O Médico e o Monstro (R. L. Stevenson)
Li O Médico e o Monstro (1886) na adolescência e, na época, o julguei muito bom. Recentemente, o li novamente e mantenho o mesmo juízo. A…
O Médico e o Monstro (R. L. Stevenson)
Li O Médico e o Monstro (1886) na adolescência e, na época, o julguei muito bom. Recentemente, o li novamente e mantenho o mesmo juízo. A primeira leitura foi numa edição da Martin Claret e esta última, numa edição de 2015, bem trabalhada da Penguin. Poderia destacar nela um histórico do autor Robert Louis Stevenson, uma introdução de Robert Mighall (que, embora avise a existência de spoilers, parece mais uma análise bem-feita do romance), uma cronologia biográfica de Stevenson, notas dos capítulos no fim do livro.
A começar pela capa, está atrativa. Ela contém uma substância fundamental na história sem revelar ou insinuar spoiler. O título em português, por alguma razão, se consolidou como “O Médico e o Monstro”, ainda que tragam abaixo a tradução literal “O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Sr. Hyde”. E, quanto ao gênero literário, é um exemplo de ficção gótica, sendo possível especular se seria história de detetive.
Conforme indica R. Mighall na introdução, O Médico e o Monstro foi publicado inicialmente para fim comercial. E surpreendentemente se transformou num clássico da literatura, apesar de, muitas vezes, se fazer uma oposição entre literatura de massa/comercial e literatura clássica/canônica. Tamanho foi seu impacto sobre o público leitor que adentrou o consciente coletivo literário.
O romance é curto, sem digressões, não é cansativo. Prende a atenção pela técnica de manter o suspense entre um capítulo e outro, tal como Agatha Christie empregará décadas mais tarde. Stevenson descreve bem o cenário para manter a atmosfera misteriosa: noite, névoa, vizinhança sombria…
O mistério se inicia logo no início quando Enfield conta ao advogado Utterson (o protagonista na história) que viu um homem monstruoso, o Sr. Hyde, pisotear uma menina. Além disso, Utterson considera suspeito que o Dr. Jekyll tenha registrado em testamento que o Sr. Hyde recebesse seus bens. Por isso, inicia uma investigação do Dr. Jekyll. O Sr. Hyde deu uma quantia de dinheiro a pessoas no local para que aquele acontecimento fosse silenciado. E posteriormente, testemunhado por uma mulher, o Sr. Hyde assassina Carew. Esses elementos (mistério, investigação, agressão silenciada, assassinato) são pontos em comum com o gênero da ficção de crime.
Um espaço dramático é a casa do Dr. Jekyll, um médico inteligente. Ao fundo, está conectado um laboratório, onde faz uma experiência significativa. Soho, um bairro de Londres, também é significativo porque o Sr. Hyde fornece seu endereço nesse bairro.
Poole é o mordomo do Dr. Jekyll. Inicialmente, atua como um tipo, isto é, um personagem plano. Pode-se visualizá-lo como um típico mordomo (“o velho e querido mordomo”, como diria Chesterton). Posteriormente, atuando mais no enredo, se assusta com o comportamento de seu patrão. Junto com Utterson, arrombam a porta do laboratório e encontram o cadáver do Sr. Hyde, menor que o Dr. Jekyll, dentro da roupa do médico.
Dois temas interessantes na história são a feiura do Sr. Hyde e o bem e o mal no ser humano. É muito curioso que a feiura ou a monstruosidade do Sr. Hyde mal seja descrita fisicamente. O autor usa o termo “deformidade”, sem especificar hipônimos seus, deixando, assim, a aparência do Sr. Hyde aberta à imaginação do leitor, consequentemente a representações imagéticas diversas (capas de livro, ilustrações junto ao enredo etc). Essa tática também é utilizada por Oscar Wilde em O Retrato de Dorian Gray (1890). Outra vantagem de não determinar fisicamente a monstruosidade do Sr. Hyde me parece ser um ponto de dobradura entre o gênero de horror e o cômico. Imagine um filme antigo que, quando foi assistido, produziu a sensação de horror e, muitos anos depois, pareceu trash, cômico, causando a pergunta com riso “Como alguém poderia sentir medo daquilo?” Curiosamente, o mesmo elemento de narrativa, como personagem ou espaço, determinado como horroroso pode, em outro momento, soar cômico. Assim, manter apenas o termo “deformidade” garante mais a permanência do romance sob o gênero gótico. A propósito, a introdução de R. Mighall, contextualiza O Médico e o Monstro na história da ficção gótica.
O outro tema, certamente o mais comentado a respeito do romance, talvez seja comumente denominado como “a dualidade do bem e do mal no ser humano”, ou algo parecido. Esse tema desperta o interesse de psicólogos, filósofos, teólogos, além do leitor comum.
(Se o leitor desconhece O Médico e o Monstro, recomendo que não prossiga a leitura por causa de spoilers)
Uma interpretação comum (que não verifiquei) talvez seja a de um maniqueísmo em Jekyll e Hyde: pelo efeito da poção, o Sr. Hyde seria o puro mal (assim definido no romance) e o Dr. Jekyll, sem o puro mal de Hyde, seria o oposto, o puro bem. Parece-me que tal oposição não ocorre. Embora Hyde seja o puro mal, concentrando todo o lado mau do Dr. Jekyll, como a vontade e a realização de assassinato, o Dr. Jekyll é um homem com virtudes e vícios, por exemplo o defeito de dar azo à concretização do Sr. Hyde. Assim, por mais bondoso ou virtuoso que seja o Dr. Jekyll, não está no extremo oposto do Sr. Hyde.
À luz do raciocínio de Santo Agostinho (Confissões, Livro VII) acerca do mal absoluto, poderíamos avaliar a coerência do Sr. Hyde como puro mal. Parafraseando Santo Agostinho, o mal absoluto não existe (como substância). Se existisse, teria o bem da existência, logo não seria absoluto. Como Stevenson não devia ter em mente retratar seu monstro conforme a filosofia cristã — ainda mais porque era calvinista e a tradição filosófica não é forte no protestantismo –, seu objetivo devia ser mostrar ambas as inclinações no ser humano, a de fazer o bem e a de fazer o mal. Como há uma divergência entre as teologias católica e calvinista com relação à natureza do homem após a Queda — para os calvinistas, a natureza humana se corrompeu após o pecado de Adão e, para os católicos, a natureza humana continua boa e ferida (CIC § 405) –, talvez uma dúvida decorrente dessa divergência esteja subjacente na criação do médico e do monstro.
Talvez a maior qualidade do romance seja a reviravolta ou plot twist nos capítulos finais, quando se descobre que o Dr. Jekyll e o Sr. Hyde são a mesma pessoa. No prefácio, explica-se a interpretação de que os nomes dos personagens sinalizam quem são. “Jekyll” = Je (“eu” em francês) + kill (“mato” em inglês) e “hyde”, um termo homófono de “hide” (“esconder” em inglês).
Esta fala de Utterson é divertida: “If he be Mr. Hyde,” he had thought, “I shall be Mr. Seek.” Aqui, Utterson joga com as palavras presentes no nome em inglês da brincadeira de esconde-esconde, “hide and seek”.
Finalmente, na introdução de R. Mighall, onde oferece ao leitor uma contextualização histórica do romance, o autor explica que no século 19 o homossexualismo era proibido, faziam chantagens contra homens com ameaça de denúncia. Cita trechos do romance: Jekyll tem enorme interesse no jovem Hyde; Hyde tem acesso livre à casa de Jekyll; supõe-se que Hyde esteja chantageando Jekyll; etc. Assim, o público inicial devia desconfiar da possibilidade de uma relação homossexual entre os dois, o que não se confirma no desfecho. Apesar de, a princípio, essa interpretação parecer uma interpretação LGBT forçada, a relação entre o contexto histórico da obra e sua trama, particularmente o desfecho, comprova que não havia relação homossexual.
메타데이터
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