← Back to list

Aquilo ou aqueles que flutuam — Crítica de O tempo é um pássaro, de Yasmin Thayná

Por Vitu Senra

revista trajeto · 2024-02-15 19:21 · 0 claps · 3.5 min read
#mostra-de-tiradentes #yasmin-thayná #cinema-brasileiro #cinema-contemporâneo #japeri
Open on Medium ↗
Wiki topics: 🎬 · Film & Television

Aquilo ou aqueles que flutuam — Crítica de O tempo é um pássaro, de Yasmin Thayná

Por Vitu Senra

Cartaz do filme

Cartaz do filme

O filme abre voando, de onde o solo é tão imenso que não consegue se definir o que ali habita, sobretudo até onde aquele lugar pode alcançar. Com um recorte centralizado da rua feito por um drone, a abertura da obra já destaca a vista do bairro no alto e, logo, vemos uma rua como qualquer outra. Após essa cena, sentimos a aterrissagem com a mudança da perspectiva para o solo, no qual conseguimos encontrar de perto as pessoas que estão vivendo naquele território e a forma como narram suas histórias. O curta-metragem Tempo é um Pássaro (2024), de Yasmin Thayná, apresenta Japeri, cidade da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. O nome da cidade é originado da palavra Yaperi, termo tupi que significa “aquilo que flutua”, o que flerta diretamente com a proposta da direção em começar o filme com uma vista de cima. O filme inicia não só um olhar em torno daquilo que se é, mas também em torno daquilo que se busca ser. Assim sendo, a protagonista, uma jovem mulher, interpretada pela atriz e cantora Mc Lizzie, está constantemente presa em seu desprazer. Percebe-se que a personagem está em um conflito por não se sentir pertencente a si, ao seu bairro e a sua família, como se ela tivesse deixado algo para trás. Mas, ao mesmo tempo, mostra sua curiosidade em refletir e buscar uma saída.

Para brincar com o vazio que sente, a protagonista começa a observar o que está ao seu redor. A personagem passa a reparar no que faz sentido em sua rotina, em sua caminhada, na música em que escuta e em sua própria vontade de mudar. Ela se encara enquanto indivíduo que precisa se relacionar com sua forma de se expressar e sua necessidade de descobrir o outro. O filme flerta com a temporalidade de uma passagem do ambiente íntimo ao público: como se andasse em busca de alimento para quem tem fome, colo pra quem chora e o palco para dançar. Cada frame é potencializado por expressões da cultura periférica, na qual o carnaval e o funk se unem para reservar um contexto onde é possível uma virada da narrativa. Esse giro se dá quando se percebe que todas essas formas de viver já encontradas em Japeri podem ser também a construção do próprio refúgio buscado pela protagonista.

Igualmente, a obra não se prende apenas no discurso, mas propõe um roteiro que recupera o ouvir. Destaco tanto a eficiência de usar a trilha sonora para o progresso do filme, fazendo o som ser aliado nas cenas de ensaios e de folia, como o silêncio como forma de abraçar aquilo que ainda não foi dito ou encenado. Na construção do curta-metragem, a direção de Yasmin Thayná é como uma casa. O filme registra os questionamentos de quem está no lar e reitera a necessidade de estar de portas abertas para os encantos humanos e sua preocupação no que está por vir. Isso se traduz na fotografia: a imagem em câmera lenta, os planos fechados nos cômodos da casa e na culinária destacam a sensibilidade da trama.

Além disso, a manifestação de um grupo de bate-bolas aparenta ser marcada pela poética em torno do voar, o que no filme, busca não se reduzir somente ao subir sozinho, mas sim bater asas em bando. A partir do momento que a personagem questiona a solidão, o filme toma força. No momento em que ela abre o baú e encara sua fantasia de bate-bola, a jovem protagonista enfrenta seu medo de voltar a pertencer àquele coletivo de foliões, desvendando o que precisa para dançar com a noite e perceber que o amor também pode ser um combustível para o vôo. Toda relação de fazer festa, desde o quintal de casa até o baile funk nos leva a crer que saltar é para além do desejo de temer a altura, mas também o de estar junto e entender o fluxo. O Tempo é um Pássaro fortalece o sentido de vida com o desejo de permanecer nela de corpo inteiro, reverencia o encontro e as formas de ser e viver em Japeri. Os trajetos do filme são traçados pela imagem visual daquela região, onde todo canto, casa, rua, esquina ou baile é extremamente necessário para preservar a cidade. A forma como o filme coreografa cada cena a esperar o momento certo para dançar no ritmo da música, dos personagens e do subúrbio a fim de carnavalizar o mundo que é muito grande para se ver num só voo e descobrir o tamanho de vida que pode carregar em si. Pode-se dizer que o filme explora, por meio de cada cena, a importância da montagem como porta-voz daquilo que os próprios personagens não sabem como dizer, mas que seus corpos anunciam em cada pulsar. Em O Tempo é um Pássaro cada plano é um espelho no qual quem está vendo o filme pode se ver entre a cidade, a comunidade, a necessidade de se questionar, de buscar em si a identidade, a sexualidade, a dança e como tudo isso está reverenciando a novos esquemas de vivência e memória.


메타데이터
post_id
c06adce2ab65
slug
aquilo-ou-aqueles-que-flutuam-crítica-de-o-tempo-é-um-pássaro-de-yasmin-thayná-c06adce2ab65
url
https://medium.com/@trajetorevistatrajeto/aquilo-ou-aqueles-que-flutuam-cr%C3%ADtica-de-o-tempo-e%CC%81-um-pa%CC%81ssaro-de-yasmin-thayn%C3%A1-c06adce2ab65
canonical_url
https://medium.com/@trajetorevistatrajeto/aquilo-ou-aqueles-que-flutuam-cr%C3%ADtica-de-o-tempo-e%CC%81-um-pa%CC%81ssaro-de-yasmin-thayn%C3%A1-c06adce2ab65
author_url
https://medium.com/@trajetorevistatrajeto
status
ok
fetched_at
2026-07-21 23:40:04