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Entre pódios e ippons

A paulista radicada em Maringá, Meg Emmerich se tornou a primeira atleta do judô paranaense a medalhar em jogos olímpicos ou paralímpicos

parapraler · 2021-11-09 20:52 · 0 claps · 6.9 min read
#paralimpíadas #judo #atletas-brasileiros #tóquio-2020 #medalhista
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Entre pódios e ippons

A paulista radicada em Maringá, Meg Emmerich se tornou a primeira atleta do judô paranaense a medalhar em jogos olímpicos ou paralímpicos

Meg derrou a atleta Altantsetseg Nyamaa, da Mongólia, com um ippon após 1min22 de luta / Foto: Matsui Mikihito/CPB

Meg derrou a atleta Altantsetseg Nyamaa, da Mongólia, com um ippon após 1min22 de luta / Foto: Matsui Mikihito/CPB

Atleta, medalhista em diversas competições de judô no Brasil e no mundo, educadora física, ex-bancária, mãe e esposa são características que, se unidas a uma dose de ficção, poderiam ser facilmente usadas para descrever uma super-heroína de uma história em quadrinhos. A dona desses atributos, no entanto, está longe da ficção, mas, ao mesmo tempo, ela está definitivamente entrando para os livros de histórias esportivas. Hoje vamos apresentar a judoca Meg Emmerich.

Meg Rodrigues Vitorino Emmerich, 35 anos, nasceu em São Paulo, em 23 de outubro de 1986. Filha do meio, entre três irmãos, Meg pratica esportes desde a infância. Como ela mesma diz, sempre teve um jeito “meio moleca”, participava de todas as atividades oferecidas na escola. As artes marciais sempre estiveram entre seus esportes favoritos e filmes sobre esse tema sempre despertaram sua atenção.

Aos 15 anos, Meg e a família realizaram um dos planos que tinham há anos: se mudaram para Maringá (PR). Ao chegar na cidade nova, Meg foi em busca de uma atividade física para manter a qualidade de vida e fazer novas amizades. Como perto da sua casa havia uma academia de judô, ela resolveu fazer uma aula experimental e se apaixonou pelo esporte.

Na faculdade, Meg decidiu cursar Educação Física e foi lá que seus laços com o judô ficaram mais fortes. “Minha primeira competição foi nos Jogos Universitários, quando eu estava com 18,19 anos. Meus colegas de classe, na época da Cesumar, insistiram para eu participar e acabei me inscrevendo para o judô, para fazer companhia. Logo nessa primeira competição eu medalhei, fiquei em primeiro lugar”. A partir dessa vitória, a atleta passou a ver o judô como algo além de uma atividade de lazer: uma profissão. No mesmo ano, participou de um teste para entrar na seleção de Maringá e ir para os Jogos Abertos. Ela conseguiu a vaga e, desde então, representou a cidade em todas as competições que tiveram.

Além de abrir portas para as competições, os jogos universitários promoveram um encontro muito importante na vida de Meg. Foi ali que ela conheceu o seu marido, Ives. Ela competia no judô, ele no basquete. A partir desse dia, construíram uma amizade que logo se transformaria em namoro e, mais tarde, em casamento. Nesse momento da entrevista, Ives apareceu brevemente e nos revelou que Meg o levou para o judô e, desde então, nunca mais quis sair. Meg, em tom de brincadeira, rebate: “Ele diz que entrou no judô para me fazer companhia, né? Mas eu falo que ele entrou para não apanhar”.

“ESSE SEMPRE FOI O MEU NORMAL”

Meg nasceu com uma deficiência visual que, segundo ela, provavelmente teve origem quando ainda estava no ventre de sua mãe. No final da gravidez, a mãe de Meg contraiu toxoplasmose, uma infecção transmitida por parasitas presentes em animais e extremamente perigosa para gestantes. Após o seu nascimento, foi constatada uma atrofia no nervo óptico. Meg afirma que, de forma geral, se adaptou naturalmente, afinal nasceu com baixa visão e esse sempre foi o seu normal.

Mas algumas adaptações eram necessárias, principalmente nos tempos de escola. Incentivada por um pastor próximo, sua mãe optou por colocá-la em uma escola convencional. Não havia tempo ruim para ela, contava com a ajuda dos colegas de classe e, sem nenhuma vergonha, se precisasse sentar-se no chão para copiar o quadro, assim faria. Mas a maior dificuldade de Meg foi com alguns professores. “Já tive professor que chamou a minha mãe dizendo que ela teria que me tirar e colocar em uma escola especializada porque eu estava atrapalhando a aula”. No final, quem teve que sair foi a professora, que acabou sendo transferida para outro colégio por não ter a capacidade de promover uma educação inclusiva.

NOVOS CAMINHOS

Desde sua estreia nas competições de judô até 2013, quando tinha 26 anos, Meg conhecia apenas o judô convencional e era por ele que competia. A atleta soube da existência do judô paralímpico por meio de um amigo de seu marido; mesmo assim, levou alguns anos para começar a competir na nova modalidade.

“Eu comecei no convencional porque não conhecia o paralímpico, não sabia nem que existia o judô para quem tem baixa visão. Conheci o judô paralímpico em 2013, porque o meu marido foi competir em um festival e na categoria dele tinha um menino que é cego total. Eles lutaram juntos, viraram amigos e, depois, conversando, ele contou a meu respeito, que tenho baixa visão. Esse menino contou que tinha o judô paralímpico e perguntou por que eu não tentava. Em 2019, participei da primeira competição no paralímpico e fiquei em primeiro lugar.”

A demora para mudar de categoria se deu porque a atleta acabou desanimando com o judô após algumas competições. Na época, Meg decidiu parar sua carreira no esporte e estudar para um concurso público. Ela ficou em quarto lugar na lista, mas, por ironia do destino, convocaram apenas até o terceiro colocado. “Não era pra ser. Se eu tivesse passado, nunca teria voltado a focar no judô”.

Meg junto com seu marido, Ives Emmerich, e seu filho, Óliver / Foto: Instagram/reprodução

Meg junto com seu marido, Ives Emmerich, e seu filho, Óliver / Foto: Instagram/reprodução

RECOMEÇO

Durante essa pausa, Meg aproveitou para realizar um grande sonho: ser mãe. O pequeno Óliver, hoje com cinco anos, já segue os passos da mãe no judô. Com o emprego de bancária, e agora, mãe, a atleta hesitou em voltar para o esporte. Naquele momento, ela só pensava em priorizar o tempo que tinha com o filho. Mas seu marido e grande incentivador propôs que eles fizessem juntos o exame de faixa preta, afinal, eles tinham parado na marrom e queriam mostrar ao filho que Meg havia conquistado a faixa mais difícil, a preta. Resultado: os dois passaram no exame.

Vendo o potencial da esposa, Ives inscreveu Meg em uma competição em 2017. Por estar dois anos parada, ela não acreditava que conseguiria continuar no esporte, mas se surpreendeu ao conquistar o primeiro lugar. Depois de sentir a adrenalina outra vez, decidiu seguir no judô.

Com uma rede de apoio imprescindível para ajudar com o seu filho, Meg voltou a competir. Logo veio a felicidade da convocação para a seleção brasileira; nesse período, ela viajava para São Paulo de dois em dois meses, pois era onde ficava o CT paralímpico. Apesar de contar com o apoio do chefe e a possibilidade de flexibilizar os horários, com o tempo foi ficando mais difícil de conciliar o emprego de bancária e o esporte. “Tive muitas convocações fora do Brasil em 2019. Até então, o meu chefe estava conseguindo levar, mas nesse momento, não deu mais”.

No começo, Meg bancava suas idas a competições e treinos, o que tornava tudo mais difícil, mas em 2020, depois de conseguir a bolsa esportiva, pôde se dedicar completamente ao esporte.

PARALIMPÍADAS

O esforço de Meg foi reconhecido ao ser convocada para as Paralimpíadas de Tóquio. Com brilho nos olhos e um sorriso radiante no rosto, a medalhista detalhou: “Não tem como descrever esse evento tão grande que é uma paraolimpíada/olimpíada, o maior evento que um atleta almeja ou que pode chegar. É o evento mais importante que têm no esporte. Então já é uma emoção muito grande e também por ser o berço da minha modalidade que é o judô, poder ir lá e conhecer a cultura e a primeira escola de judô é muito legal”.

Devido ao pouco tempo livre disponível e à pandemia causada pela Covid-19, atletas tiveram itinerários e rotas rigorosas a serem cumpridas. Em Hamamatsu, cidade escolhida para servir de ambientação para a seleção brasileira, nem Meg nem a sua equipe puderam sair do hotel. Seguiram um caminho de ônibus já preestabelecido, sendo liberados apenas para conhecer o local de treinamento e o hotel onde ficaram hospedados. “Em Tóquio a mesma coisa, só podia ficar na Vila. A Vila tinha liberdade pra gente poder caminhar, com máscara e tudo, e não podia sair fora da Vila. Nós poderíamos só sair para o local de treino”.

Nem depois das competições os atletas tiveram um tempo livre para poder conhecer mais a cultura e os costumes do país. Meg conta que todos os competidores tinham 48 horas depois que acabasse a luta para deixar o Japão. “Eu lutei e no dia seguinte já estava arrumando as minhas malas para poder ir embora”.

Em Tóquio, Meg subiu novamente ao pódio de uma competição de judô, dessa vez, a mais importante de sua vida. Lutando na categoria B3, para atletas com baixa visão, conquistou a medalha de bronze e se consagrou como uma medalhista paralímpica. Na competição, a atleta também entrou para a história como a primeira judoca paranaense, entre homens e mulheres, a ganhar uma medalha paralímpica. Com essa conquista e tantas outras que estão por vir, Meg segue escrevendo seu nome no livro dos grandes atletas brasileiros e mundiais.

Meg conquistou a medalha de bronze lutando pela categoria B3 do judô paralímpico / Foto: Matsui Mikihito/CPB

Meg conquistou a medalha de bronze lutando pela categoria B3 do judô paralímpico / Foto: Matsui Mikihito/CPB

Hoje, Meg conta com dois motivos principais para seguir no esporte: “a família, em primeiro lugar. Em segundo lugar, é eu ser um exemplo, um espelho para uma criança, um adulto”. E por falar em exemplo, a atleta se arrepia ao lembrar que contribuiu para que uma criança, que é cega total, se interessasse pelo judô. “Um menino que é cego total disse ao meu marido que queria fazer judô, ele mora em Sarandi, cidade vizinha, ele entrou em contato comigo, conversou bastante e nós apresentamos para ele uma sensei que também mora em Sarandi e é muito boa. Ele está treinando judô e falou que já quer competir na competição que vai ter no final do ano, o Grand Prix nacional, para ver como ele vai”.

A atleta já iniciou os preparativos para os Jogos Paralímpicos de 2024. “Já estamos no projeto Paris para ir pegar minha medalhinha dourada”, diz, confiante. Enquanto Meg segue com sua rotina de treinos para ir em busca de mais um pódio, nós ficamos na torcida e ansiosos para saber quais os próximos capítulos a serem escritos no livro da vida dessa Mulher-Maravilha.

Texto:

Letícia Câmara (@leeticiacamara)

Meire Sebastião (@yaymeire)

Pamela Vieira (@pamelavieira.s)

Samir EL Kadri (@samirkadri)


메타데이터
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