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O Diarrei

As Bostas de Heliogábalo

H. P. Bostocraft · 2024-10-10 16:37 · 0 claps · 2.9 min read
#fezes-endurecidas #merda #lovecraft #cosmic-horror #império-romano
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O Diarrei

O general Heliogábalo, detestado pelo seu populacho e maldito pelos que laceravam a profanação que fazia prosperar pelas cidades do Império Romano, armou contra seus conterrâneos que fossem esmagados por uma precipitação infindável de pétalas de rosas sufocantes, que lhes privavam da dádiva gratuita e sempiterna da inspiração. Depois de uma longa vida dando e comendo bunda, um de seus cafetões havia relatado a chegada de uma visita interessada do Egito¹, atrás dos serviços carnais que o desmiolado imperator oferecia no palácio real de Roma. Foi pedido, em evidente contraste com o costume de Heliogábalo, que ele não ficasse exposto ao convidar seu cliente, mas que se encontrassem nos umbrais mais escuros e recônditos da majestosa arquitetura.

Uma vez que o imperador, nu, viu se aproximar a sombria figura, logo percebeu o seu semblante enigmático que não parecia desse mundo. O sujeito em questão se apresentou como o Faraó do Leite Quente, e afirmou que mentiu ao dizer que procurava o corpo da realeza. Antes, apresentou uma sugestão para “ap’i’mentar” os festejos voluptuosos de Heliogábalo: ao invés de colher inúmeras rosas que podiam habitar as beldades botânicas do Império, que seus servos aterrissassem em todas as fossas e recolhessem o máximo de dejetos humanos que pudessem, considerando-se a crença epocal na sua capacidade merdicinal, unânime entre os mérdicos da região. Assim, o amplo volume diarreico, no lugar de sufocar suas vítimas, as curaria e regeneraria. Ao que o imperador deu confirmação imediata e de pronto enviou seus súditos às fossas romanas para que toda a matéria fecal fosse concentrada no palácio romano.

Antes que a cerimônia pudesse vigorar, contudo, foi notado que as fezes se encontravam esfareladas e frágeis até mesmo à brisa mais tranquila, e seria, com efeito, impossível levar a cabo os anseios babões do chefe nacional. Um extenso ritual foi conduzido da meia-noite às 04 da manhã para reativar a qualidade líquida, pura e acídica, do material intestinal acumulado pelos séculos da civilização universal. As mais ocultas artes alquímicas perenes foram conjuradas por sábios e sacerdotes para invocar o nome de Cloacina e reliquidificar a massa absoluta de diarreia amarelada, pulsante de vida, das fossas romanas.

Eis que chega o fatídico dia da convocação imperial e chove o lamaçal fluido-mole diarreico do teto falso do palácio romano. Ao invés de restaurar o vigor de suas vítimas, no entanto, mais uma vez elas morreram asfixiadas na grande tormenta fedorêntica de bosta mole. Eis que a mãe de Heliogábalo e seus conservos conspiram assassiná-lo, e assim ocorre, tão grande era o constrangimento pela sem-vergonhice e falta absoluta de pudor do seu imperador.

Alexandre, Trácio e todos os seus sucessores se esforçaram por encobrir a vergonha sanguinário-merdolenta de Heliogábalo. O primeiro deles mandou que se construísse um grande poço, no qual fosse soterrado o volume da melerda mollys coletada para realizar os anseios do falecido imperador, sem que o populacho pudesse jamais descobrir o fato corrido. Quando o serviço começou, todavia, todos estranharam que nenhum corpo se encontrava entre o massivo lamaçal merdobóstico — como se todos os organismos sufocados tivessem sido assimilados à massa diarreica. O grande volume mérdico foi enterrado e esquecido.

Eis que, desapercebida, a massa diarreica se multiplicava, invisível, sob o solo romano, a se alastrar por todo o domínio continental, europeu e oriental. A princípio, decaiu a fertilidade do solo, e a fome aterrissou pela extensão do território de Roma, capitais e vassalos de modo indistinto. O grande poço subterrâneo de diarreia, insatisfeito, tornou a consumir a energia vital dos povos que sobre o Império habitavam. Sem conseguir resistir às suas próprias intempéries e às ameaças externas, as longas ruínas de Roma entraram em colapso sob Rômulo Augusto. Toda a civilização, por obra de Heliogábalo, o Diarrei de Roma, foi engolida para sempre pelo colosso amorfo de merda que se alimentava do núcleo e da vida da terra.

As Bostas de Heliogábalo.

As Bostas de Heliogábalo.

NOTAS

*Esse texto, tal como “Jurassic Fart”, ocorre num passado remoto — desta vez, da humanidade, e não da história natural. Um personagem egípcio é citado no meio da narrativa. Sua identidade ainda há de ser revelada em um manuscrito posterior, mais tardio, que logo será publicado aqui mesmo.

¹Do Egito… Faraó… Cf. “Póstumas lembranças dum duco pretérito”…


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