidentais que negam espíritos e feitiçaria, que são realidades locais. Os africanos muitas vezes relatam confrontos com espíritos como experiências genuínas. Um médico de Gana treinado no Ocidente, por exemplo, viu o seu braço paralisado por eletricidade durante algumas horas após tocar um paciente que havia consultado sacerdotes fetichistas. Incidentes de batalha espiritual têm alavancado o crescimento de igrejas; assim, dezenas de milhares de seguidores de religiões tradicionais se tornaram cristãos após personagens africanos do início do século 20 como Garrick Sokari Braide ou William Wadé Harris terem se posicionado contra os poderes espirituais mais antigos. Tais incidentes de batalha espiritual são amplamente relatados na difusão do cristianismo em outros lugares, como no Haiti, na Índia e nas Filipinas. Em muitos casos, esses embates de batalha espiritual até mesmo levaram sacerdotes de religiões tradicionais à conversão ao cristianismo. Não é surpresa alguma que essas experiências influenciam como cristãos abordam o que eles consideram relatos análogos no texto bíblico. Em uma revista teológica africana, um autor luterano da Tanzânia escreve: “O fenômeno de possessão demoníaca é uma realidade difícil com a qual um grande número de cristãos da África Oriental luta diariamente”. Consequentemente, em contraste com os ocidentais, africanos da África Oriental ouvem “os relatos bíblicos […] não como mitos, mas como relatos objetivos de experiências reais”. [1]

A feitiçaria é tão real para muitas dessas sociedades quanto os espíritos malignos:

Apesar de abusos e exageros frequentes sobre o assunto, algumas pessoas em muitas sociedades africanas procuram praticar a feitiçaria com objetivos maldosos, como é inevitável em culturas que acreditam em feitiçaria. Qualquer que seja o real grau de eficácia, os próprios praticantes, e muitas vezes a maioria das pessoas da cultura, acreditam em sua eficácia. Apesar do estigma em muitos lugares, algumas confissões de assassinato por feitiçaria aparecem em várias sociedades.

Um conferencista ocidental, após ter negado a existência de feiticeiros, foi corrigido por um estudante africano que observou que era feiticeiro e acreditava que tinha um registro efetivo de ter matado pessoas por meio da feitiçaria. Muitos outros acreditam que a feitiçaria no contexto deles mata. Mortes por vodu, associadas com espíritos, são um fenômeno real, embora observadores ocidentais, geralmente buscando explicações psicológicas e não espirituais, tipicamente as associem ao terror.

Missionários ocidentais da Europa “desobrenaturalizada”, que haviam declarado como herética a crença na feitiçaria por causa de seus excessos anteriores, muitas vezes ensinavam ideias impraticáveis para um contexto africano. Pessoas locais muitas vezes não confiavam em missionários tradicionais porque estes ignoravam a feitiçaria. De fato, as convicções quanto à feitiçaria cumprem papéis em sociedades que, se não forem tratadas por novas culturas religiosas, podem persistir e crescer.

Embora o uso prejudicial do poder espiritual possa adquirir formas diferentes em contextos diferentes (conquanto nem todos exercem o mesmo grau de poder), acusações locais inadequadas e respostas a acusações podem levar os ocidentais a rejeitar apressadamente todas as convicções autóctones sobre a feitiçaria. O poder espiritual negativo e às vezes os confrontos de batalha espiritual com os seus praticantes aparecem em diversos textos bíblicos (incluindo Êx 7.10–12; Mt 24.24; Mc 13.22; At 8.9–13; 13.8–12; 19.11–20; 2Ts 2.9; Ap 13.3); os primeiros séculos do cristianismo são profícuos em incluir histórias ainda mais elaboradas de batalha espiritual. [2]

Minha família, como uma boa família latino-americana, tem também o seu histórico de envolvimento com esses assuntos, e crescido num contexto carismático, e tendo visto e ouvido muita coisa (mais do que gostaria), sei bem que o Demônio é real, e também tenho um grande interesse pelos símbolos e linguagens das artes mágicas, ocultas, etc. Pode parecer um contrassenso, mas eu sou uma das últimas pessoas de quem você deveria esperar ceticismo em relação a isso.

Por isso, decidi retomar o assunto neste 2º domingo na Quaresma. Acho a Quaresma apropriada para tratar dessas questões do oculto (embora a questão da maldição da mulher do padre seja algo que eu deixo para as minhas aulas de Ensino Religioso).

Além disso, no domingo passado, meditamos sobre a tentação de Cristo no deserto e seu significado para a batalha espiritual da Igreja (aqui). Como uma possibilidade de texto para hoje é a cena da transfiguração conforme S. Mateus (Mt 17,1–8), uma cena que ocorre depois de Pedro repreender Jesus e ser chamado de “Satanás” por conta disso (Mt 16,23), me ocorreu que seria oportuno escrever um pouco mais sobre como podemos lidar com ataques demoníacos.

Bem, o primeiro ataque demoníaco que devemos considerar é o da tentação.

A tradição ascética cristã tendeu a preferir a palavra logismos para designar as tentações, já que significa o processo de pensar ruidosamente por dentro, analisar, julgar, o pensamento turbulento e caótico característico da hesitação diante da tentação, a vontade dividida.

Apesar de entender isso, prefiro o termo usado na Escritura, que em geral prefere peirasmos e o verbo peirazo, que tinham ambos um sentido predominantemente experimental e prático, e não tanto subjetivo e malicioso. Significavam “fazer uma tentativa”, “testar a qualidade de algo” ou “pôr à prova”. Um ferreiro faria um peirasmos em uma lâmina para verificar sua têmpera. Era usado para descrever o teste de um herói ou a investigação de uma hipótese. Não havia, necessariamente, uma conotação de “sedução para o mal”, mas sim de verificação de resistência.

O nosso termo “tentação”, em contrapartida, carrega uma carga negativa de induzir ao mal, como algo malicioso e negativo. Entender peirasmos dessa forma gera problema na leitura de textos como esses:

Meus irmãos, tende por motivo de toda a alegria o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé produz a perseverança. (Tg 1,2–3)

Bem-aventurado o homem que suporta a provação; porque, depois de aprovado, receberá a coroa da vida, que o Senhor prometeu aos que o amam. (Tg 1,12)

Nisso exultais, embora no presente, por pouco tempo, se necessário, sejais contristados por várias provações, para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece, embora provado pelo fogo, redunde para louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo. (1Pe 1,6–7)

Amados, não estranheis a ardente prova que vem sobre vós para vos testar, como se coisa estranha vos acontecesse. (1Pe 4,12)

Não vos sobreveio tentação que não fosse humana; mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar além do que podeis suportar; pelo contrário, com a tentação dará também o livramento, para que a possais suportar. (1Co 10,13)

Porque guardaste a palavra da minha perseverança, também eu te guardarei da hora da provação que há de vir sobre todo o mundo, para pôr à prova os que habitam sobre a terra. (Ap 3,10)

Pela fé Abraão, sendo provado, ofereceu Isaque; sim, aquele que recebera as promessas ofereceu o seu unigênito. (Hb 11,17)

Observe como, nesses textos, a provação tem um caráter mais positivo que negativo: ela vem como uma lição que mostra os limites da pessoa, os estende e manifesta as virtudes já alcançadas. Note que é Deus quem testa Abraão a entregar Isaque, não o Diabo; o teste ou provação não é algo negativo por si mesmo, depende de outros fatores.

É interessante notar como Paulo prefere o termo thlipsis (‘tribulação”) para descrever o mesmo processo de Tiago:

E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações, sabendo que a tribulação produz a perseverança; e a perseverança, a aprovação; e a aprovação, a esperança. (Rm 5,3–4)

O termo thlipsis evocava a imagem física de pressão, aperto ou esmagamento, como o peso usado em um lagar para extrair o suco da uva. A imagem era de circunstâncias que espremiam e apertavam a pessoa tal como essas prensas de pedra. Em Paulo, o termo aparece ao lado de outras circunstâncias desafiadoras:

Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? (Rm 8,35)

Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados. (…) A nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente. (2Co 4,8.17)

Pois, quando estávamos convosco, vos predizíamos que havíamos de sofrer tribulações, como de fato aconteceu e vós o sabeis. (1Ts 3,4)

Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e o Deus de toda a consolação; que nos consola em toda a nossa tribulação, para que também possamos consolar os que estiverem em alguma tribulação. (2Co 1,3–4)

No relato em questão, Paulo e sua equipe chegaram ao extremo de perderem as esperanças de saírem vivos, e isso era para que “não confiássemos em nós mesmos, e sim no Deus que ressuscita mortos, o qual nos livrou e ainda nos livrará de tão grande morte” (v.9–10).

Ou seja, como podemos ver, peirasmos e thlipsis fazem parte de uma família maior de palavras que descrevem situações desafiadoras diversas, que testam nossas virtudes e resistências a pontos novos, podendo ter resultados positivos e sem necessariamente alguma conotação negativa de indução à tentação. Isso fica ainda mais claro quando vemos que o próprio povo poderia testar ou desafiar a Cristo (1Cor 10,9).

Não é de se admirar, portanto, que não haja em Paulo qualquer tecnologia para resistir às provações; a ênfase de Paulo é muito mais na ação de Deus do que na nossa:

Estas coisas aconteceram com eles para servir de exemplo e foram escritas como advertência a nós, para quem o fim dos tempos tem chegado. Por isso, aquele que pensa estar em pé veja que não caia. Não sobreveio a vocês nenhuma tentação que não fosse humana; mas Deus é fiel e não permitirá que vocês sejam tentados além do que podem suportar; pelo contrário, juntamente com a tentação proverá livramento, para que vocês a possam suportar. (1Cor 10,11–13)

Aqui podemos ter certeza que Paulo está pensamento na provação do pecado: ele lista vários exemplos de pecados comunitários de Israel no deserto como coisas que atraíram a ira divina contra o arraial. A parte interessante aqui é que, segundo Paulo, a provação vem acompanhada de um “escape” que a torna suportável. O fato de que ele provê “com” a provação e para que você a suporte indica que se trata de uma circunstância atenuante no contexto da própria provação. Uma pista de que estamos no caminho certo se encontra antes, no capítulo 7:

Por causa da imoralidade, cada homem tenha a sua esposa, e cada mulher tenha o seu próprio marido. (…) Não se privem um ao outro, a não ser talvez por mútuo consentimento, por algum tempo, para se dedicarem à oração. Depois, retomem a vida conjugal, para que Satanás não tente vocês por não terem domínio próprio. E digo isto como concessão e não como mandamento. Gostaria que todos os homens fossem como eu. No entanto, cada um tem de Deus o seu próprio dom; um, na verdade, de um modo; outro, de outro. E aos solteiros e às viúvas, digo que lhes seria bom se permanecessem no estado em que também eu vivo. Mas, se não conseguem se dominar, que se casem; porque é melhor casar do que arder em desejos. (1Co 7,2.5–9)

A lógica da provação por conta da falta de domínio próprio num contexto de imoralidade, por um lado, e a origem divina do desejo sexual, de outro, levam Paulo a oferecer uma alternativa: o casamento. Ele funciona, aqui, como um escape, uma forma de suportar os desafios de um contexto extremamente estimulante, de um lado, e de uma constituição sexualmente ativa, de outro. Paulo reconhece um teto imposto pela natureza, que é “dom de Deus” aqui; apesar disso, a sexualidade tem seus próprios desafios, e o casamento também, a ponto de Paulo chamá-los de “tribulação na carne” (v. 28) que seria bom evitar, mas nem sempre é possível.

Ou seja, vemos aqui algo bem diferente da disciplina ascética que veio a imperar na tradição depois, e que a Reforma criticou duramente quando tratava dos votos monásticos. Em Paulo, a saída para as provações é uma provisão divina, uma ajuda ou apoio que alivia a carga e torna possível suportar. Pode ser o consolo do Espírito em meio às perseguições, a ajuda para fugir em outras, ou o casamento num ambiente com muito apelo sexual mas que apresenta riscos de idolatria por associação.

Isso é bem diferente de citar textos bíblicos mentalmente quando você olha alguém na rua e acha bonito.

Não só a visão é outra, como a orientação bíblica é bem mais sóbria e modesta sobre as tentações, e há também uma ênfase na esperança de restauração:

Quem é você para julgar o servo alheio? Para o seu próprio dono é que ele está em pé ou cai; mas ficará em pé, porque o Senhor é poderoso para o manter em pé. (Roms 14,4)

Mas podemos ser atacados de forma mais direta pelo Diabo e os demônios para além das tentações. Todo carismático sabe bem do tipo de coisa que estou falando, daquela “opressão” nitidamente espiritual que sentimos em determinadas circunstâncias, ambientes ou companhias, e até mesmo manifestações explícitas dos demônios. O que fazer nesses casos?

Bem, os Evangelhos não nos dão muitos detalhes práticos sobre a execução dos exorcismos, além do comando de Cristo para a saída dos demônios. Em certa situação, Cristo se interessa pelo nome dos demônios (Mc 5,9), mas isso não parece ter relação com o exorcismo, já que ele já os estava expulsando; os demônios podem resistir e tentar não sair (Mc 5,6–10), e em alguns casos talvez possa haver fracasso no exorcismo pela falta de fé e oração (Mc 9,18.19.28–29); o texto, todavia, não parece acusar os discípulos de incredulidade, e sim a geração: a exortação para “ter fé” é dirigida ao pai, que roga por mais fé; ao final, os discípulos se aproximam perguntando porque haviam fracassado, e no caso deles, faltava oração, e não fé.

Aqui é importante fazer um adendo: embora frequentemente se diga isso, a Escritura nunca diz que existem demônios que só saem com jejum e oração, e sim “com oração”. A frase “e jejum” é um acréscimo posterior:

À luz da crescente ênfase dada ao jejum, na Igreja Antiga, é compreensível que um copista tenha acrescentado ao texto, em forma de comentário, a locução καί νηστεία (e com jejum ), que acabou por fazer parte do texto da maioria dos testemunhos. Entre aqueles que se opuseram a esse acréscimo estão importantes representantes dos tipos de texto alexandrino e ocidental. [3]

O texto foi introduzido em Mateus posteriormente para uniformizá-lo com (a versão expandida de) Marcos:

Não existe razão suficiente que poderia ter levado copistas a omitir esse versículo num a variedade tão grande de manuscritos, caso fosse, originalmente, parte do texto de Mateus. Com frequência, copistas inseriam num Evangelho material que se encontra em outro. Neste caso, parece que o acréscimo de “Mas esse tipo não sai senão por meio de oração e jejum”, que aparece na maioria dos manuscritos, foi tirado do paralelo em Mc 9.29. [4]

A fala de Jesus só faz sentido se existirem segredos ou estratégias específicas para expulsar demônios, o que Jesus atribui à diferença de atributos e características entre esses espíritos: “essa casta só sai com oração”. A versão de Marcos pressupõe a existência de técnicas ou saberes especiais quanto ao exorcismo de demônios. Jesus parecia, então, ter conhecimentos específicos sobre o comportamento, a natureza, a origem e os atributos dos demônios, dominando uma série de técnicas para expulsá-los. Parece seguro deduzir que para além da autoridade espiritual, existe uma relação entre o exorcismo e esses conhecimentos específicos.

Como nem a tradição sinótica, nem as epístolas nos transmitiram muitos detalhes disso, temos que ser críticos e reconhecermos a relação direta dos exorcismos com os dons do Espírito, mais que com técnicas ou “santidade pessoal” de alguém. Lucas omite o versículo sobre jejum e oração, pois quer enfatizar a natureza carismática dos exorcismos de Jesus, e afirmar sua continuidade com os exorcismos da Igreja. Poucas técnicas podem ser tiradas com segurança do NT; existe sabedoria e revelação a respeito dos espíritos, mas nada sistemático.

Daí que, naturalmente, a tradição da Igreja possui um amplo repertório de ritos, técnicas, sacramentais e “carismas” eficazes no ministério de libertação. Nesse sentido, a batalha espiritual se baseia fundamentalmente na experiência da Igreja, como a maior fonte de repertório que temos. De fato, o movimento moderno da Batalha Espiritual, com seus erros e acertos, começou com experiências no campo missionário. Jesus era um exorcista, e como tal, a Igreja continua a realizar exorcismos, instruída por ele, para dar continuidade ao seu ministério no presente. Jesus se engajou em conflitos com demônios de sua época, e fez disso um elemento fundamental da sua missão.

Eu acredito que é nesse sentido que devemos pensar os diversos recursos de “proteção” da tradição: o nome de Cristo, a Eucaristia e o Batismo, o sinal da cruz, água e óleo bentos, o cântico de hinos, orações e medalhas de S. Miguel, S. Bento, S. Jorge, etc. Eu não vou explicar como cada um deles funciona, existe muita coisa na internet sobre isso. Meu ponto é que todos eles são manifestações poderosas do Espírito através das ordenanças da Igreja ou de pessoas com um carisma particular de libertação que possui efeitos até hoje; da mesma forma que o carisma apostólico de Paulo fala até hoje na Igreja, e o carisma didático de tantos Pais da Igreja e pastores moldou a fé do povo de Deus, porque as orações, hinos e objetos daqueles dotados com dons de maravilhas, curas e exorcismos não poderiam ter o mesmo efeito? Andando sempre juntas, não vejo motivo para negar essa possibilidade para as três coisas (cf. At 14,3; 19,11–12).

Sem entrar numa discussão sobre magia, bruxaria, espíritos, demônios, encantamentos e outras coisas do gênero, ou no esoterismo cristão e outros saberes ocultos (isso eu só converso no WhatsApp), basta dizer para finalizar que, diante de todos esses perigos, o Senhor é poderoso para nos proteger, mas Ele dispensa essa proteção através do Seu povo, para que “não haja divisão no corpo, mas para que os membros cooperem, com igual cuidado, em favor uns dos outros” (1Cor 12,25–26). Aquele que enfrenta o Diabo sem a tradição é como aquele que vai para a guerra sem um exército, treinamento e armas.

Busquemos, pois, refúgio sob as asas do Senhor em meios às provações e tribulações do mundo, da carne e do Diabo, pois “depois de vocês terem sofrido por um pouco, ele mesmo irá aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar vocês” (1Pe 5,10).

NOTAS

[1] KEENER, Craig C. “A hermenêutica do Espírito Santo” (2018), s.p.

[2] Ibid., sp.

[3] ROGER, L. “Variantes textuais do Novo Testamento grego”, p. 82.

[4] Ibid., p. 27.


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