O dia que eu conheci David Lynch e perguntei se ele usava entorpecentes
Na verdade, não foi bem assim. Mas, para a geral, acabou sendo.
O dia que eu conheci David Lynch e perguntei se ele usava entorpecentes
Na verdade, não foi bem assim. Mas, para a geral, acabou sendo.
Seis de agosto de 2008. A UFMG realizava uma palestra do Ciclo Sentimentos do Mundo, iniciado em 2007 como forma de comemorar seus 80 anos. O convidado da ocasião era ninguém menos que David Lynch, o estranho diretor que dirigia uns filmes igualmente estranhos — mas marcantes.
O primeiro filme que vi de Lynch foi Império dos Sonhos (Inland Empire). Vi o filme no finado Usina Unibanco de Cinema, no bairro de Lourdes, em Belo Horizonte. Era um cinema de rua localizado à Rua dos Aimorés, perto daquele templo monstruoso da Universal da Olegário Maciel. O local sediava alguns festivais de cinema e, se bem me recordo, o filme do Lynch estava em cartaz na Mostra de Cinema Mundial de 2007, mais conhecido como Mostra Indie de Cinema.
O filme é uma piração lunática e onírica de três horas. A película é uma mescla de trabalhos antigos do diretor — como o curta Rabbits, bizarro que só — e footages recentes, concebidas para o filme. Foi um amigo meu de Colégio, que estudou na Escola Livre de Cinema, que me falou desse filme e do Lynch — ele, inclusive, foi quem me apresentou Monty Python. Indicações certeiras as dele.
Mas voltando ao evento de 2008. David Lynch foi a Belo Horizonte não para falar dos seus filmes especificamente, mas também para lançar seu livro *Em Águas Profundas: criatividade e meditação *(Ed. Gryphus). Além do cinema, Lynch estava entrando de cabeça nessa história de meditação, e de como ela havia impactado sua vida e obra. O auditório da Reitoria ficou lotado, lembro que fui a última pessoa que conseguiu acessar o espaço — quem estava atrás de mim foi barrado e ficou assistindo do lado de fora, no saguão, onde fora instalado um telão.

Aqui está a minha perspectiva do auditório da Reitoria da UFMG no dia que David Lynch foi palestrar

Eis um registro que fiz do diretor na mesa, acompanhado da professora Maria Esther Maciel, da Faculdade de Letras (FALE), e do professor Heitor Capuzzo, da Escola de Belas Artes (EBA).
Num determinado momento, abriu-se o microfone para a participação da audiência. E diversas perguntas que não abordavam diretamente o tema da palestra, mas eram geralmente pessoas que ora puxavam o saco do diretor, ora perguntavam sobre algum elemento misterioso de algum filme dele, se tem alguma interpretação. Eu não sou cinéfilo, mas, convenhamos: quem conhece o mínimo da obra de David Lynch sabe que as coisas não são dadas e nem interpretadas de maneira simples.
E aí eu resolvi pedir a palavra. Mas, antes, uma contextualização.
Antes da vinda de David Lynch para Belo Horizonte, chegou por meio desse meu amigo cinéfilo um vídeo do diretor fazendo a divulgação de Império dos Sonhos. Mas, digamos, não foi uma forma muito convencional — aliás, falar de David Lynch é falar de coisas nada convencionais, tradicionais etc.
Dois caras estavam passeando por Los Angeles de carro quando, de repente, se deparam com uma vaca. No meio da rua. E, ao lado da vaca, simplesmente ele, David Lynch. Numa entrevista que ele deu posteriormente (cujo pequeno trecho está aqui), ele explica que foi uma forma de divulgar o longa, já que ele não dispunha de recursos financeiros suficientes para promovê-lo. Ao que parece, deu certo.
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Percebam que num determinado momento do vídeo há uma faixa dizendo “Sem queijo, não haveria um Império dos Sonhos” (Without cheese, there wouldn’t be an Inland Empire). Isso foi deveras intrigante, e um dos rapazes pergunta o que isso significa. Lynch simplesmente responde:
Cheese is made from milk (queijo é feito de leite).
O fato é que a ideia de Império dos Sonhos nasceu de uma conversa que ele estava tendo com a Laura Dern (protagonista do filme) num momento em que os dois estavam… comendo queijo! Daí, para divulgá-lo, Lynch levou para a rua a matriz produtora de todo o queijo existente: a vaca. Isso reflete o quanto o diretor era heterodoxo. E foi baseado nisso que fiz meus questionamentos para o cineasta.
Perguntei exatamente sobre o tema da palestra, processos criativos. Eu indaguei como era o processo de criação dele, porque parece que, para entendermos o conteúdo dos seus filmes, era necessário que utilizássemos algum tipo de substância, de algo que faça com que viajemos na maionese e entremos na onda do filme. Obviamente que a interpretação da galera foi “o cara tá perguntando se David Lynch fuma maconha!”. E por um tempo fui reconhecido na UFMG com esse apelido — toda hora que a prima de um colega meu da Comunicação, que cursava Ciências Sociais, me via pelos corredores da Fafich ela dizia “esse é o cara que perguntou se David Lynch usava maconha!”. E na verdade não foi bem assim a pergunta. Mas, como vocês viram, acabou sendo.
O segundo questionamento foi mais direto: perguntei se ele ainda gostava de queijo. Ele deu um sorriso aberto de um canto a outro, como se dissesse “até que enfim alguém fazendo uma pergunta que presta” (na moral, as perguntas da plateia estavam sofríveis). E ele respondeu: “I LOVE CHEESE!”. Todo mundo riu da pataquada das minhas perguntas.
Essas duas perguntas me permitiram que, no final da palestra, eu pudesse tirar uma foto com ele. Não me recordo, mas acho que fui a única pessoa da plateia que David Lynch permitiu que se aproximasse para um registro fotográfico. E eis a foto.

Eu tinha 22 anos quando tirei essa foto. Graças a uma pergunta sem noção, pude me aproximar de um cara que fazia cinema nonsense. Não qualquer tipo de nonsense, mas aquele que beira o sonho, o sono, o surrealismo e o bizarro. Homem Elefante, Twin Peaks, Inland Empire, todas são produções que quebram com uma noção estática de normalidade.
Às vezes é isso: a gente precisa ser meio cara-de-pau para termos algumas conquistas.
Ontem, 16 de janeiro de 2025, David Lynch faleceu aos 78 anos. Eu vou sempre lembrar da história da foto não como a do cara que perguntou se Lynch usava entorpecentes, mas da minha coragem de poder quebrar expectativas de perguntas “normais” e “previsíveis”.
메타데이터
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