Você se cuida?
Durante grande parte de minha infância e adolescência ouvi parentes próximos falando que outras pessoas se cuidavam demais, em oposição a…
Você se cuida?

Durante grande parte de minha infância e adolescência ouvi parentes próximos falando que outras pessoas se cuidavam demais, em oposição a cuidar dos outros. Era visto como algo um pouco errado, quase feio. E é assim que muitos em nossa sociedade vemos isso. Que é errado pensar em si mesmo, porque isso define uma pessoa egoísta.
Eu confesso que já questionei um pouco meu perfil, porque não me vejo como uma pessoa muito cuidadora, este papel de mãe nutridora sempre foi um dos mais desafiantes de visualizar para mim, eu gosto de escutar os outros e ajudar sempre que posso e vejo real necessidade, mas é isso. E então começou a aparecer a minha volta este conceito de autocuidado. Eu não consigo evitar de lembrar daqueles videozinhos de quando você vai viajar de avião, elas sempre dizem para o adulto que se tiver uma criança com você, no caso de algum problema na viagem máscaras cairão e recomenda-se que coloque a máscara primeiro em você e depois na criança. Faz muito sentido. E precisamos nos lembrar mais disso no dia a dia. Afinal, você inconsciente ou com falta de ar não vai conseguir ajudar ninguém. Vale para qualquer outra comparação (sim, salvo exceções, como qualquer coisa) .
Na minha família, assim como vizinhos e colegas, eu vi e vejo muita gente se cuidando com pausas para dormir, e uma porção de remédios e vitaminas processadas. Não é bem desse tipo de cuidado que estou falando aqui. Em alguns casos isso é necessário, não é na maioria, mas isso é outro assunto.
O Que é Autocuidado, então?
O autocuidado tem a ver com a gente se escutar mais para atender necessidades mínimas de nosso corpo, de nossa mente e também de nossa alma. Se apenas deitarmos para escapar da realidade cada vez que alguma coisa não nos agrada, ou tomarmos um comprimido para mascarar algum sintoma que nos incomoda, na realidade estamos apenas prolongando o desafio, pois quando foi que você viu alguma coisa que foi jogada para baixo do tapete sumir sozinha, ou mesmo porque outra pessoa foi lá e limpou sem você precisar fazer nada?
Então, é importante reconhecer sim sintomas e desafios.
Porque é com ajuda deles que você pode entender que sua dor de cabeça tem origem em algum alimento que você sempre consumiu, disfarçou, ignorou e toma o remédio que “resolve” o sintoma, mas não o problema. Ou então pode começar uma ginástica que te fortaleça a musculatura das costas e assim melhore sua postura, diminua ou elimine suas dores diárias e evite maiores conflitos no futuro.
É claro que quando eu penso em autocuidado visualizo algo como um spa, um local tranquilo, bem zen no qual eu possa simplesmente relaxar, porque muito provavelmente o sinal do celular não pega, e esta tudo certo, porque estou de folga e avisei que teria este dia livre. Ali eu posso deitar em um espaço bem confortável e receber algum tratamento, uma massagem, reiki, pedras quentes, depois posso meditar com toda uma estrutura de almofadas, musica instrumental, incenso amigável para quem tem rinite e sair tomando um chazinho bem terapêutico. Mais tarde posso caminhar por um jardim lindo com alguma fonte de água, muitas flores e então sentar para fazer uma refeição preparada com energias de cura, super harmonizada, leve, mas que preencha a necessidade da minha fome. Depois posso caminhar até molhar os pés na cachoeira, ou quem sabe deitar um pouco em uma cama bem macia, livre de distrações, sem barulho de obras ao redor, sem ninguém para me incomodar e em um quarto com aroma de algo como lavanda.
Eu não moro em um spa, não tenho a oportunidade de estar diariamente, ou mesmo semanalmente em um local assim como o descrito, mas como eu posso trazer alguns elementos, ou sensações dele para o meu dia a dia?
Dia a Dia Mais Zen
Descobri algumas maneiras de trazer estes elementos para o cotidiano.
Uma delas é o earthing (já escrevi sobre ele aqui), eu não pratico todos os dias, pois moro em apartamento, às vezes (muitas vezes) chove na cidade onde estou, e nem todos os dias tenho real disponibilidade, mas reparei que pelo menos uma vez por semana já ajuda bastante. E quando sinto que preciso de um pequeno boost, eu me conecto com as plantinhas do canteiro que tem no meu apartamento.
Meditar diariamente é um presente, não é muito legal que seja algo engessado, uma obrigação a ser cumprida, é bacana se esforçar para parar uns minutinhos e criar disciplina. Mas se um dia não der, ok, volte no dia seguinte. Não conseguiu parar mais de cinco minutos? Tudo bem, você melhora nos próximos dias. Tem tantos tipos de meditação, recomendo testar este app, ou este aqui se quer seguir algo mais estruturado. É o seu momento, você pode aproveitar cinco ou dez minutinhos de sua pausa para o almoço com fones de ouvido, parar em um parque, praça, ou quintal sob o sol, ou até parar a noite antes de ir deitar. Você pode apenas parar alguns minutos em silêncio. Sei que na cidade parece muito desafiante, e é, mas é possível. Caso você se distraia com algum ruído, continue, você vai encontrando alternativas aos poucos. Tem gente que curte criar um ambiente, com difusores, algum tipo de iluminação mais suave, uma musica de fundo, almofadas… se você gosta, faça isso, pode dar um trabalhinho a mais, pode parecer perda de tempo, mas não é. É autocuidado, se você organizaria isso para receber outra pessoa, faça isso por você.
Alternativas
Talvez silêncio não pareça muito a sua praia (aliás praia é ótimo para tudo, o sal, o mergulho, a caminhada, não curtimos muito quando está cheia, mas continua bonita e bacana de qualquer forma), e pode ser novidade para você, mas existem meditações com tambores, com berimbau, com tigelas de cristal e também meditações ativas. Eu particularmente percebo que para mim o movimento é parte essencial da minha vida e que muitas vezes é a fonte para sair da mente barulhenta.
Este mesmo processo de arrumar o ambiente para você mesm@ vale para várias coisas, como uma refeição por exemplo. Quantas vezes você já preparou um prato de qualquer jeito, ou comeu direto da travessa para ter menos trabalho, ou esperar menos? Mas já experimentou preparar algo para si, ajeitar aquilo, deixar bonitinho como faria para uma visita, crush ou criança?
A importância do celebrar
Nós temos tendência a nos maltratar mais do que a qualquer outra pessoa. Mas não precisa ser assim. Tem uma metodologia que eu gosto muito, que é o Dragon Dreaming, ela é ótima para projetos e grupos, se quiser mais infos recomendo ver aqui. E nela temos uma base fractal com quatro quadrantes, o sonhar, o planejar, o realizar e o celebrar. Um dos que menos damos atenção, pensando inclusive como brasileiro em geral é o celebrar. Porque aqui não estamos falando de festa, de cervejinha, de feriado, mas sim de celebrar o processo concluído, e vale reforçar, é no processo, não no resultado! Então se você cumpriu suas tarefas, realizou o que havia combinado, reconheça isso. Não precisa ser algo comportamentalista de ganhar um bombom para cada tarefa cumprida. Mas algo que te remeta ao reconhecimento desta tarefa realizada. Muitas vezes esperamos demais pelo resultado ideal para nos permitirmos celebrar alguma coisa, e sabe o que acontece? Isso não chega, porque é um resultado ideal, só uma forma de procrastinarmos, não somente felicidade, mas até uma simples pausa e um momento de alegria que mesmo não parecendo é merecida.
Autocuidado não é passar a mão na cabeça, se a criança fez algo errado e se machucou um pouco, nós primeiro acolhemos, depois trabalhamos no que foi feito que não era bacana. Mas quando é conosco, apenas nos punimos. Algumas vezes até extremos. Lembro de um apresentador de TV que um vez comentou que caiu carregando compras e quando chegou em casa levou bronca. É assim que geralmente nos tratamos, antes de perguntar se está tudo bem, já nos reprimimos.
A questão é que só a bronca por ela mesma não resolve nada. Se temos que melhorar em algum aspecto, podemos tomar medidas práticas, o que mudar, o que treinar mais, o que refazer, mas reclamar e criticar não solucionam nada. E os trabalhos, mesmo quando intensos não precisam ser sempre como castigos. Você esta lendo isso das mãos de uma pessoa que já usou calça grossa no verão porque não se achava magra o suficiente, que já deixou de se divertir porque não tinha terminado tarefas que não precisavam ser entregues naquele dia, que já dormiu dias na bagunça porque arrumaria tudo de uma vez. E sabe em que isso ajudou? Se você respondeu em nada acertou!
Nós temos que aprender a diferença entre procrastinar, não levar as tarefas a sério, poder melhorar em algum aspecto e se cobrar demais e se punir por isso. Em uma sociedade de workaholics, fomo (fear of missing out), ansiedade e outros isso é um desafio e tanto. E é por isso mesmo que eu te pergunto, você já se cuidou hoje?

Autoria de Nicole — Catalisadora de Ideias do Ateliê Radiko
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- 2026-07-29 21:02:00