Porque o suburbano, e não apenas o vascaíno, deveria valorizar São Januário?
Porque o suburbano, e não apenas o vascaíno, deveria valorizar São Januário?

No dia 21 de abril de 1927, há exatos 99 anos, era inaugurado, no bairro de São Cristóvão, Zona Norte do Rio, o Estádio Vasco da Gama, popularmente conhecido como São Januário. À época, considerado o mais moderno da América do Sul, rapidamente se tornou a principal casa do futebol carioca, recebendo partidas da seleção brasileira e dos grandes clubes da cidade.
Construído por cimento, tijolos e o amor de seus torcedores, São Januário é, até hoje, o maior estádio particular do Rio de Janeiro. Peça a um vascaíno para resumir, o que seu estádio representa em uma palavra, e você terá uma colcha tecida com as palavras resistência, luta, resposta, templo, casa, caldeirão, monumento, raiz… expressões de um vínculo com o território que vai além do futebol.

Barreira do Vasco em dia de jogo — Foto: Reprodução Internet
Mas falar sobre a importância de São Januário na visão so vascaíno, no dia do seu 99º aniversário, é chover no molhado. É preciso ir além. O carioca, sobretudo o suburbano, deveria se orgulhar da Colina Histórica como seu patrimônio. E sobre é isso que irei falar abaixo. Vem comigo:
Penso que falar de São Januário sem trazer sua importância para a história do nosso país é limitar o alcance de uma trajetória rica demais. Sua presença na cultura popular e na história do Brasil é impar.
Foi em suas tribunas sociais que Getúlio Vargas anunciou a lei que estabelecia o salário mínimo no país e a instituição da Justiça do Trabalho.

Desfile estudantil no estádio de São Januário em 08 de setembro de 1945
A relação entre o estádio e o trabalhismo foi tão marcante que, até hoje, o senso comum associa São Januário à criação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em 1943. Mas esse é um famoso erro histórico: a CLT foi oficialmente instituída na região da Esplanada do Castelo, no Centro do Rio, próxima ao Ministério do Trabalho.
Ainda assim, o erro revela algo maior: o peso simbólico de São Januário. Sua história é tão significativa que não seria absurdo imaginar que ali também se consolidaram direitos fundamentais do trabalhador brasileiro.
O estádio de São Januário recebeu também o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro em 1945. Sem local para desfilar, devido à destruição da antiga Praça Onze e à impossibilidade de usar as avenidas centrais, o estádio sediou o carnaval daquele ano. A grande campeã foi a Portela, em um episódio raro na história do carnaval carioca, quando o desfile ocupou um estádio de futebol.
Hoje prestes a completar 100 anos, São Januário segue sendo um das poucos estádios que ainda resistem a elitização sistemática do futebol brasileiro, um movimento que, pouco a pouco, afastou dos estádios justamente aqueles que sempre estiveram presentes. Um exemplo histórico desse fenomeno é a descaracterizacao do nosso Maracanã, que a partir do fim da geral e das obras para a Copa do Mundo de 2014, tornou-se uma arena genérica cara feita pra turista.



Protesto em São Januário pedindo a liberação do estádio — Foto: Reprodução Internet

Em 2023, o estádio de São Januário foi interditado pelo STJD com a alegação de falta de segurança devido a proximidade da comunidade Barreira do Vasco. Torcedores foram até os arredores do estádio assistir os jogos como forma de protesto a proibição — foto: Reprodução Internet
Não por acaso. A história de São Januário já nasce como enfrentamento, como resposta a uma elite que tentava limitar quem podia ou não jogar futebol. E talvez por isso, quase um século depois, sua simples existência ainda contrarie muita gente.
Mas essa permanência não está garantida.
Diante das discussões sobre a reforma do estádio, uma preocupação que tem surgido entre torcedores é o temor de uma possível gentrificação associada à modernização. Porque o torcedor entendeu que, tão importante quanto preservar a fachada neocolonial e seus históricos vitrais, é a preservação daquilo que fez de São Januário um símbolo de luta: sua relação com o povo.

Torcedores assistindo jogo acima das cabines de transmissão na década de 90 — Foto: Juha Tamminen

Caique, torcedor simbolo do Vasco, com suas tradicionais plaquinhas — Foto: Desde 1898
E nesse caso, há um ponto que nao pode ser deixado de lado no debate: a Barreira do Vasco. Um território que cresceu junto com o estádio e que faz parte inerente da história do clube.
Sabemos que infelizmente vivemos numa cidade com uma longa história de mexer nos espaços à custa de quem vive neles. Foi assim em diferentes momentos, quando populações inteiras foram deslocadas em nome de projetos urbanos, de modernização ou de “ordem”.
Não se trata de afirmar que o mesmo acontecerá em São Januário, mas de reconhecer que o risco existe, e que, historicamente, ele quase sempre recai sobre as mesmas pessoas.
Por isso, defender a existência de um São Januário popular pós-reforma não é uma pauta restrita ao vascaíno ou ao Vasco enquanto instituição.
É antes de mais nada, uma pauta de todos, especialmente daqueles que defendem um futebol mais acessível ao povo.

Torcedores comprando bebidas nos bares da comunidade — Foto: GE

Barreira do Vasco em dia de jogo — Foto: Voz das Comunidades

Mosaico ‘Resistiremos’ na reabertura do estádio contra o Coritiba, valido pela rodada do Brasileirão 2023 Série A — Reprodução internet
Porque ali está um dos raros espaços da cidade onde o carioca deixou sua marca, e ela ainda permaneceu viva. Quantos brasileiros e brasileiras, vivos ou mortos, já sentaram naquelas arquibancadas de cimento para torcer? E quantos, vascainos ou não, fizeram dos arredores do estádio o seu lar, e também fonte de sustento, com bares, restaurantes e trailers que existem a partir daquele fluxo de gente? Quantos meninos e meninas saíram dali e se tornaram grandes atletas?
Somos incapazes de mensurar. Mas de uma coisa não tenho duvida, são esses corpos que transformaram um estádio de cimento em algo que ultrapassa o concreto, uma construção feita também de memória, de circulação de vidas, de histórias que se acumularam naquele terreno.
E, num tempo em que tantos espaços na cidade foram remodelados para afastar, filtrar e excluir, reconhecer o valor de São Januário é também reconhecer o valor de permanecer.
Viva São Januário, Viva a Barreira, Viva Zona Norte e ao futebol suburbano!
메타데이터
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