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Anitta perde seguidores após explorar temática religiosa de matriz africana: Reflexões sobre…

Anitta perde mais de 200 mil seguidores em seu perfil no Instagram após anunciar um novo clipe em homenagem ao candomblé.

Atento Jornal · 2024-09-03 19:28 · 0 claps · 5.1 min read
#cultura #entretenimento #anitta #música #clipe
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Anitta perde seguidores após explorar temática religiosa de matriz africana: Reflexões sobre intolerância religiosa e racismo no Brasil

Anitta perde mais de 200 mil seguidores em seu perfil no Instagram após anunciar um novo clipe em homenagem ao candomblé.

Anitta no clipe de “Aceita”- Foto: Youtube/Divulgação

A cantora brasileira Anitta, tque tem se destacado no cenário internacional após consolidar sua carreira no Brasil durante uma década, tem ganhado força fora do país. Recentemente participou do encerramento da turnê da Madonna do Rio de Janeiro, atraindo cerca de 1,6 milhão de pessoas na praia de Copacabana. Também foi jurada no reality show americano, “Rupaul’s Darg Race” e homenageada pelo “Prêmio Variety Power of Women 2024”, em Nova Iorque.

Com inúmeros hits e fãs muito dedicados, a cantora possui várias músicas populares no Brasil, como “BANG”, “Vai Malandra” e “Envolver”. Em seu novo álbum, “Funk Generation”, Anitta faz referências as gerações do funk, desde o melódico, até os mais explícitos com letras picantes, como a música “Savage Funk”. O álbum foi exaltado pela crítica internacional e pelo público com muitos streams nas plataformas digitais.

O funk é um dos gêneros musicais mais populares do Brasil, curtido pela juventude em baladas e bailes e sua origem carrega aspectos e ritmos ancestrais. Através de sua melodia e cadência, o funk tem raízes afro-brasileiras; a batida que conhecemos como funk está presente no maculelê da capoeira e nos toques de congo do candomblé.

“Tem a ver com a minha religião, mas também com a cultura funk, né? Que nada mais é também que cultura afro, que é a mistura e também a quebra de preconceitos religiosos que eu sempre gosto de fazer no meu trabalho, na minha vida”. — disse Anitta em uma coletiva realizada em abril para promoção do álbum “Funk Generation”.

Atabaque, instrumento de percussão africano utilizado no Candomblé e na Umbanda — Foto: Youtube/Divulgação

Foi no clipe da música “Aceita” que Anitta acabou perdendo seguidores. O clipe, dirigido por João Wainer e Ricardo Souza, tem imagens de rituais da religião de matriz africana, com cenas produzidas em preto e branco. Assim como o álbum inteiro, a música tem a letra em inglês e espanhol e faz referências às polêmicas e críticas que Anitta recebeu durante a carreira. A fotografia mostra a religião de várias formas, com referências à bíblia, ao misticismo, a Ganesha e ao Catolicismo. Ao longo do clipe, vemos rituais do Candomblé, religião seguida pela cantora.

“Pra você que gosta do meu trabalho, espero que curta esse clipe que foi feito com muito amor, assim como todo meu novo álbum. Estamos aqui vivendo no mundo material e o maior segredo da vida é encontrar o equilíbrio entre o espírito e a matéria. Minha vida é buscar esse equilíbrio, então se nos outros vídeos a gente só rebolou a raba e falou sacanagem, nesse a gente pode se arrepiar ou até mesmo se emocionar”. Anitta em desabafo nas redes sociais.

Apesar da perda significativa de seguidores, muitos comentários sobre o clipe foram positivos:

Comentários dos fãs sobre o clipe de “Aceita” — Foto: Youtube/Reprodução

Em um país marcado pela diversidade cultural e religiosa, o Brasil possui a maior população negra fora do continente africano, resultado da escravidão que trouxe milhões de africanos para o continente, e da esperança de um novo começo para os europeus e orientais que vieram para o país. No entanto, o Brasil ainda enfrenta desigualdade e preconceito. É o que afirma o professor Ivanir dos Santos, no Relatório sobre Intolerância Religiosa: Brasil, América Latina e Caribe, 2023.

Anitta aparece tomando um banho de abô/ervas — Foto: Youtube/Divulgação

“A intolerância religiosa é um dos maiores desafios das sociedades contemporâneas. Desafio esse, que vem crescendo sistematicamente no Brasil e que tem suas bases e construções arraigadas na formação das estruturas sociais. Ao observarmos tais construções históricas, podemos constatar que alguns grupos religiosos, sempre estiveram à margem da sociedade brasileira e foram perseguidos pelo Estado.”

É lamentável que a exploração de uma expressão religiosa legítima e culturalmente significativa ainda seja motivo de controvérsia, repúdio e muitas vezes violência. As religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda, são parte integral da identidade brasileira e estão garantidas na Constituição:

“É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a sua liturgia, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva.” (Constituição federal de 1988)

Ainda segundo dados do Ministério dos Direitos Humanos, em 2022 foram registrados cerca de 1.200 ataques a pessoas ou terreiros, representando um aumento de 45% em comparação a 2020. Para combater o crime, existe a LEI Nº 11.635, DE 27 DE DEZEMBRO DE 2007, que Instituiu o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. Em 2023, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou uma lei endurecendo a pena para o crime, prevendo uma pena de 2 a 5 anos e equiparando-o ao crime de racismo presente no Código Penal brasileiro.

A perda de cerca de 200 mil seguidores de Anitta após abordar esse tema reflete não apenas uma rejeição à sua abordagem artística, mas também um reflexo da profundidade dos preconceitos arraigados na sociedade brasileira. É uma triste constatação de que, apesar dos avanços sociais e culturais, ainda há muito a ser feito para promover a aceitação e o respeito mútuo entre as diferentes crenças e origens étnicas no país.

A trajetória de Anitta com o disco “Funk Generation” simboliza a jornada do Brasil rumo a uma maior valorização da diversidade cultural. A música, enquanto expressão artística, possui a capacidade de ultrapassar fronteiras e promover a união entre indivíduos de diversas origens. Ao integrar elementos das religiões de matriz africana em sua obra, Anitta não só homenageia tais tradições, como também possibilita debates mais aprofundados sobre identidade e respeito.

Anitta com figurino inspirado no orixá Obaluaê/Omolu — Foto: YouTube/Divulgação

Em uma nação onde a diversidade se destaca, é chocante ver que a exploração de uma expressão religiosa autêntica e culturalmente importante ainda provoca discordância e rejeição. As religiões afro-brasileiras, como o Candomblé e a Umbanda, são fundamentais para a identidade do país e, assim como toda religião, merecem ser honradas e exaltadas, não alvos de intolerância e discriminação. Para vencer esses obstáculos e fomentar uma autêntica apreciação pela diversidade, é crucial que personalidades públicas e artistas, como Anitta, continuem a usar suas plataformas para celebrar e proteger as religiões afro-brasileiras e outras manifestações culturais menosprezadas. A arte tem o poder de educar e sensibilizar, abrindo portas para um diálogo mais abrangente e respeitoso.


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