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Botânica

- ou da resiliência cíclica.

Gabi Antunes · 2020-07-03 03:03 · 25 claps · 2.6 min read
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Botânica

- ou da resiliência cíclica.

Parecia desmaiada. Passei por ela meio rápido e vi, de canto de olho, que estava assim, molenga e descabelada demais para os seus próprios padrões. Então lhe dei água, me dei água. Disse “desculpa, Red” — tentando lembrar do nome que eu lhe dera, falhando, e então batizando-a novamente conforme a cor de suas flores e com a esperança de que, na próxima vez, eu me lembre disso ao olhá-la. As folhas ainda parecem convencidas que não há mais vida, mais as flores, apesar de um pouco desbotadas, parecem que insistem, e se agarram na solução que lhes foi dada.

Red não é como qualquer uma — eu penso sempre. Me enxergo um pouco em sua resiliência, apesar de achar que, assim como em mim, o traço que lhe faz estar ainda ali é a teimosia. Eu tomei já quatro copos de água e duas xícaras de café, mas acho que Red se levantará antes que eu.

Ultimamente eu tenho perdido para as plantas.

A que fica logo ao lado de Red está comigo há mais de um ano. Acho que quase a perdi, dia desses, como também quase me perdi em tantos outros. Essa já acostumou-se comigo, e não me pede que lhe chame por um nome — talvez essa coisa de dar nomes a outras coisas nunca tenha sido meu forte; temo se um dia vier a ter filhos, ou obras de arte. Ela hoje está linda, com duas hastes de folhas novas e verdes, mais claras que as outras, e em seu todo ela parece bem. Vinha com as pontas de suas folhas queimando ou ressecando, e tinha onde me diziam que isso era falta de água e onde me diziam que era mofo em função de muita umidade. Ali percebi que, às vezes, alguns diagnósticos não nos darão respostas, mas sim novas dúvidas.

De certeza eu tinha uma: fosse o que fosse, aquilo a mataria. Então peguei a tesoura, cortei-lhe suas pontas enfermas e passei um pano macio por cada uma de suas folhas. Acho que ela precisava mesmo de uma medida drástica, e também de um pouco de carinho. Ela me parece mais forte do que eu mesma, hoje.

Já Arruda é meu próprio espírito. Chegou aqui cheia e cheirosa, mas pequena. A que aqui está agora tem folhas murchas em sua base, mas está cheia de novos caules e folhinhas verdinhas no topo. Está alta, e parece que se estica cada dia mais para aproveitar o máximo de tempo dos raios de Sol. Ela é a própria representação da vida-morte-vida, eu acho. Cresce a cada dia, mata suas folhas frágeis e dá a luz a novas manifestações de si. Ela agora modera seu perfume, não quer mais encher a sala. Ela quer apenas ser conforto para quem souber apreciá-la. Eu me sento ao seu lado ou a sua frente todos os dias e, cada vez mais, a acho linda.

Acho que poderia aprender uma coisa ou duas com ela, também. Me disseram que ela precisaria de água de duas a três vezes na semana, mas todo dia ela sente sede. E me olha feio se não lhe abasteço. Essa não é do tipo que passa vontade, ou que segue as regras dos outros cegamente.

Cercada por elas, me vejo na beirada de uma queda bastante alta.

Bebi minha água e tento, com algum esforço, deixar morrer aquelas partes que agora apenas consomem o meu espírito e me sugam a energia que preciso canalizar em outras coisas. Talvez eu devesse ir apanhar aquela tesoura, ou poderia apenas me deixar desmaiar em queda livre até chegar à base de mim mesma. A esperança é que me estique em direção à vida que preciso.


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