A política da fé: “os evangélicos escolheram um lado”
O OVA realizou 5 perguntas para o professor Paulo Vaz, da UFRJ, que estuda política, influenciadores digitais e evangélicos…
A política da fé: “os evangélicos escolheram um lado”
O OVA realizou 5 perguntas para o professor Paulo Vaz, da UFRJ, que estuda política, influenciadores digitais e evangélicos neopentecostais.
Por: Inácio de Carvalho

Design por: Lívia Oliveira
Nas eleições presidenciais de 2018 e 2022, um grupo chamou atenção nas disputas de poder, a bancada evangélica, formada predominantemente por uma perspectiva neopentecostal. Segundo a Agência Brasil, em 2018 foram eleitos 91 parlamentares da bancada evangélica, somando deputados federais e senadores. Em 2022, a bancada triplicou, ocupando 234 cadeiras, de acordo com a Câmara Legislativa.
A partir desse movimento crescente de políticos evangélicos, os professores Dr. Paulo Vaz da UFRJ e a Dra. Cristina de Melo da UFPE buscam investigar as razões de que maneira ocorre a interseção entre a população, os políticos evangélicos e as redes sociais, em especial os influenciadores. A partir desse estudo em conjunto produziram os artigos: “Povo abençoado! Política e fé no meio dos influenciadores evangélicos brasileiros” e “Guerras culturais: Conceitos e Trajetórias.” Aprofundam os estudos acerca da midiatização e câmara de eco que os entrelaçam, não apenas voto ou uma relação que ocorre durante o processo eleitoral, é praticamente um estilo de vida.
As relações entre o sagrado e a política estão além do voto e dos parlamentares que ocupam os cargos. As redes sociais e a mídia cumpre um papel social de conexão e renovação de ideias. Demonstra uma linha de pensamentos e estilo de vida de uma parte dos brasileiros que está em crescente. Ao ponto de tornar o Brasil o país com a maior população de fieis neopentecostais do mundo, de acordo com a Folha de São Paulo. Para entender melhor sobre o assunto realizamos 5 perguntas ao professor Paulo Vaz, segue a entrevista:
OVA- 1- Em 2018 e 2022, os evangélicos estiveram nos principais lugares de disputa eleitoral, isso vai se repetir este ano ou há alguma diferença?
Eu tenho a impressão que a gente vai ter uma situação semelhante, uma escolha de lado pelos evangélicos. O que aconteceu desde 2016, mais ou menos, 2014, 2015, 2016, é que os evangélicos passaram a escolher um lado por uma série de razões, entre elas porque o governo do PT sustentou uma série de medidas que incomodavam aos evangélicos, medidas de transformação moral e que os evangélicos se rebelaram. Escolheram um lado que trouxe o lado dos conservadores e tenho a impressão que isso vai permanecer.
OVA- 2- De que maneiras influenciadores digitais e famosos convertidos, como Baby do Brasil e entre outros, impactam nas decisões políticas ou não tem nenhuma relação?
O que a gente percebe com muita clareza é que eles não definem, a relação que eles estabelecem com o seu público é uma relação basicamente terapêutica, uma relação de permitir aos seus ouvintes, ao seu público, compreender e dar sentido ao sofrimento.
Então, na verdade, o vínculo não é político, ele pode se tornar político. Por exemplo, o que eu acho que deve acontecer é que você mantém uma relação de confiança entre o público evangélico e o influenciador, e essa relação de confiança foi estabelecida e funciona a partir de relações terapêuticas ou mesmo de relações artísticas.
OVA- 3- A teologia da prosperidade é a ponte que liga política, redes sociais e religião?
Eu certamente acho que o vínculo específico dos pastores neopentecostais com o seu público se dá pela teologia da prosperidade. O tempo todo eles falam, naquele começo no Instagram, eles falavam, como era possível ao seu público melhorar de vida, através da fé. E a única coisa que eles pediam é que nunca se perdesse a fé, mesmo que a vida não melhorasse, porque um dia chegaria a prosperidade.
OVA -“Quem espera sempre alcança”
Exatamente. Então a teologia da prosperidade organiza a relação diária, mas eu acho que a relação política e os pastores mais politizados vão se organizar também segundo uma teologia do domínio, que é aquela que tenta mostrar como é preciso uma espécie de sociedade organizada segundo valores cristãos. E aí você tem uma tendência a querer, num sentido mais extremo, dominar a sociedade ou quase que instalar uma teocracia.
OVA- 4- É possível localizar grupos progressistas dentro da ala neopentecostal?
Eu não sei se dentro da ala neopentecostal, mas certamente existem pastores que são progressistas. Você tem uma associação clara entre a teologia da prosperidade e uma atitude individualista e quase que neoliberal, só que um neoliberalismo onde o mérito consiste na fé.
Então certamente você vai ter uma dificuldade de ter pastores progressistas associados à teologia da prosperidade, porque a teologia da prosperidade vai ter essa dimensão muito pouco coletiva, enquanto que certamente você espera de pastores progressistas que eles tenham uma associação social maior, mais coletiva. A minha impressão é que os pastores progressistas tenderão a se organizar de outro modo que não segundo a teologia da prosperidade.
OVA 5- Existe uma relação entre fé e fake news?
Certamente existe um problema em você acreditar em Deus, porque acreditar na ciência é fácil. Não é que seja fácil, mas pelo menos a ciência trabalha com o que é dado na experiência, com o que é visível, com o que se torna visível a partir de procedimentos.
Então, a ciência trabalha com coisas empíricas. Deus é, por definição, invisível e mantém uma visibilidade essencial. Ainda mais um Deus que vem do protestantismo, que não tem nenhum tipo de repercussão imagética nesse mundo.
Ele não pode ter representação. Então, como você acredita? Como você sabe que existe um Deus que é uma entidade invisível? Não é como o vírus da covid que eu tento encontrar modos de falar que ele existe. Como é possível? Uma das formas como você consegue fazer isso é que a forma de garantir a crença em Deus é intersubjetiva.
Cada pessoa pode ter uma espécie de experiência do divino. Sentiu Deus quando rezava, sentiu Deus quando ouviu uma música. Mas como ela garante que realmente era Deus? É pelo testemunho, pela comprovação que é subjetivo.
Então, por que isso favorece as fake news? É porque você tem uma situação onde essa comunidade de fiéis tem uma sensação de luta contra a sociedade que tem outros valores e que talvez não acredite no que ela acredita. Então, ela desconfia dessa outra parte da sociedade. E, por outro lado, ela precisa manter a confiança no seu próprio grupo.
Essa é a condição essencial para ter fake news. Que você tenha uma espécie de manipulação da confiança. Você confia nos seus próximos, especialmente se a proximidade é moral e política, e desconfia das fontes externas.
É interessante ver como que vários pastores se dirigem ao dos evangélicos, separando nós-eles, para o povo abençoado, que não são todos os brasileiros, só aqueles apenas que Deus teria escolhido.
Então, essa separação nós-eles, para mim, a meu ver, essa desqualificação das fontes externas, é o que faz com que um grupo acredite no que ele quer acreditar. E as fake news são exatamente aquilo que você quer acreditar. Ou seja, de outro modo, existe uma proximidade estrutural entre as comunidades evangélicas e câmaras de eco, que são um dos lugares onde mais facilmente se tem proliferação de fake news.
메타데이터
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