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Memória Suja

Sabe aquela gagueira antes de começar a falar? É, essa mesma. Essa que hesita e amarra — prende a autonomia.

Giancarlo Ferraro Chimelli · 2025-10-16 02:53 · 0 claps · 2.5 min read
#crônicas #crónica-urbana #revolta #crítica-social #curitiba
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Memória Suja

Sabe aquela gagueira antes de começar a falar? É, essa mesma. Essa que hesita e amarra — prende a autonomia.

Vamos começar com o clássico: é engraçado como… eu me achava um cara bem informado. Vivia ligado na GloboNews, notícias do Google em cada intervalo, escutar o Reinaldo Azevedo era missa, todos os dias às seis. Quando aquele homem ficou sem voz, então? Meu Deus, até rezei pela laringe dele.

Quando querem saber de alguma coisa de política ou do mundo, as pessoas me perguntam — e o saque é tão rápido que a opinião às vezes vem antes da informação. Porque, às vezes, tem coisa que te acerta… Pois bem, não sei se sempre acerto, mas, para mim, é uma honra estar nessa posição.

Mas as coisas mudam… A última notícia não está mais chegando pela TV, rádio ou até mesmo por sites. Agora ela chega por WhatsApp, por TikTok.

Foi daí que veio o tiro… e acertou. Acertou em cheio.

Matando promessas e desovando memórias.

“O Copo Sujo fechou.”

Não fode…

“Os cinco espetinhos de sábado foram os últimos.”

Link. TikTok. Denúncia. Não fode.

O Copo Sujo fechou.

Droga, embargou de novo… Um segundo…

Olha, se você esperava uma crônica leve para dar risadinha, melhor largar o texto, porque isso será sobre um homem colérico falando sobre memória e esquecimento, sobre morte e higienização.

Dito isso, vamos novamente com o clássico: pois bem, talvez você não conheça o Copo Sujo — neste caso, uma pena. Permita-me falar sobre ele. Na verdade, seu nome de batismo é — era — Lanchonete Cana Caiana, mas imortalizou-se sob o título de Copo Sujo por um motivo interessante:

Não, não era falta de higiene.

Acontece que o giro de fregueses lá era tão intenso que as fritadeiras simplesmente não paravam — a gordura às vezes pegava nos copos.

Se é verdade, não sei; particularmente, nunca recebi um copo mal lavado lá. Mas, vamos lá: se não é verdade, é bem contado.

Claro que não era só nome. Sabe por quê? Porque não apenas permaneceu ali durante 24 anos, como se manteve, poeticamente, aberto 24 horas através desses anos.

Um lugar desses não é só nome. É história. Dos que ali passaram e trabalharam.

É história da cidade. Histórias de vidas. Presente. Era ponto de encontro. Será memorial. Passado.

Tá… calma.

Sabe… reza a lenda que meu avô gostava do lugar.

Estive lá tantas vezes — teve de tudo: gente me azucrinando; barbárie policial — fiquei preso lá dentro, sufocando com gás de efeito moral — ; até fiquei bravo com uma atendente — coitada, tendo que lidar com esse louco.

Sempre os mesmos rostos, os mesmos sorrisos.

É… tinha de tudo lá: gente, maluco, bêbado, drogado, eu — ou seja, a caterva da sociedade que é de verdade.

Só não tinha salgado ou doce ruim. Ou seja, o melhor dos mundos: bom, barato e bem frequentado.

Agora é tudo pó. Tudo memória. O que vão fazer lá? Merda — é isso que farão lá. Alguma merda que não é pra gente. Uma expansão do memorial. Museu. Arte. Revitalização urbana.

Higienização. História que é viva devorada por um passado que já não promete. Morte.

E essa morte?

Ela tem assinatura.

Curitiba.

A cidade de dentes de porcelana que só sorri para a elite.

É por isso que prefiro a companhia da caterva e dos ratos.

Sim, eu vou guardar bem essa… que nem a atendente guardou meu pão de chocolate. Sacola, Tupperware descartável, guardanapos e colherzinha de plástico. Mesmo que fosse seu último sábado ali.

Ass. O Proscrito


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