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Barulho que Abraça

Já tem um tempo que não escuto falar dos poderes incríveis do ASMR para a mente humana, talvez porque, sei lá, o papo ficou meio 2024 para…

Flavio Braga in Um Blog de Nada · 2026-06-30 23:06 · 0 claps · 3.4 min read
#crônicas #cotidiano #asmr #comportamento #rio-de-janeiro
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Barulho que Abraça

Já tem um tempo que não escuto falar dos poderes incríveis do ASMR para a mente humana, talvez porque, sei lá, o papo ficou meio 2024 para as redes e tenho reparado numa diminuição das discussões em torno do dito cujo, que apareceu do nada, percebido talvez pelo barulho que fez — que pode ser desde o de gente comendo, de chuva para ajudar a dormir ou até o “ai, ai, ui, ui” da sussessage (sim, queridos, há ASMR pornô. Um amigo meu, que vocês não conhecem, vez ou outra dá uma olhada nos sites de pouca vergonha me contou que o fenômeno chegou por lá). Será que o assunto não faz mais tanto barulho como fazia ou tá sendo mais discreto?

Enfim.

O que reparei desde que o assunto ficou em voga é que as pessoas buscam um barulho que lhes traz paz e tranquilidade, e acredito eu que isso muito tem relação com as memórias agradáveis que as pessoas possuem e que esses barulhos as levam para um tantinho de nirvana (a sensação de bem-estar, não ao show da banda) bem particular. Bem, é uma leitura que tenho e confesso que não pesquisei a respeito por não ser um assunto que me cause curiosidade em como esses ruídos agem na nossa mente. Porém, me fiz a pergunta “quais seriam meus ASMR?” para refletir a respeito. Embora seja uma direção bem pouco científica partir da minha percepção particular para tentar chegar a conclusão de algo que congrego com milhões de pessoas, confesso que quis deixar o “Flavio-cientista” de lado nesse texto porque não é a minha intenção discorrer sobre o fenômeno em si, mas fazer uma pequena viagem ao meu eu. Portanto, fiquei pensando a respeito nos últimos dias.

Tudo isso partiu do vai-e-vem de um balanço que precisa urgentemente de um WD-40, que possa fazê-lo parar com aquele NHEEEC NHEEEC que deixa muitas pessoas nervosas. Um final de tarde de domingo, um passeio até a Praça de Quintino com a patroa para beber uns biricutico e comer algum petisco. A praça cheia de vida, com as crianças brincando, usando os brinquedos da praça e nada de celular nas mãos. Seria esse o Paraíso pintado num hipotético folheto das Testemunhas de Paulo Freire sobre a educação das nossas crianças? Acredito que sim, falando com toda propriedade de um freireano, brizolista e suburbano. Não tem como não lembrar da placa simples, mas de beleza ímpar da amiga artista plástica Roberta Domingos que está na porta da minha casa com os dizeres “Nascido no subúrbio nos melhores dias”, do clássico “Espelho” de João Nogueira. Por mais que o NHEEC NHEEC do balanço incomode, ele é um barulho, que me lembra outro barulho — no caso, um senhor barulho, que é um dos meus sambas prediletos.

O barulho do balanço consigo escutar do meu apartamento, que fica a uns 300 ou 400 metros da praça e com a linha ferroviária cortando essa reta. Mas nem o barulho do trem que é um barulhão impede minha escuta. Estando ainda mais perto então, de frente para a praça, tomando um refrigerante (estou evitando beber, por motivos de saúde e, principalmente, por motivos exuzísticos que já expliquei em algumas oportunidades), o barulho do trem ao passar converte-se em simples zumbido. O barulho do balanço da Praça de Quintino poderia ser um estranho ASMR que talvez nem meus amigos suburbanos convictos entenderiam. Mas ele me traz tanta coisa que não pode ser classificado como um “barulho” ou “barulho de ASMR”. Ele, como disse, é um barulho que traz trilha sonora. Mas seu NHEEC NHEEC significa vida, porque se há barulho no balanço, há criança por ali. E até quando, no auge da madrugada o escuto, quem me garante que não seja o São Jorge da escultura que abençoa catolicamente a praça dando um descanso ao seu corajoso cavalo, ou Seu Zé Pilintra saindo um pouco da sua pose de malandro e, aproveitando um breve momento tranquilo das terras quintinescas e dando asas a sua criança interior? Desconfio até que a estátua do Galinho de Quintino dê algum descanso à memória da classe e ginga do Zico para se render ao balanço tranquilo e barulhento do balanço que fica no cercadinho atrás dele. Sendo das crianças, de quem as protege ou de quem pode inspirá-las, não me importa muito. O barulho traz vida. Se traz vida, traz sorrisos, felicidade e memória afetiva.

Posso me atropelar nas minhas orações e preces a Deus, aos santos, aos ancestrais. Mas sou de pedir pouco, apesar de insistentemente, pois o mundo tem moído mente e corpo. E a esses pedidos adiciono a insistência em ver vida e abrir um sorriso nas pequenas coisas de um cotidiano que às vezes parece pouco poético.

E quando eu me sentir sem direção e sem sentido em dias cinzentos, que o NHEEC NHEEC do balanço me leve a lugares mais agradáveis e me dê força para insistir em enxergar a beleza do que me cerca.


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2026-07-09 09:29:37