o sonho do bravo guerreiro do mar
O que faz do sonho de Usopp tão singular no anime e tão distinto dos sonhos do restante do bando dos Chapéus de Palha?
o sonho do bravo guerreiro do mar
O que faz do sonho de Usopp tão singular no anime e tão distinto dos sonhos do restante do bando dos Chapéus de Palha?
*Observações:
1. Este texto é um ensaio pautado em uma análise pessoal do anime até o episódio 650 — arco de Dressrosa. Vale ressaltar que acontecimentos de episódios posteriores não estarão contemplados.
2. Há avisos de spoilers com o número dos episódios dos acontecimentos citados ao longo do texto, porém recomendo que o leitor tenha assistido pelo menos até o arco da Ilha de Drum (episódios 78 a 91) para melhor proveito da leitura.

1. O desenvolvimento de Usopp
Desde sua primeira aparição na história, no arco da Vila Syrup, sempre achei Usopp um dos personagens mais emblemáticos do anime. A princípio, é normal uma aversão do público pelo personagem, confesso inclusive também ter sentido essa aversão no início, afinal ele é, sem dúvidas, um personagem irritante, expansivo, e suas decisões podem desagradar a muitos dos espectadores. Isso sem contar em sua compulsão por contar mentiras e inventar histórias, característica que foge do padrão do herói em sua jornada nos romances, do personagem moralmente ético e do valente combatente. Usopp se diferencia por ir sendo construído como herói ao longo da trama, e não o contrário.
É um personagem que tem um crescimento muito claro ao longo do anime e que, com sua evolução e afeto que vamos criando por ele, arco após arco, vai ganhando credibilidade e (na visão de muitos) deixando de ser aquele pé-no-saco e figura irritante do bando que teremos que suportar pelo bem da história. Ele se fortalece, não só no sentido óbvio da força física necessária aos piratas na Grand Line, como ele mesmo coloca em uma fala durante a sua passagem pela Ilha dos Homens-Peixe, "*Um, dois, no terceiro passo que você der você levar um tiro de mim! … Oh homem, eu estou perdendo habilidade. Eu costumava blefar melhor no passado, mas agora eu posso realmente fazer essas coisas!", (SPOILER — ep.144–152) e observado pelo desenvolvimento de suas técnicas de combate e criação, passando do simples estilingue para o seu [Kabuto,](https://www.crunchyroll.com/pt-br/watch/GR2P572ER/give-us-your-answer-robin-the-straw-hats-outcry) estilingue desenvolvido a partir de técnicas aprendidas em Skypia, (SPOILER — ep. 517–522) e, em seguida para o [Kuro Kabuto](https://www.crunchyroll.com/pt-br/watch/G68VMPQ16/the-beginning-of-the-new-chapter-the-straw-hats-reunited), um aprimoramento feito a partir de sua passagem nas [Ilhas Bowin](https://www.crunchyroll.com/pt-br/watch/GRX0MW856/the-friends-whereabouts-bridging-the-islands-and-vicious-vegetation). Usopp também se fortalece como elemento narrativo. Oda alimenta magnificamente a construção do personagem como recurso de alívio cômico — como em momentos em que uma batalha deve acontecer e todos se prontificam para enfrentar o perigo em questão, enquanto Usopp desenvolve a doença de não-posso-enfrentar-esse-vilão e se deita no chão melancolicamente. Justamente por essa característica, ele é também o ponto humano dos Chapéus de Palha. Ele sente e externaliza o medo, como um ser humano sentiria naquela situação, ao contrário dos inabaláveis demais integrantes do bando, e é isso que o diferencia tanto. Apesar disso, Usopp não é um covarde. Especialmente na visão do Luffy. Afirmo isso, tendo em vista suas recorrentes afirmações sobre odiar pessoas covardes, seja para Koby no início do anime, (SPOILER — ep.517–574) seja para a Princesa Shirahoshi, a quem apelida de "[Princesa Covardoshi](https://www.crunchyroll.com/pt-br/watch/GY5VJMZ5Y/a-coward-and-a-crybaby-the-princess-in-the-hard-shell-tower)". Um covarde JAMAIS seria parte de seu bando. Trazendo uma análise de Fernando Gomes, arrisco ainda dizer ser Usopp um dos, se não o mais corajoso do bando. Isso justamente porque ele mostra coragem mesmo em frente ao medo. O que seria, então, um covarde na visão de Oda se não quem sente medo? Em determinada cena no início do anime, Koby fala pro Helmeppo que ele precisa começar a tomar responsabilidade e aceitar as concequências das decisões de vida dele e parar de culpar os outros porque quem faz isso é um covarde*. Se é isso que define um covarde, então o Usopp está longe de ser um. Covarde é quem não enfrenta a si mesmo, quem teme sua sombra e não se arrisca a encará-la. Esse contraste da definição de covarde e do medo proposto por Oda é um ponto alto do desenvolvimento do personagem do Usopp. Ele fala sobre auto-superação, e seu sonho tem muito a ver com isso.

Usopp se utiliza de suas mentiras para contornar as situações, tornando-as, não mais apenas desvarios seus, mas, de certo modo, realidade. Ele é um autor, contador de histórias e criador de mundos, possui uma capacidade inventiva necessária no bando. (SPOILER — ep.266–325, ep. 629–650), em Enies Lobby, ao apresentar *Sogeking, não mente sobre ele, e sim, cria sua existência. Tanto acredita na veracidade de Sogeking que nunca chega a apresentá-lo ao restante do bando como ele próprio, permanecendo uma entidade a parte, um alter-ego. Usopp acredita em suas realidades-fictícias, e suas tantas personas, o Grande capitão Usopp, Sogeking, Usoland*, todas elas são ele próprio. Numa analogia ao personagem Pinocchio, o grande nariz de Usopp relaciona-o às mentiras, mas diferentemente do personagem americano, seu nariz não volta ao aceitar a verdade e renegar sua mentira. Para Usopp, suas criações são sua realidade, e esse talento imaginativo é parte de sua força enquanto personagem na história.
2. A jornada e o sonho
Os sonhos de grande parte dos Chapéus de Palha são sonhos palpáveis, com uma linha de chegada clara e definida. Para se tornar o Rei dos Piratas, Luffy deve encontrar o One Piece. Para ser o maior espadachim do mundo, basta derrotar o melhor. Sonhos como conhecer o All Blue, cartografar o mapa mundi, achar a cura para as doenças, reencontrar uma baleia, conhecer sobre o Século Perdido ou construir um navio que possa navegar todos os mares, todos eles tem um fim e um modo simples de comprovar a reta final do sonho. Todos esses são possíveis de, aos serem conquistados, serem exibidos aos outros de forma a comprovar que realmente conseguiram realizá-lo, sem que ninguém o possa negar.

Mas o sonho de Usopp é diferente, afinal, não é algo que ele possa provar para alguém. Seu sonho de se tornar "o bravo guerreiro do mar" depende integralmente de sua autopercepção e autodefinição para se tornar real. É um sonho conduzido internamente a partir de sua definição de bravo guerreiro do mar. (SPOILER — ep.70–77) Essa definição, em minha visão, tem muito a ver com os gigantes. Constantemente ao longo do anime, Usopp se conecta fortemente com os gigantes, desde seu encontro com Dorry e Brogy em Little Garden, (SPOILER — ep.266–325) seja com Oimo e Kashii em Enies Lobby. Eles parecem representar o que o personagem acredita ser a definição de valente guerreiro do mar. Por mais, trazendo mais uma análise impecável de Fernando Gomes, na mitologia grega, os gigantes são criaturas que foram derrotadas pelos deuses do Olimpo com auxílio dos humanos. Seriam a síntese da união do divino com o homem, no anime, esbarrando em várias frentes como o destino e determinação (e habilidades como os Hakis), ou a união dos homens aos Akuma no Mi. São narrativas que contam sobre a convocação do heroísmo dentro dos seres humanos, o que resume muito bem a jornada do Usopp. Por mais, a ilha de Elbaf, a terra dos gigantes, é a ilha ansiada por Usopp desde seu primeiro encontro com eles, e arrisco ainda dizer que esse seu sonho se realizaria em uma suposta volta para Elbaf.
Dessa forma, seu sonho é absolutamente pautado em seu desenvolvimento pessoal — só pode alcançá-lo quando for capaz de superar suas fraquezas e medos e provar sua coragem, mas não para os outros, isso pouco importa, como já mencionei, para Luffy, Usopp já é corajoso, já é o valente combatente do mar. O que realmente importa é provar para si mesmo sua bravura, porque, apesar de poder mentir para todos, ele não pode mentir sobre isso para si mesmo. Para ele, acreditar em todas suas outras histórias é tão fácil, irrisório. Essas narrativas, para Usopp, já são reais. Mas seu sonho, uma coisa tão verdadeira e profunda, ele o deve perseguir, acreditar ser integralmente merecedor, para então se auto-conceder o título de bravo guerreiro do mar.

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