Atraso da Mega-sena: Um SELECT Bem feito Resolveria
Para quem só tem martelo, qualquer problema é prego
Cartão da Mega-sena
Atraso da Mega-sena: Um SELECT Bem feito Resolveria
Para quem só tem martelo, qualquer problema é prego
Eu vi um post no LinkedIn que me deu uma sensação estranha, uma mistura de riso nervoso com um incômodo difícil de explicar. O autor usava como exemplo o atraso na divulgação dos ganhadores da Mega da Virada, o sorteio de fim de ano da Mega-Sena que mobiliza o país e que, neste ano, passou de 1 bilhão de reais. Segundo ele, atrasou porque era “só” questão de dado mal organizado, então bastava um select bem feito, uma modelagem melhor, uma arrumação na base.
A frase tem um núcleo verdadeiro. Dados bem estruturados ajudam. Quem trabalha com tecnologia sabe o prazer de ver uma pergunta bem formulada voltar com resposta rápida, limpa, quase bonita. Eu mesmo já senti orgulho quando um processo que dependia de gente passou a rodar sozinho. Já vivi aquela alegria de ver a máquina me obedecer (sim, pode rir). Só que existe uma diferença enorme entre encontrar um resultado e fechar um resultado. E foi aí que eu travei.
Porque uma coisa é uma consulta. Outra coisa é um processo que precisa ser incontestável. Quando o assunto envolve um prêmio histórico, quando a atenção pública está em cima, quando existe risco reputacional, jurídico e operacional, o tempo não é apenas “rodar um select”. O tempo inclui validação, cruzamentos, trilha de auditoria, repetição do caminho, checagem de consistência, comunicação oficial, responsabilidade de quem assina embaixo. Numa situação dessas, o que a gente chama de demora pode ser, na verdade, o preço de não errar em rede nacional.
Mesmo que, em algum ponto do caminho, exista um select, ele não é a explicação. Ele é um detalhe dentro de um processo maior. O problema aparece quando o processo some e sobra só o detalhe, transformado em moral da história.
Não estou dizendo que o autor do post seja ignorante. Nem estou dizendo que ele está mentindo. Eu nem sei quem é essa pessoa, e não quero transformar isso em caça às bruxas. O que me interessa é o mecanismo que esse tipo de narrativa revela.
Tem uma fantasia que o LinkedIn adora, e que no fundo quase toda rede social adora também, a fantasia do “pronto, resolvia com um select”. A fantasia de que o mundo real é um painel de métricas e que, se alguém não respondeu rápido, foi porque faltou competência técnica ou organização básica. Essa fantasia costuma nascer de dois lugares.
O primeiro é humano. A gente enxerga o mundo pela janela que domina. Se eu domino banco de dados, eu tendo a ver banco de dados em todo lugar. Se eu domino automação, eu tendo a ver automação como resposta para tudo. A janela pode ser excelente, mas ainda assim é uma janela. Quando a gente esquece que é janela, ela vira paisagem inteira. É aí que ideias parecidas com o efeito Dunning-Krueger ajudam como hipótese, não para diagnosticar alguém, mas para lembrar que o desconhecimento de uma parte do sistema pode vir acompanhado de confiança. Não por maldade, mas por limite mesmo. O que eu não vejo, eu não conto. E se eu não conto, eu posso acreditar que não existe.
O segundo lugar é ambiental. E aqui não é só culpa do feed, nem só do algoritmo. É um pacote. O jeito como a plataforma mede sucesso, o tipo de post que ela empurra, o tipo de post que a gente premia com atenção, e o tipo de simplificação que quem escreve aprende a entregar. A nuance não é proibida, mas ela custa caro. Ela demora. Ela exige contexto. Ela dá trabalho para ler. E quando a gente está cansado, a gente também prefere o atalho. A frase que fecha o mundo e o exemplo que parece prova irrefutável.
É isso que eu chamo, meio brincando e meio falando sério, de LinkedIn- Dunning-Krueger. Não é uma teoria científica. É um nome para um hábito que a rede treina em nós. A certeza performática ganha medalha, joinha, biscoito… A explicação que “parece completa” ganha aplauso. A pessoa que coloca um laço em cima de um problema enorme, como se fosse presente. E vira referência.
E aí entra a parte que completa o circuito. Quando a plataforma premia a certeza performática, a reação do público vira combustível. Gente elogiando, chamando de “mago”, pedindo para “movimentar” o post, como se aquilo fosse uma revelação. Eu entendo esse impulso, porque é confortável acreditar que o mundo é organizado, ou que poderia ser organizado, e que existe alguém ali que enxerga um caminho simples. Só que esse conforto também anestesia a pergunta mais incômoda, que é justamente a que some do texto quando ele fica redondo demais: o que ficou de fora do recorte? Só que, para quem tem experiência com ambiente produção de verdade, essa simplicidade tem um cheiro específico. Ela não cheira a mentira. Ela cheira a palco.
E aqui entra uma parte incômoda, que eu preciso reconhecer para não virar o chato que eu mesmo temo virar. Quem trabalha com o bastidor tende a desenvolver alergia a simplificação. Isso é saudável, porque protege contra soluções mágicas. Mas essa alergia também pode virar um vício de superioridade técnica. A gente começa a tratar qualquer recorte como burrice. A gente começa a confundir “post didático” com “pessoa rasa”. E aí o problema muda de lugar.
O meu incômodo maior, no fundo, não é com a simplificação em si. É com a simplificação que vira explicação total. É com a forma como um recorte bem escrito passa a ser confundido com o sistema inteiro. E é com o jeito como essa confusão fabrica “magos” na timeline.
Talvez o antídoto seja pequeno, quase humilde, e ele não passa por parar de simplificar. Passa por simplificar com um freio de honestidade, uma frase que devolva profundidade sem matar o ritmo do texto, como quem lembra para o leitor e para si mesmo que aquilo é um recorte, não o mundo inteiro. Eu penso numa linha simples, do tipo “eu posso estar simplificando, porque aqui tem validação, auditoria e risco”. Parece pouco, mas muda a leitura. Ela não enfraquece a ideia, ela amadurece a ideia. Ela impede que a narrativa vire sermão e também impede que a pessoa que lê confunda confiança com completude.
Eu continuo achando que dados bem organizados importam, e continuo achando que governança evita dor de cabeça, só não compro a ideia de que, diante de um evento público e crítico, o problema se resolve com um comando. No mundo real, o select vem depois de uma fila de responsabilidades e, muitas vezes, a demora é o nome que a gente dá para a parte do trabalho que não aparece no print.
E aí, no segundo dia do ano, eu fico com uma pergunta. A gente quer atravessar 2026 premiando a clareza de palco, ou treinando a coragem de reconhecer o que ainda não cabe em três linhas?
메타데이터
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- 2026-07-13 17:48:35