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O país apostou: como as bets se tornaram parte da vida de milhões de brasileiros

Por Bárbara Luise, Fernando Chagas, Karen Lima, Rafael Di Giorgio e Rafaela Maia, alunos do JOS1D

Jornalismo Cásper 2025 · 2025-06-22 11:25 · 6 claps · 7.9 min read
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O país apostou: como as bets se tornaram parte da vida de milhões de brasileiros

Por Bárbara Luise, Fernando Chagas, Karen Lima, Rafael Di Giorgio e Rafaela Maia, alunos do JOS1D

As pessoas buscam cada vez mais as apostas como forma de entretenimento, investimento e oportunidade em suas vidas.

Reprodução — Pexels

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Uma promessa de dinheiro fácil. Poucos cliques e muitos anúncios de plataformas. Não exige esforço mental, muito menos físico. Basta apenas uma conta cadastrada e o meio de pagamento registrado. Se perder? Tente novamente. Em algum momento, surge aquela certeza de que, dessa vez, a sorte vai sorrir.

É a nova febre do momento. Não se restringe a nenhuma classe social específica, muito menos a um grupo. As pessoas conhecem, falam delas, até vivem delas. Justas ou não, elas existem. E não estão se escondendo de ninguém.

As apostas on-line, mais conhecidas como bets, invadiram a casa de milhares de famílias brasileiras. Mesmo quem não joga as conhece. Porém, será que a população compreende seus efeitos? Será que, afinal de contas, as apostas ultrapassaram o campo do entretenimento?

Quando a diversão vira vício

“Uma vez, me perdi em meio aos ganhos que estava tendo com as apostas. Comecei a apostar valores altos, de quinhentos reais, mas perdia tudo. Em resumo, voltei praticamente à estaca zero. Me veio uma ansiedade bizarra, ao ponto que fui parar no hospital porque pensei que ia ter um infarto.”

Este é o relato de Bruno Mendes Camilo, um apostador que teve um momento de sua vida marcado pelas sensações conturbadas das apostas. Embora envolvam dinheiro misturado a perdas e ganhos, as apostas on-line são encaradas como forma de entretenimento. Porém, muitos outros fatores entram em jogo.

“Elas [as apostas] podem se tornar um vício, para qualquer um”, conta Bruno. “No começo, é fácil ganhar dinheiro. Mas depois, quando se percebe que a taxa de ganho varia muito de qual casa (ou plataforma) está apostando, as perdas aparecem.”

Apesar do ato de apostar ser uma vontade própria do indivíduo (pelos mais variados motivos), são relatados problemas emocionais, financeiros e psicológicos que surgem relativos ao vício em apostas. Segundo um caso relatado no G1, uma mulher disse que sua filha se viciou no mundo das apostas e o prejuízo para a família chegou a 200 mil reais.

Papo mental

Adrenalina, recompensa, prazer. Quando alguém aposta, essas sensações ganham força e as expectativas aumentam. O cérebro trabalha constantemente durante essa atividade e a parte mental dos apostadores é impactada. Francisco Romão Sanches Junior, psicólogo clínico, aborda as características das apostas e como seus usuários são afetados:

“O que nos atrai nelas [as apostas] é uma mistura de emoção, incerteza e possibilidade de uma recompensa imediata. Um dos principais envolvidos nesse processo é a dopamina, que é liberada no momento da aposta. E essa dopamina liberada não depende do ganho em si, mas sim da antecipação do ganho”.

Segundo dados da Associação Americana de Psiquiatria, o quadro de “transtorno de jogo” (com as bets) é marcado por um padrão de apostas repetidas e contínuas, apesar do ato gerar vários problemas na vida do indivíduo. Francisco explica:

“O vício em apostas ativa o mesmo sistema de recompensa que drogas como cocaína ou álcool. Mesmo diante de perdas graves, a pessoa não consegue parar. Sabe racionalmente que está se prejudicando, porém o desequilíbrio no funcionamento dos circuitos cerebrais a impede de deixar as apostas de lado”.

O vício em apostas é sério e deve receber um tipo de tratamento particular para cada caso.

“O tratamento costuma ser mais lento. Isso acontece porque o jogo, nesse ponto, não é apenas uma diversão: ele se tornou uma fuga emocional.”

A invasão na economia

As apostas não se restringem ao mundo do entretenimento. Ultrapassam essa barreira e afetam a economia. Segundo um planejador financeiro entrevistado, que por razões particulares decidiu não declarar seu nome, as bets têm grande parte de seus efeitos no orçamento das famílias brasileiras. “Estamos diante de um novo agente econômico que tem retirado recursos de áreas fundamentais da vida das pessoas, especialmente entre os mais pobres”, afirma o especialista.

Para o entrevistado, o crescimento do mercado de apostas representa uma ameaça silenciosa à economia. Ele destaca que, diferentemente de setores produtivos tradicionais, as casas de apostas têm um impacto muito mais restrito na geração de empregos e na cadeia produtiva.

“Quando você compra um produto no varejo, o dinheiro circula: paga o vendedor, o fornecedor, o transporte, os impostos, a produção. Nas bets, esse dinheiro muitas vezes vai direto para uma empresa com sede fora do país, com estrutura enxuta e poucos vínculos com a economia local.”

Reprodução — Pexels

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Essa concentração, segundo ele, pode enfraquecer o consumo interno. “Estamos direcionando bilhões de reais para plataformas digitais que oferecem pouco ou nenhum retorno em forma de desenvolvimento econômico local. Isso é extremamente preocupante.”

Os que sofrem

Um dos dados mais impactantes apresentados pelo especialista vem de um levantamento do Banco Central de agosto de 2024. Segundo ele, somente naquele mês, quatro milhões de chefes de família transferiram 3 bilhões de reais para casas de apostas. O dado mais alarmante: cerca de 15% desse valor foi proveniente de beneficiários do programa Bolsa Família.

“Estamos falando de cem reais, em média, por família. Pode parecer pouco para alguns, mas para quem vive com R$ 684,00 (como é o caso da média do benefício), se fala de uma quantia que representa alimentação, gás, transporte. É uma escolha entre o essencial e uma promessa de retorno fácil que, na maioria das vezes, não se concretiza.”

O especialista ressalta que o impacto nas camadas mais pobres é amplificado pela fragilidade orçamentária. “A classe média alta pode perder R$ 100 numa aposta e seguir o mês normalmente. Mas para uma mãe solo que depende do benefício, isso pode significar não conseguir comprar comida por dois ou três dias.”

O horizonte das bets

Desde janeiro de 2025, as casas de apostas no Brasil estão proibidas de aceitar pagamentos via cartão de crédito. Embora importante, o economista considera a medida insuficiente:

“A proibição do cartão de crédito foi um marco positivo. Isso evita que o apostador se endivide com dinheiro que não tem. Mas ainda falta controle, educação financeira e campanhas de conscientização, principalmente entre os jovens”.

O recado do entrevistado é claro: as apostas esportivas não são apenas um mercado em ascensão. São um fenômeno econômico que, mal regulado e pouco compreendido, pode provocar consequências duradouras.

“A longo prazo, o impacto das bets será sentido na produtividade, saúde mental, inadimplência e qualidade de vida das famílias.”

Reprodução — Pexels

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A trajetória jurídica das apostas no Brasil

A história da legalização das apostas no Brasil é um pouco conturbada. Segundo o advogado Felipe Ribeiro, é quando ocorre a promulgação da Lei 3.688 (que classificava os jogos de azar como contravenção penal) que se inicia a trajetória jurídica dos jogos de azar e apostas, frequentes até os dias atuais.

“Nas décadas sucessivas, tentativas da implementação de outras formas de jogos foram feitas, mas todas sem sucesso. Foi apenas em 2018, com a criação da Lei 13.756, que o país começou a caminhar para uma abertura legal do setor.”

Embora essa lei tenha autorizado as apostas de “cota fixa”, aquelas que o apostador sabe previamente quanto pode ganhar, não houve uma regulamentação acompanhada. Isso impediu a cobrança de impostos das empresas.

“O cenário mudou com a Lei 14.790, que finalmente regulamentou oficialmente as bets, estipulando algumas exigências. Entre elas, a empresa de aposta ter sede no Brasil, autorização do Ministério da Fazenda e a obrigatoriedade de que as transações sejam 100% digitais — vedando o uso de dinheiro em espécie ou boletos bancários”, comenta o advogado.

Benefícios da regulamentação

Um dos principais impactos positivos apontados é o potencial arrecadatório. Felipe explica que “os prêmios líquidos dos apostadores estão sujeitos à alíquota de 15% de Imposto de Renda. Além disso, as empresas devem pagar 12% sobre o GGR (Gross Gaming Revenue), que representa o lucro bruto das operações de apostas”.

Com a legalização, os apostadores passam a ser reconhecidos como consumidores perante a lei. Esse fato garante a proteção de órgãos como o Procon e o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor. Esses mecanismos têm o poder de fiscalizar e punir empresas que agirem de forma irregular, como é o caso dos chamados “sites fantasmas” e/ou pirâmides financeiras.

“Influencers” e as bets: parceria polêmica

Virgínia Fonseca, influenciadora digital de 26 anos, chegando à marca de 53 milhões de seguidores no Instagram, é uma das famosas que têm parceria com algumas casas de apostas esportivas. O advogado Felipe Ribeiro alerta:

“Nem sempre aqueles que promovem as plataformas de apostas [os influencers] deixam em evidência os riscos dos jogos ou mesmo que estão fazendo publicidade”.

O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) tem atuado para fiscalizar e estabelecer diretrizes éticas para esse tipo de propaganda.

Felipe cita, como exemplo, a CPI das Bets. Essa convocação foi feita com o intuito de investigar os impactos das plataformas de apostas on-line e como isso afeta a vida de diversas famílias brasileiras.

Criada pela senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), a iniciativa foi instalada na Câmara do Congresso no dia 12 de novembro de 2024. Segundo Soraya, as divulgações dos cassinos e jogos on-line contribuem para a “atuação do crime organizado, como: lavagem de dinheiro, evasão de divisas e prejudica, sobremaneira, a população brasileira”.

Foi aprovada, no dia 29 de maio de 2025, a PL 2.895/2023. Essa lei restringe anúncios vindos de atletas, artistas, influenciadores e autoridades. Agora, o texto segue para análise na Câmara dos Deputados.

Em meio a gritos e apitos

Brasil: o País do Futebol. Os atletas jogam, os juízes apitam e o povo celebra. Embrenhadas em meio a essa tradição do esporte no país, as apostas encontraram um caminho para alcançarem os envolvidos com o mundo midiático do futebol.

Reprodução — Pexels

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Se há público, há economia. As bets são caracterizadas, principalmente, pelas apostas esportivas porque é nesse ramo que o dinheiro circula. Surge a oportunidade, a chance de lucrar com jogadores e clubes de futebol que lentamente vão se transformando em mercadoria. O lema de “Jogue com responsabilidade” sem dúvida é constantemente visto pelos apostadores na sua rotina de jogos.

Tome-se como exemplo o caso do jogador Lucas Paquetá. O meio-campista do clube West Ham, da Inglaterra, teve seu nome envolvido em uma polêmica devido a uma suspeita de apostas. Acusado pela The Football Association de, em quatro jogos de seu clube, ter forçado cartões amarelos, o jogador foi indiciado devido ao lucro de apostadores localizados na Ilha de Paquetá, local onde o atleta nasceu. Agora, está envolvido em um processo que pode bani-lo do futebol.

“Existe uma pressão adicional e suspeitas injustas, mesmo quando se está fazendo o trabalho de forma honesta”, relata Everson Fernando Rasquinho. Ex-árbitro da Série B do Campeonato Brasileiro e da Copa São Paulo de Juniores, ele comenta sobre a relação da arbitragem com escândalos de apostas esportivas. Casos desse tipo já aconteceram e ganharam notoriedade, como o *Calciopoli, *em 2006, na Itália:

“A Federação Paulista de Futebol (FPF) e outras organizações esportivas implementam treinamentos específicos para árbitros, que incluem módulos sobre ética e integridade. São projetados para ajudar os árbitros a reconhecerem e lidarem com possíveis tentativas de corrupção, incluindo aquelas relacionadas a apostas”.

Diante desse cenário conturbado das apostas, o entretenimento passa a ser investimento. A diversão transforma-se no trabalho. As casas de apostas continuam ativamente participando da economia e, goste-se ou não, elas fazem parte da vida de muitos brasileiros no ano de 2025.


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